Jérôme Lejeune

 Jérôme Lejeune
conta-se que
Maria Susana Mexia, Professora

Ciência sem consciência não passa de ruína da alma”.

François Rabelais

Jérôme Jean Louis Marie Lejeune nasceu no dia 13 de Junho de 1926, em Montrouge, perto de Paris, França, e foi baptizado em 19 de Junho desse mesmo ano, na igreja de S. Tiago Maior (Saint Jacques le Majeur) de Montrouge.

A sua adolescência foi marcada pela 2ª. Guerra Mundial. Fez os seus estudos e sonhou ser Médico pediatra de aldeia. A 15 de Junho de 1951, defendeu com sucesso a sua tese de doutoramento em Medicina. Quando começou a trabalhar num Hospital como Médico deparou-se com uma criança com “síndrome de Down”, foi então que começou a interessar-se pelo mongolismo e em 1952 foi nomeado estagiário de investigação no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), entrando ao serviço do Prof. Raymond Turpin, para trabalhar com as crianças então chamadas «mongoloides».

Em 1952 decidiu dedicar-se à pesquisa científica, em 1954, obteve o Diploma em Genética e em 1955 o Diploma em Bioquímica, tendo sido nomeado em 1957 perito sobre os efeitos das radiações atómicas junto da ONU.

Em 1958 descobriu a causa cromossómica da trissomia 21 e o mecanismo de outras anomalias cromossómicas, abrindo assim caminho para a genética moderna. Como chefe de unidade de citogenética de um hospital de crianças doentes em Paris, com a sua equipa, estudou mais de 30 mil dossiers cromossómicos e tratou de mais de 9 mil portadores de disfunção da inteligência. A 26 de Janeiro de 1959, os seus trabalhos sobre a descoberta das causas do mongolismo são publicados pela Academia das Ciências.

O resultado do seu trabalho foi, em 1960, objecto da sua tese de doutoramento. Descobriu a trissomia 21 (patologia cromossómica responsável pelo síndrome de Down) – um terceiro cromossoma adicionado ao par 21 (dos 23) produz determinados elementos químicos em excesso, que causam desequilíbrios funcionais. Nunca desistiu da ideia de “desligar” (desactivar) este cromossoma excedentário (supranumerário).

Com a sua equipa, descobriu muitas outras doenças cromossómicas. Foi também dos primeiros cientistas a provar que a vida humana começa na concepção e não na nidação. Em 1962, foi-lhe atribuído o prémio Kennedy, nos Estados Unidos. Em 1965, foi titular da primeira cadeira de Genética Fundamental, em Paris. O seu trabalho científico constituiu o alicerce sobre o qual passou a assentar a citogenética, pelo que foi considerado internacionalmente como o Pai da Genética Moderna.

Em 1964 tornou-se o primeiro professor de genética na Faculdade de Medicina de Paris, a convite do Papa Paulo VI, em 1974, aceitou ser membro da Pontifícia Academia das Ciências e, em 1994, João Paulo II nomeou-o como primeiro presidente da recém criada Pontifícia Academia para a Vida. Foi distinguido com vários prémios internacionais pelos seus trabalhos científicos.

As suas descobertas permitiram grandes avanços para a cura de várias doenças. Mas a descoberta precoce dos embriões portadores de certas doenças cromossómicas começou também a ser usada para facilitar a interrupção da gravidez. O investigador tornou-se então publicamente defensor da vida das crianças doentes, desde a sua concepção até ao fim natural da vida, comprometendo-se na luta contra o aborto.

Em Agosto de 1969, a Sociedade Americana de Genética Humana concedeu-lhe a mais alta distinção que se pode atribuir a um especialista em genética – o “William Allen Memorial Award”.

No dia 1 de Outubro de 1969, no seu discurso de agradecimento em S. Francisco, no qual foi longamente aplaudido pela nata dos cientistas presentes, compreendeu, estupefacto, que a grande maioria dos geneticistas americanos ali presentes acreditavam ser um acto de caridade despistar in útero os bebés com trissomia 21 para poder eliminá-los.

