Vergão: O adeus injusto de Ana Paula Delgado Lopes

O jornalismo exige imparcialidade e isenção. Pede que contem factos, sem julgamentos, sem emoção. Mas há momentos em que ser apenas jornalista é impossível. Hoje, quem escreve é também alguém que sente, que se indigna e que partilha a dor de uma perda que nunca deveria ter acontecido.
Ana Paula Delgado Lopes, 53 anos, foi uma das vítimas do trágico acidente no Elevador da Glória, em Lisboa. Uma mulher de sorriso aberto e contagiante, sempre pronta a ajudar, admirada por todos os que com ela se cruzavam. Partiu cedo demais, deixando um vazio impossível de preencher.
No sábado, 6 de setembro, a sua aldeia natal, o Vergão, concelho de Proença-a-Nova, tornou-se pequena para acolher tantos que quiseram prestar-lhe a última homenagem. A Igreja encheu-se até não caber mais ninguém, falam em mais de 500 pessoas. Foi um adeus coletivo, onde a emoção falou mais alto do que as palavras e o silêncio foi rei.
Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, esteve presente e, em nome de todos os portugueses, de todo um país, abraçou, e acompanhou, uma família enlutada e marcada por um destino cruel. Também autarcas locais quiseram associar-se a este momento de dor, confirmando o respeito e a admiração que Ana Paula granjeou ao longo da sua vida.
Mas o peso desta perda recai sobretudo nos pais, que em apenas dois anos viram partir dois dos seus três filhos. Uma dor para a qual não há explicação nem consolo possível. Ao lado deles, uma irmã que ficou com a difícil tarefa de ser o suporte de quem já sofreu demasiado. E ainda um marido e uma filha, na flor da idade, agora privados da presença diária de quem tanto amavam.
No Vergão, todos sabem que Ana Paula nunca esqueceu a sua terra. Estava sempre presente nos momentos importantes, reafirmando as suas raízes e os laços que a uniam à comunidade. Por isso, a sua partida não é apenas uma tragédia pessoal: é uma ferida aberta em toda a aldeia.
E talvez seja isso que mais dói: a consciência de que alguém que dava tanto, que irradiava tanta vida, foi arrancada de forma tão abrupta e injusta. A lembrança do seu riso ecoará nas ruas da aldeia, no coração dos amigos e no abraço silencioso de todos os que, de olhos marejados, repetem para si mesmos que não é possível, que não é justo, que não devia ter acontecido.
Ana Paula partiu, mas deixou um legado que não se apaga. Quem a conheceu levará para sempre a marca da sua generosidade, da sua presença luminosa e da sua capacidade rara de fazer os outros sentirem-se importantes. Se a morte lhe roubou a vida, a memória garante-lhe eternidade. Porque há pessoas que não desaparecem: transformam-se em lembrança viva, em inspiração, em exemplo. Ana Paula será sempre uma dessas pessoas.
João N. Santos
