Proença-a-Nova: Lurdes, a cozinheira do Galisteu!

Proença-a-Nova: Lurdes, a cozinheira do Galisteu!

Lurdes, uma sentinela de amor!

“– E, lá, quem lhe faz o prato?

– Um cozinheiro, avó.

– Como se chama esse cozinheiro?

Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia eu deixar essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anônima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador de que nem o rosto se conhece.– Cozinhar não é serviço, meu neto – disse ela. – Cozinhar é um modo de amar os outros.

Ainda tentei desviar-me, ganhar uma distracção. Mas as perguntas se somavam, sem fim.”

(A avó, a cidade e o semáforo, Mia Couto)

A Lurdes com quem partilhei tachos e panelas, temperos e muitas rizadas, era como esta avó do Mia Couto, uma sentinela de amor. Sempre a acudir a qualquer precisão, não olhava a meios para garantir que tudo era dedicação, entrega, tempero e coração. Se houve alguém na minha vida que elevou mais alto este modo de amar o outro através da culinária foi a nossa Lurdes. Mesmo quando lançava um “oh cachopa despacha-te que vêm aí as pessoas para comer” ou um “chega-te para lá que isso não pode ser assim feito”. Lembro com carinho quando me perguntava da vida, e logo queria saber de tudo, do trabalho, do filho, se já tinha namorada e tudo o resto o que lhe interessava. A Lurdes tornava-se íntima e próxima de quem gostava, era o amor de uma avó por um neto, era o carinho de uma filha por um pai idoso, era a ternura de uma tia por um sobrinho, era o ombro sentido de uma amiga. A Lurdes é o rosto da alegria e do amor traduzidos no prato.

*Rui Lopes, um amigo

Lurdes, alma grande

Com a Lurdes, não havia impossíveis. Tudo se fazia. Tudo ficava mais fácil. Não apenas na cozinha ou no forno. Também na vida em geral. Com a sua força da natureza, uma alma grande e mãos de ouro, iluminava o dia a dia da família, dos vizinhos e de todos que a rodeavam.

Partilhava com alegria o pão quente, fresco pela manhã, assim como o seu tempo escasso em ações de entre-ajuda nas tarefas do campo, sem hesitar nem esperar por recompensas. Ainda no último Novembro, numa tarde de apanha da azeitona em família, surpreendeu-nos aparecendo sem aviso sobre os panos com um “Vamos lá despachar isto!”.

Espontânea e ponderada. Aparecia como um relâmpago em nossa casa, muitas vezes antecipando necessidades ou ao mínimo sinal de alerta. Tantas vezes. Numa delas, em Janeiro de 2017, ligou-me sem fôlego e com a voz trémula “O teu pai morreu. Fala com os teus irmãos”. Lá estava ela, mais uma vez, na linha da frente, de corpo e alma. Era admirável o seu olhar sereno e profundo quando se lhe apresentava um problema.

Era parte da minha família por afinidade, com vínculo e compromisso total. Sem fronteiras na casa e no trato. Que estendeu para os meus filhos. “Oh Clarinha, vem cá!”, gritava por vezes da sua casa na semana anterior. E lá foi, o Duarte, que estava por ali. Voltou pouco depois com um saco de filhoses quentes para o delírio de todos. Com mel maravilhoso, também da Lurdes, fazia as delícias da casa.

O que ela gostava dos mais pequenos! “Olha o António, com o queixinho a tremer como tu”, dizia com um riso contagiante. E como eles conheciam o caminho para a casa dela, com a fresta do portão sempre aberta onde iam encontrar um chocolate, uma fatia de bolo ou um pastel.

De entre as relações, havia uma inexcedível. A relação com a sua irmã Fernanda. Trago-a aqui para partilhar um exemplo de amor e ternura. Quando o filho Vitor nasceu, a Lurdes trabalhava na Sotima, a cerca de três quilómetros da casa. Com o regresso ao trabalho, após a licença de maternidade, a Fernanda levava o menino ao colo, todos os dias, a pé, até à Lameira do João, a meio caminho, onde a Lurdes, também a pé, aparecia para lhe dar de mamar.

Como vamos viver sem ela? Com uma tristeza profunda da sua perda. Mas também com a satisfação de ter crescido com ela e de ter sido parte sua família.

*Jorge Lopes, o amigo

Os temperos da alma

Via-te sempre de fugida com pressa de chegar a outro lado onde também te esperavam. O teu carro ficava sempre a ligado e virado de frente para onde querias ir. Deixavas então o cheiro a pão quente, cheiro a casa, cheiro a mesa…. depois barrava-se a manteiga, que ao cair em cima do pão quente era como tu…deslizava.

