Reaprender a voar

Reaprender a voar
Maria Leonarda Tavares

Há dois dias deixei-me surpreender por um melro que ensinava e incentivava as suas crias a voarem. De ramo em ramo, a baixa altitude, numa dança emocionante, as pequenas criaturas ganhavam confiança e aventuravam-se, a cada minuto, a voos mais longos e mais acrobáticos.

Nós estamos também a precisar de reaprender a voar, a retomar a nossa vida e sobretudo a voltar a sonhar.

Fizemos a travessia da noite, perseguidos por sombras invisíveis. Vivemos meses suspensos, meses à espera de sorver a força da primavera e renascer a par da natureza.

Deixar de sentir a diferença nítida entre rua e casa. Com máscara e sem máscara.

Interiorizar e entrar dentro das emoções sem as temer.

Passear nos lugares que sempre estiveram aqui. Visitar os espaços que nos falam. Encontrar as pessoas que conhecemos.

Há memórias angustiantes do passado recente. Não podemos apagá-las, mas devemos proteger-nos delas.

Ao longo deste tempo até quem não tinha o hábito de rezar se deu conta de que rezava. Amontoámos súplicas. Invocámos todos os santos.

Fomos protagonistas de uma história de fragilidade. Soubemos o que era uma pequena embarcação à deriva em busca de um ancoradouro seguro.

Foram tantos os nossos medos. Medo daquilo que não controlávamos. Medo de não termos uma mão amiga nas horas mais escuras.

Este processo talvez nos tenha humanizado um pouco mais. Talvez nos tenha dito as coisas que era urgente ouvir. Talvez nos tenha ensinado a humildade de sabermos estar de joelhos.

É chegado o momento de nos reerguermos. Que bom pensar no interesse de certas viagens, nas paisagens refrescantes e sobretudo na excelência do convívio com familiares e amigos.

Que cheguem as palavras do reencontro. A esperança de um começo equilibrado e leve.

Precisamos de seguir por caminhos que conduzem à alegria. Saborear as pequenas coisas da vida. Ter um coração confiante.

Que a força de um sorriso prevaleça sobre as dores e os desalentos.

O que escrevo, esporadicamente, para este jornal faz-me bem à alma. Sinto que estou com os meus.

Deixei a minha terra há muitos anos, mas nunca verdadeiramente me afastei dela. As vivências da minha infância foram os alicerces de tudo o que alcancei na vida. Os mortos continuam vivos. Ouço as suas palavras. Reconheço os afetos. Guardo as sábias lições.

Não há presente que não assente no passado. Foi aí que tudo começou. Recebi as riquezas que mais me orgulho de possuir.

O suor, a coragem e o exemplo dos meus antepassados atingiu uma dignidade e uma tão grande dimensão sobrenatural que não é fácil estar à altura de tamanha herança. Porém, ao longo da caminhada tenho, com a humildade que me ensinaram, agradecido a estrela que colocaram nas minhas mãos.

Partilho com os leitores uma antiga bênção irlandesa: “Que seja o caminho a vir ao teu encontro. Que o vento sopre sempre a teu favor. Que o brilho do sol aqueça o teu rosto e a chuva caia suave nos teus campos. Até que nos voltemos a encontrar, que Deus te guarde na palma da sua mão.”

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