Maria dos Anjos Ladeira Novo, a principal obreira da Casa do Resineiro

 Maria dos Anjos Ladeira Novo, a principal obreira da Casa do Resineiro

Maria dos Anjos Ladeira Novo

A principal obreira do  “ESPAÇO MUSEOLÓGICO CASA DO RESİNEİRO” das Corgas, Maria dos Anjos Ladeira Novo (MAN), foi entrevistada para o Jornal de Proença por Libânio Martins (LM).

LM: Em que medida a “CASA MUSEU”, hoje existente nas Corgas,  designada de “ESPAÇO MUSEOLÓGICO CASA DO RESİNEİRO”,  constitui, de algum modo, uma construção e um legado da sua experiência e do seu trabalho ao longo da vida ?

MAN: Sim. Efetivamente, a faixa etária dos alunos do primeiro ciclo,  requer que o ensino seja concreto. Quando me deparei com a disciplina de Estudo do Meio e a rubrica: “conhecer o passado do meio local” no ano de 1994, reparei que, no concelho, não havia nenhum museu etnográfico, de maneira a que as crianças conhecessem o seu passado. Resolvemos recolher peças antigas e comprar uma casa em xisto. Conseguimos em conjunto, alunos, encarregados de educação e todo o povo de Corgas, através de festas, rifas, leilões… Foram fantásticos. Os presentes e os vindouros conhecerão melhor a vida dos seus antepassados. É assim um legado importante para as gerações futuras. 

LM: Desde a Ideia, ao projeto até à realidade que hoje conhecemos e podemos visitar que principais OPORTUNIDADES e AMEAÇAS identifica ?

MAN: Identifico algumas oportunidades: muitos filhos da terra emigraram (a população decresceu). É um contributo para a fixação de pessoas na nossa aldeia. Gostaria que fosse fonte de receita (casas de turismo, cafés, empregos relacionados) embora não esqueçamos que estamos no interior de Portugal. Difusão dos nossos valores: honradez, alegria, solidariedade, religiosidade, hospitalidade… costumes e tradições. Gostaria que contribuísse para tornar o mundo melhor. Ameaças: perigo de não concretização dos objetivos por várias razões: interioridade, pouca divulgação, falta de apoio, até porventura, algum plágio que possa existir.

LM:  Que pessoas e entidades considera como determinantes para A CASA MUSEU obra que temos, hoje, na nossa aldeia, de que é principal obreira e impulsionadora ?

MAN: As entidades e pessoas que considero determinantes são:  em primeiro lugar a Associação Desportiva, Cultural e Recreativa de Corgas (respetivo presidente e direção) em nome da qual foi lavrada a escritura da casa. Em segundo lugar a Câmara Municipal (respetivo presidente), autora da sua reconstrução e que por sua iniciativa tem a melhor parte da casa, dedicada à interpretação e explicação da, sustentação, enriquecimento e dinamização. Em terceiro lugar o povo de Corgas e toda a comunidade em geral, que saberão preservar o seu património.

LM: Em seu entendimento, quem visitar a CASA MUSEU o que pode ficar a saber e conhecer sobre a CULTURA, do modo e condições de VIDA das GENTES da nossa aldeia?

MAN: Em meu entender a pessoa que visualizar a casa de xisto, as peças antigas, os quadros e respetivas legendas, quadras, poesias… ficará a conhecer a cultura, o modo e condições de vida das gentes da nossa aldeia. 

LM: O que de mais significativo gostaria de realçar sobre a origem, quantificação e qualificação das peças em exposição na CASA MUSEU. Nomeadamente,  aquelas para que mais trabalhou ?

MAN: O que de mais significativo vejo na origem das peças, é que estas são genuínas e eram usadas pelos doadores, algumas até mesmo antes do século XX, contando 200 anos de existência, no presente.

Quantificação: estão próximas das três centenas (incluindo os quadros). O inventário está sempre em atualização, visto serem oferecidas novas peças. 

LM: Este novo EQUIPAMENTO, porque tanto lutou , corresponde no essencial com a sua Ideia e projeto que imaginou ?

MAN: Sim. Este equipamento corresponde, no essencial, ao projeto que imaginei, no entanto, não corresponde na totalidade. Imaginava-o mais atrativo, rústico e maior. Como não esteve, na minha mão decidir, tive que me adaptar. 

LM: Que representa a Resinagem para a geração a que pertence e anteriores, designadamente,  na sua infância e nas primeiras décadas do séculos XX pelo que as pessoas mais faziam e contavam sobre as suas ocupações?

MAN: A resinagem para a geração a que pertenço (infância) e para as anteriores foi muito importante. O meu pai, os meus irmãos e irmãs trabalhavam na resina. Era um trabalho difícil principalmente para as mulheres (carregavam com a lata da resina todo o dia). No entanto, era a maior fonte de rendimento. No final da II grande guerra mundial, 1945, muita gente passou fome; havia racionamento de certos alimentos, como o pão. Embora tivesse nascido depois dessa data, nunca passei fome e nada me faltou, graças aos rendimentos que a resina dava. Quando comprávamos vestuário e outros bens , no Carlos Dias (comerciante local) diziam: “fica por conta da resina.”

LM: Que medidas, de imediato, propõe  para dar a conhecer e atrair visitantes a esta nova OBRA CULTURAL e, assim,  contribuir para a VALORIZAÇÃO da nossa aldeia ? 

MAN: As medidas que de imediato proponho para dar a conhecer e atrair visitantes a esta nova obra cultural são: em primeiro lugar, que seja feita uma grande divulgação nas redes sociais (penso que já começou), inclusive, criação de endereço electrónico e página  de facebook e ou na internet ; divulgação do número de telefone acessível (sem burocracia) com ligação imediata à pessoa que fará a visita guiada; criar um plano anual de iniciativas que dinamizem este novo ESPAÇO MUSEOLÓGICO  CASA DO RESİNEİRO , feito pela direção da Associação de Corgas. Que todos os visitantes sejam recebidos com empatia (como é costume) pelas pessoas da aldeia. Que todos os corguenses divulguem (seja qual for o lugar em que se encontrem) este espaço patrimonial.

LM: Para terminar que mensagem gostaria de deixar, neste dia de Nossa Senhora do Carmo,  16 de julho de 2022, a quem ler esta entrevista ?

MAN: A mensagem que gostaria de deixar, neste dia, de Nossa Senhora do Carmo (padroeira de Corgas, ver igreja no quadro): nunca desanime, não desista dos seus  sonhos. Estivemos quase 30 anos à espera desta concretização. Passámos por muitos maus momentos: falta de respeito, desacreditação, trabalho… Com resiliência e ajuda de Nossa Senhora do Carmo conseguimos chegar a bom porto.

Visite a nossa terra, o nosso espaço museológico. Ficará orgulhoso de ser corguense, proencense (concelho de Proença-a-Nova) e até orgulhoso de ser português.

*Libânio Martins

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