Orquídeas africanas com sistema de polinização raro

 Orquídeas africanas com sistema de polinização raro

Rhipidoglossum falcatulum sp.nov.; flor, A. vista frontal, B. Vista lateral. Fotografia por M. Schaijes (República Democrática do Congo, M. Schaijes 1298 [BR0000025200034, BR0000025200027]).

Duas novas espécies de orquídeas descobertas na África Central estão a ajudar cientistas a compreender melhor como plantas tropicais interagem com os seus polinizadores e a revelar um tipo de polinização raramente observado na natureza.

estudo, coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra mostra, ainda, que estas espécies, agora identificadas, já se encontram ameaçadas de extinção.

As espécies, pertencentes ao género Rhipidoglossum, foram identificadas através de uma abordagem que combinou trabalho de campo, análise morfológica e dados de distribuição geográfica.

Para além da descoberta, os investigadores conseguiram algo pouco comum: observar diretamente a interação com os seus polinizadores, neste caso mariposas noturnas, um comportamento raramente documentado.

Estas observações ajudam a confirmar que a forma das flores está intimamente adaptada aos insetos que as polinizam, revelando relações ecológicas altamente especializadas.

As novas espécies foram encontradas em regiões da África Central, incluindo áreas montanhosas e florestas tropicais, consideradas importantes centros de biodiversidade. No entanto, apresentam uma distribuição limitada e já foram classificadas como ameaçadas, sobretudo devido à destruição de habitat.

Para os investigadores, este trabalho demonstra que a biodiversidade tropical é não só mais rica do que se pensava, mas também mais complexa nas suas interações ecológicas.

A falta de dados e a pressão sobre os ecossistemas tornam urgente continuar a estudar e proteger estas espécies antes que desapareçam.

“No grande quebra-cabeças que é a biodiversidade tropical, cada nova amostra ou registo pode representar uma peça ainda desconhecida pela ciência. Estes ecossistemas estão entre os mais ricos em biodiversidade do planeta, mas também entre os mais ameaçados e com maiores lacunas de informação. Estudos que combinem coleções biológicas, trabalho de campo e colaboração internacional são essenciais para compreender esta diversidade e apoiar estratégias de conservação antes que muitas destas espécies desapareçam”, refere Arthur Macedo, doutorando do CFE.

Os investigadores registaram ainda interações entre grilos e flores de orquídeas, um fenómeno extremamente raro e pouco documentado em escala global. Esta observação representa uma descoberta inédita e sugere que estes insetos poderão desempenhar um papel ecológico mais relevante na polinização de algumas espécies tropicais do que se pensava anteriormente.

“A grande diversidade floral de Rhipidoglossum deixa adivinhar muitas interações desconhecidas. Quem sabe se os grilos não poderão ser os polinizadores principais de alguma espécie na flora da África Tropical?”, questiona João Farminhão, investigador do CFE e orientador principal.

Rhipidoglossum acuminifolium sp. nov.; A. Inflorescência, B. flor, vista frontal. Fotografia de Jean-Michel Hervouet e Štěpán Janeček (República dos Camarões, holótipo Š. Janeček s.n. BRLU).

 

Principais interações reportadas entre Rhipidoglossum acuminifolium e potencial polinizador Afroracotis cf. squalida (Lepidoptera, Erebidae), 11 ago. 2017, às 22:12, visitando as flores (A) e removendo com sucesso a polínia (B). Escala = 1 cm. Registos por Štěpán Janeček e Yannick Klomberg.

 

Fêmea adulta (A) e ninfa (B) de uma espécie não identificada de grilo, cf. Glomeremus sp. (Orthoptera, Gryllacrididae, Ametroidini), 11 ago. 2017, às 19h15, visitando as flores e recolhendo resíduos de néctar da entrada do esporão de Rhipidoglossum acuminifolium. Escala = 1 cm. Registos por Štěpán Janeček e Yannick Klomberg.

*Catarina MartinhoUniversidade de Coimbra

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