Opinião: Da lareira à luz elétrica


A eletricidade está hoje tão presente no nosso quotidiano que raramente pensamos nela. Acendemos uma luz, ligamos um eletrodoméstico ou carregamos o telemóvel sem sequer refletir sobre isso. No entanto, durante grande parte da História, nada disto existia. Antes da eletricidade, as casas eram iluminadas por velas, candeeiros a petróleo ou pela lareira, e muitas tarefas exigiam mais tempo, esforço e paciência.
Voltemos à segunda metade do século XIX, ao ano de 1878, quando se deu a primeira experiência elétrica de que há registos. O rei D. Carlos I era o monarca que governava Portugal e foi no dia 28 de setembro desse mesmo ano que Portugal viu pela primeira vez lâmpadas elétricas acesas, numa esplanada da Cidadela de Cascais. Serviu para comemorar o 15º aniversário do Rei e a Câmara Municipal de Lisboa disponibilizou candeeiros para iluminar este espaço e, no mês seguinte, os mesmos serviram para iluminar a zona do Chiado. Várias famílias portuguesas faziam excursões para ver estes candeeiros elétricos presentes na capital, apenas. Posteriormente, começaram a surgir as primeiras empresas de produção e distribuição de energia elétrica, com a construção da Central Tejo, em 1914, culminando com o início da Primeira Guerra Mundial. Mas Portugal mantinha se atrasado e a iluminação a gás manteve se nas ruas de Lisboa até ao ano de 1965. Durante décadas, a eletricidade ficou limitada às ruas principais das cidades, aos teatros, às fábricas e a alguns edifícios importantes. Enquanto Lisboa e o Porto começavam lentamente a iluminar-se, grande parte do país continuava a viver à luz das velas, dos candeeiros a petróleo e da lareira.
Só a partir de meados do século XX é que a eletrificação se começou a espalhar de forma mais rápida. Nos anos 40, o Estado apostou na construção de grandes barragens e centrais hidroelétricas, como a barragem de Castelo de Bode e a Barragem do Cabril. Depois, nas décadas de 50 e 60, foram construídas redes de distribuição que levaram a eletricidade a vilas e aldeias.
Mesmo assim, em 1966 ainda existiam muitas freguesias portuguesas sem eletricidade. Em várias zonas rurais, a luz elétrica só chegou nos anos 70. Até aí, as pessoas continuavam a estudar à luz de velas, a cozinhar na lareira e a utilizar objetos que hoje desapareceram, como o ferro de engomar a carvão ou o candeeiro a petróleo.
A chegada da eletricidade transformou profundamente a vida quotidiana. As casas passaram a ter luz, rádio, frigorífico, televisão e eletrodomésticos. Tarefas que antes exigiam muito tempo e esforço tornaram-se mais simples. Pouco a pouco, os objetos antigos foram desaparecendo e deram lugar a uma nova forma de viver. Hoje, é difícil imaginar a vida sem eletricidade. Está presente em quase tudo o que fazemos. Aquilo que no século XIX parecia uma novidade extraordinária tornou–se uma parte essencial do dia a dia. Ao mesmo tempo, a eletricidade continua a transformar-se. Se antigamente o grande desafio era levar a luz às casas portuguesas, hoje a preocupação centra-se em produzir energia de forma mais sustentável, através da água, do vento e do sol.
Hoje, basta carregar num interruptor para acender uma lâmpada. Mas lembrar o tempo em que isso não existia é também uma forma de perceber até que ponto a eletricidade transformou a vida dos portugueses.
Fontes consultadas: EDP, “Uma história de dois séculos: Portugal acende a primeira lâmpada”; Hemeroteca Municipal de Lisboa.