Havia ainda umas bainhas para fazer numas calças, ou uns remendos para pregar, tinhas também que levar no táxi a Castelo Branco uma senhora a fazer a fisioterapia. Olha, dizias-me tu, “no próximo fim de semana tenho a festa X onde estarão umas 300 pessoas, e tenho a massa de pimentão para fazer logo à noite e fritar 2 coelhos que deixei em vinha de alhos”.

Tudo se fazia, tudo corria, eras forte, eras rija. O risco preto com que pintavas os teus olhos e do qual nunca te esquecias, traduzia a força de uma mulher guerreira.

Tudo coordenavas com uma precisão e um saber, todos te granjeavam respeito e admiração.

Trazias nos olhos a luz inquieta de quem tem pouco tempo para dormir, nas mãos o calor do terrado do forno, e no corpo a agitação de quem tem sempre pressa de chegar. Foste de tantas e de tantos, foste pertença de uma comunidade que hoje te chora e que muito te deve.

Temperaste a vida com os temperos da alma, foste mãe, filha, esposa, irmã, amiga e sempre, mas sempre mulher inteira com o gosto do sal e a alma do açúcar. Amassaste a vida como amassaste o pão, tendeste sonhos, partilhaste a côdea e a migalha. Mas também a vida te amassou, e tu também de cansaste…….

Não sei para onde foste Lurdes, estarás junto de Deus, mas sei onde ficaste, no coração de cada um de nós. Bem hajas por teres feito parte do meu chão, porque tu acrescentaste sempre, foste fermento. O coração tem uma casa que se chama memória, eu sei que moras lá.

*Helena Mendonça, a amiga

“A Lurdes era uma mulher de vida”

Como se diz lá para cima para o norte, quando se refere a uma mulher para dar conta de toda a labuta da casa, do quintal…, que dá conta da vida. Mas a Lurdes não era do Norte, era nossa, da nossa beira, do xisto queimado e das estevas, uma força da natureza que facilmente se apoderou do nosso coração, como naquele dia há muitos anos em que me apareceu à porta com o convite para o seu casamento e do Manel (não nos conhecíamos), que seria dali a umas semanas, ali no Galisteu. Sempre disponível, dona de uma capacidade de organizar e por a mexer todos à sua volta, dona de uma simplicidade e alegria de fazer inveja. Era a Lurdes, que nos deixa a saudade do seu delicioso Coelho Panado à Lurdes, a última refeição que fez para a nossa família. Guisadinho com aquela laboriosa camada de amor, um toque de farinha, ovo e pão ralado para fritar, e o cuidado no arroz cremoso que arrebatava com os sucos do coelho guisado.  Atenciosa com toda a gente, não esquecia nos seus cuidados os caprichos gastronómicos de nenhum comensal. O Bacalhau Albardado e a batata a murro, o javali assado ou guisado, as filhoses e o pão alvo bem amassado, entre muitas outras especialidades da Lurdes, só da Lurdes. Mas era no trato com o outro, na relação fácil que estabelecia com toda a gente que esta “mulher de vida” se elevava, deixando uma marca indelével em cada um de nós.  Perdemos o sabor das coisas da terra, perdemos a Lurdes, mas ficamos com a memória e o exemplo desta força da natureza.

*Rosa Morgado, a amiga

Uma pessoa extraordinária, simples!

As pessoas extraordinárias são uma força da natureza, e a Lurdes, não era exceção, na capacidade de se desdobrara a ajudar e acudir a todos, fossem pobres, remediados ou ricos. Não olhava à condição de vida, apenas lhe interessava o coração, e esse …estava frágil, um coração grande, mas frágil, que parecia não querer continuar. Não lhe conheci lamúrias, pois se as tinha, guardava-as no silêncio do seu sentir. Fizemos muita coisa juntas, era quem me fazia as festas cá de casa. A meias decidíamos, alinhávamos tudo, e depois era ela e aquela mestria na organização, nas compras, na chefia do pessoal, no tempero exímio e carregado no sentir. Lembro com especial ternura quando o Fernando fez aqui em casa e no salão dos bombeiros o almoço da tropa. Presenteou-nos com um banquete regional para mais de duzentas pessoas. E sempre aquela capacidade de com pouco fazer muito, e muito bom. A simplicidade das suas palavras, do seu sentir e agir refletia-se na sua culinária, onde o temperamento maravilhoso e a boa disposição reinavam para acolher no coração cada alma que se aproximava de si. Costuma-se dizer que quando temos pelo menos cinco amigos podemos nos considerar felizes. A Lurdes era uma delas, uma verdadeira amiga desta casa, muito próxima de mim. O seu lado maternal e sensível projetava-se em todos quantos ajudava, e ultimamente no cuidado ao Manel, uma verdadeira enfermeira. As suas mãos laboriosas, faziam a diferença no empratamento, na costura e em tudo o que tocava. Lembro com ternura que fez o vestido de noiva da filha, e, no dia de casamento lhe apareci em casa pela manhã “Ainda bem que você veio para me ajudar”. E lá levei uns figos, decorei a sala e as mesas, fiz o que pude… “Que bom ter vindo Dª Lucília, flores e tudo?!

