Paris, toujours Paris

Paris, toujours Paris
Maria Susana Mexia, Professora

«…Gosto de Paris. Mas há uma profunda amargura neste amor. Quando penso na capital francesa, penso em Voltaire e em Rousseau que ocupam os primeiros lugares neste mausoléu que apelidam de Panteão, porque no seu interior estão sepultados aqueles que o Estado francês reconhece como os seus “deuses” há trezentos anos: Voltaire, essa personagem repulsiva de escárnio diabólico, o pai do laicismo sectário, intolerante e fanático; Rousseau, esse sentimental duma inconsistência fenomenal, o pai da filosofia das Luzes, que, por ter negado a existência do mal no homem, criou um género de homem alheio aos conceitos de desenvolvimento pessoal e de aperfeiçoamento moral, um género de homem cuja única esperança é o “progresso social”.

Eis o que se lê à entrada deste mausoléu: “ Aos grandes Homens, a Pátria reconhecida”.

Lê-se e chora-se, por ser de mau gosto tal mentira. O Panteão que foi outrora uma Igreja dedicada a uma das maiores mulheres de França, àquela que salvou Paris da destruição mongol, é, desde a revolução francesa, um mausoléu dedicado aos “grandes homens” que, na realidade são grandes inimigos da humanidade.» (Um Caminho Russo, de Alexandre Havard)

A leitura desta obra suscitou-me a curiosidade de saber algo mais sobre o tempo remoto desta grande mulher esquecida na história de França – Genevieve.

Genoveva nasceu em Nanterre, perto de Paris, no ano 420, filha única de Severus e Geroncia, uma família muito humilde e modesta.

Nesta época a Britânia (actual Inglaterra) era uma importante província romana, mas pagã. O Bispo de Auxerre, São Germano, durante sua viagem à Britânia para lhes anunciar o cristianismo, passou por Nanterre, e uma grande multidão parou para ver o bispo santo e lhe pedir bênçãos. Foi quando São Germano olhou para os pais de Genoveva e lhes disse: “Feliz de vós que tendes esta menina! Ela será grande perante Deus e, atraídos pela sua virtude, muitos pecadores abandonarão o pecado e seguirão a palavra de Jesus Cristo”.

O Bispo entregou a Genoveva uma cruz dizendo-lhe para não se iludir com ouro e joias, caso contrário não alcançaria a Luz eterna, palavras que ela guardou para sempre no seu coração.

A jovem aos 15 anos formou, com um grupo de amigas, uma associação de mulheres dedicadas ao apostolado e a ajudar os pobres. Vestiam um hábito que as distinguia das outras mulheres. Não eram religiosas, mas viviam em santidade, nas suas próprias casas ou no local de trabalho, dedicando-se às obras de caridade e penitência, orando, fazendo jejum e ajudando os mais necessitados.

Aos 20 anos, com o falecimento dos pais, mudou-se para Paris, onde passou a morar na casa da madrinha, mas continuou a vida de oração, penitência e intercessão pela salvação das almas.

No ano de 451, Átila, “o flagelo de Deus” com o seu poderoso exército huno, tentou invadir Paris. A população apavorada, decidiu abandonar a cidade, porém, Genoveva convenceu-os a ficar e a rezar, pois deviam confiar em Deus, que impediria a invasão e a destruição da cidade. “Que os homens fujam se quiserem, se não são capazes de lutar mais. Nós, as mulheres, rogaremos tanto a Deus, que Ele ouvirá nossas súplicas”.

Mediante este desafio de fé os homens parisienses, mesmo em desvantagem, resolveram resistir ao invasor. Átila, porém, afastou-se misteriosamente da cidade e até hoje não se sabe exatamente porque desistiu da invasão.

A fama de santidade de Genevieve, a forma humilde como anunciava Cristo e socorria os doentes e famintos, fez dela uma mulher de caridade.

Mais tarde, 481-511, quando Paris foi ocupada pelo Rei Childerico I, Genevieve intercedeu junto dele e do seu sucessor  para conseguir a liberdade dos prisioneiros. Posteriormente, solicitou ao Rei Clóvis, primeiro monarca católico da França, para que construísse uma Igreja dedicada a São Pedro e a São Paulo.

Quando morreu, a 3 de Janeiro de 502, com 82 anos, o seu corpo foi sepultado nesta Igreja que ainda estava inacabada. Após a sua canonização, passou a chamar-se Abadia de Santa Genoveva. O Rei Clóvis, que morreu em 511 e a Rainha Clotilde, que morreu em 545 também foram sepultados neste local. A abadia foi saqueada e praticamente destruída pelos Vikings em 847, tendo sido parcialmente reconstruída ao longo das décadas seguintes, só foi concluída em 1177.

No ano de 1130, surgiu em Paris uma grande peste que causou muitas mortes. O povo começou a rezar a Santa Genoveva e fez uma procissão com suas relíquias pela cidade. Milagrosamente a epidemia acabou.

Genoveva, por estes e muitos outros milagres foi considerada a Padroeira de Paris. O Papa Inocêncio ll, marcou a sua festa litúrgica e seu culto para o dia 3 de janeiro.

Ao longo da história, Santa Genoveva sempre foi invocada por ocasiões de grandes calamidades como as epidemias, para implorar a chuva ou contra as inundações do Sena.

Em 1744, após uma doença grave, cuja cura foi atribuída a Santa Genoveva, o Rei Luiz XV fez a promessa de construir um grandioso templo em homenagem à Santa.

Durante a Revolução francesa, os jacobinos profanaram a Basílica, retiraram o corpo de Santa Genoveva, cremaram-no e lançaram as cinzas ao rio Sena. A Basílica perdeu a sua função religiosa e foi transformada, no que hoje é o Panteão, onde os líderes da revolução foram sepultados. Posteriormente o seu túmulo foi reconstruído com as suas relíquias na Igreja de Saint-Étienne-du-Mont. O Papa João Paulo II, em 2002, aqui se recolheu em oração a Santa Genevieve, Padroeira de Paris.

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