Associações de veteranos atenuam impactos negativos do baixo nível socioeconómico na saúde

 Associações de veteranos atenuam impactos negativos do baixo nível socioeconómico na saúde

Uma equipa de investigação do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte) analisou o papel de fatores sociais na saúde de ex-combatentes da guerra colonial.

Os resultados revelam que os níveis significativos de problemas de saúde física e psicológica dos veteranos são moldados por fatores sociais como o contexto socioeconómico.

Participação em associações e sentimento de pertença podem servir como fatores protetores.

Durante o serviço militar na Guerra Colonial Portuguesa, muitos veteranos foram expostos de forma reiterada a situações de elevado stress, frequentemente de natureza extrema e traumática como o perigo de vida ou à integridade física.

Considerando os desafios da reintegração na vida civil após a guerra, tais experiências podem ter efeitos duradouros na saúde física e psicológica destas pessoas.

Ângela Romão, investigadora no CIS-Iscte e primeira autora do estudo explica que “a perturbação de stress pós-traumático (PSPT), a depressão major, e a perturbação de ansiedade generalizada estão entre as perturbações psicológicas mais identificadas nos veteranos da guerra colonial”.

De acordo com a equipa de investigação, a maior parte dos estudos previamente realizados tende a considerar o veterano como um caso clínico isolado, ignorando o contexto social mais amplo das suas condições de saúde e doença. 

Este trabalho, financiado parcialmente pelo Ministério da Defesa Nacional, surge, assim, como o primeiro no contexto português a explorar como o contexto social pode moldar os impactos de experiências traumáticas na saúde de veteranos.

Luísa Lima, psicóloga social, investigadora no CIS-Iscte e docente no Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, esclarece que o objetivo central do estudo passou por “analisar como os determinantes sociais, nomeadamente o estatuto socioeconómico, a participação em associações de veteranos e a identificação com as forças armadas podem impactar a saúde destes ex-combatentes”.

No estudo participaram 480 homens veteranos portugueses entre os 67 e 91 anos.

O estudo evidencia um forte sentimento de pertença às forças armadas, com 68% dos participantes a manifestarem orgulho em pertencer ao grupo de veteranos. No plano da saúde, pouco mais de metade (52%) refere ter uma condição física diagnosticada, enquanto 35% referem sofrer de uma condição psicológica crónica resultante da exposição a fatores de stress traumáticos durante o serviço militar.

A análise mostra, contudo, diferenças significativas em função das condições socioeconómicas. Entre os veteranos em contextos económicos mais desfavoráveis, a prevalência de perturbações psicológicas crónicas atinge 43%, contrastando com 23% entre os que se encontram em situações mais favoráveis.

Disparidades semelhantes surgem ao nível da escolaridade: 40% dos participantes com níveis de educação mais baixos reportam estas perturbações, face a cerca de 28% dos mais escolarizados.

“Estes resultados sugerem que a vulnerabilidade social pode aumentar significativamente o risco de sofrer de perturbações psicológicas crónicas.”,

afirma Ângela Romão.

O estatuto socioeconómico revela-se também determinante no impacto das limitações físicas e emocionais no quotidiano. Entre os veteranos em situação económica mais frágil, 10% referem que os problemas de saúde condicionam sempre as atividades diárias, valor que desce para cerca de 6% entre os mais favorecidos.

Já 8% destes últimos dizem nunca se sentir limitados pela sua condição de saúde, uma proporção que contrasta com 23% entre os que enfrentam maiores dificuldades económicas.

A equipa de investigação analisou ainda como a identidade social e o sentimento de pertença moderavam os impactos das variáveis sociais na saúde. A participação em associações de veteranos atenuou o impacto negativo do baixo estatuto socioeconómico na saúde, especialmente entre aqueles com elevados níveis de identificação militar.

Estes efeitos mantiveram-se significativos após o controlo das variáveis de idade e escolaridade. Para a equipa de investigação, este é um dado muito importante, já que é possível intervir de forma mais diretas nas variáveis psicológicas (identidade social e sentimento de pertença) do que nas variáveis sociais (estatuto socioeconómico).

“Esta investigação indica, por um lado, que contexto socioeconómico tem impacto na saúde dos veteranos e, por outro, como o sentimento de identidade partilhada pode servir como um fator protetor”,

afirma Ângela Romão.

Para a equipa de investigação, o desenvolvimento de políticas e intervenções devem ser orientadas para a redução das desigualdades em saúde e para o reforço do apoio a uma população envelhecida.

No contexto específico dos veteranos, as intervenções devem ser articuladas com as associações, uma vez que estas oferecem apoio e reconhecimento com base em experiências partilhadas, ajudando a reduzir o isolamento e a promover a reintegração social.

Para além de Ângela Romão e Luísa Lima, a equipa de investigação integra as investigadoras do CIS-Iscte Carla Moleiro, Raquel António e Rita Moura. O estudo foi publicado na revista científica Journal of Military, Veteran and Family Health, estando disponível em acesso aberto.

Pedro Simão Mendes

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