*Lucília Lopes Pereira, a amiga

Sou grata a Deus por ter a Lurdes na minha vida. Ao seu lado construí lindas memórias, momentos inesquecíveis e aprendizagens para uma vida inteira. Ela é uma Bênção. A Lurdes agora está com Deus, e eu com a presença dela bem viva no meu coração. “Disse-lhe Jesus: eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. João 11:25

*Paula André, a amiga e companheira

Lurdes, a primeira a ser chamada para colaborar com a comissão de festas Santa Ana – Cumeada. Porquê? Porque esta mulher de sorriso fácil e simplicidade nos atos, era também conciliadora, perspicaz e uma óptima gestora de recursos humanos e materiais. Das pessoas conseguia sempre o seu melhor em prol da equipa, dos recursos, esses, nas mãos da Lurdes eram sempre um banquete. Em nome de todos os Cumeadenses, a nossa gratidão.

*Comissão de Festa da Cumeada, Isabel Marçal

A D. Lurdes, desde há muito tempo que era a cozinheira que sabiamente confecionava as refeições que tinham lugar na Associação Valdursense.

Era fácil lidar com a D. Lurdes. Por um lado, sabíamos que o resultado do seu trabalho era sempre de qualidade superior, e por outro, a sua simpatia e disponibilidade para encontrar as melhores soluções para as ementas, dava-nos a garantia que os comensais saíssem contentes e sempre com vontade de voltar para a próxima vez.

A sua vontade de resolver qualquer dificuldade que pudesse surgir na organização das refeições revelava-se em aspetos como doar fruta da época da sua produção para sobremesa ou encontrar as pessoas necessárias para ajudar no serviço das mesas.

Bem-haja por tudo de bom que nos proporcionou nos muitos momentos que tivemos a honra de partilhar.

*Associação Valdursense, Sebastião da Mata Alves

Agradecimento à Senhora Lurdes

Foi com muita tristeza que os elementos das várias comissões de festas da surra em Palhais Sertã, tiveram conhecimento da perda da Senhora Lurdes, a cozinheira, que tanto contribuiu para a realização e grande sucesso destes festejos.

A senhora Lurdes desenvolvia com notável desempenho todas as tarefas na cozinha, onde a simplicidade estava presente nas suas mãos que transformavam simples ingredientes em verdadeiros pratos encantadores e apetitosos. Esta senhora não se poupou a esforços para cumprir todos os detalhes no serviço das refeições que eram servidas a muitos grupos que por ali passavam nos quatro dias de grande azafama, sem se esquecer de fazer uns miminhos as crianças. Também de realçar que nada se desperdiçava, tudo se aproveitava para mais uma maravilhosa refeição sem grandes gastos económicos.

O nosso agradecimento a Senhora Lurdes pela sua amizade e pelo trabalho desenvolvido em prol do sucesso dos eventos.

*Comissão de festas de Nossa senhora da Nazaré (Surra) Palhais, Jorge Marçal

Às vezes parece que ainda ouvimos o som do teu sorriso,

Que vemos a luz do teu olhar, a voz do teu carinho,

Mas não!

A tua vida foi por outro caminho.

E entre uma e outra recordação  

Cresce a saudade

Dentro do nosso coração.

Até sempre.

*ACDR da Maljoga de Proença-a-Nova, Otília da Mata

Escrever sobre a D. Lurdes é, neste momento, muito difícil. Nos anos em que com ela privámos construímos uma grande amizade e a sua alegria era incentivo para todos nós.

A nossa associação recorda e agradece todos os momentos e disponibilidade que nos dedicou. Que tenha reencontrado a alegria e a paz que merece. Até sempre D. Lurdes

*ADCR das Moitas

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