Quando Jérôme Lejeune afirmou que a pessoa humana já existe por inteiro no embrião, pelo que era contrário à lei moral usar o diagnóstico pré-natal de síndrome de Down para abortar tais embriões, estes aplausos deram lugar a um silêncio sepulcral.

Ciente de que o seu discurso se baseava na genética, uma ciência natural e não numa religião, filosofia ou ideologia, e que todos os seus conhecimentos poderiam ser verificados pelo método experimental, ainda insistiu tentando esclarecer o auditório, de forma persistente e corajosa, sabendo que tinha a Verdade do seu lado. “ A genética moderna mostra que, no momento mesmo em que o óvulo é fecundado pelo esperma, toda a informação genética que define o novo indivíduo, está inscrita, na sua integridade, na primeira célula. Nenhuma outra informação genética é acrescentada ao ovo após a sua fecundação inicial. Assim, a ciência afirma que um ser humano não poderia ser um ser humano, se não tivesse sido concebido originalmente como um ser humano. Pelo que o aborto é um crime hediondo”, pelo que “A sociedade não tem que lutar contra a doença suprimindo o doente”.

Nessa noite, ao telefone, murmurou à sua mulher: “Acabei de perder o Prémio Nobel”. Mas não foi só o nobel que perdeu, teve de enfrentar todo o ambiente adverso que se lhe seguiu, um longo calvário. Jamais fará conferências sobre genética, o financiamento para as suas pesquisas foi suprimido, teve de fechar o laboratório e despedir a sua equipa de investigação. Num clima pós maio de 68, perdeu amigos, foi crucificado pela imprensa, mas não se deixou manipular e teve a coragem de se manter fiel à Ciência numa integridade própria, não alinhando com as solicitações e pressões mundanas, foi um modelo de resistência na batalha pela vida humana.

Jérôme Lejeune acreditava que “o conhecimento é o único verdadeiro génio da humanidade”. Defendia o valor da Medicina e das descobertas da ciência para o bem da humanidade, dizendo: “Não é a medicina que se deve temer, mas a loucura dos homens. O nosso poder de modificar a natureza utilizando as suas leis, aumenta cada dia por meio da experiência daqueles que nos precederam. Mas utilizar este poder com sensatez, eis o que cada geração deve também aprender. Certamente, hoje somos mais poderosos do que outrora, porém menos sensatos: a tecnologia é cumulativa, a sabedoria não é”. E em defesa dos mais frágeis afirmou: “É preciso dizer as coisas com clareza, mede-se a qualidade duma civilização pelo respeito que ela tem pelos mais frágeis. Não há outros critérios de julgamento”.

Tornou-se chefe da unidade de citogenética no Hospital Necker Enfants Malades em Paris, em 1981 foi enviado pela Academia Pontifícia das Ciências em missão junto de Leónidas Brejniev, presidente da Rússia, para o informar sobre as conseqiências de uma guerra nuclear, em 1982 foi nomeado membro do Instituto (Academia das Ciências Morais e Políticas), em 1983, nomeado membro da Academia Nacional de Medicina e em 1989 testemunhou no processo de Maryville, nos Estados Unidos, sobre a humanidade dos embriões congelados que um casal, em processo de divórcio, disputava.

Perante o relativismo moral e o cepticismo intelectual tão dominantes na cultura europeia, a causa de J. Lejeune parecia condenada desde o início, mas o seu realismo levou-o a garantir a verdade científica e o valor moral que dela emana, defendendo corajosamente que “a vida é um facto e não um desejo.

Lejeune foi um magnânimo servidor da humanidade, corajoso e humilde, inspirou e continua a inspirar pessoas de boa vontade, que não são indiferentes às verdades científicas e morais.

Recordemos que em 1989, o rei Balduíno da Bélgica, pediu conselho ao Professor Lejeune, quando o Parlamento estava prestes a legalizar o aborto. Alguns meses depois, o rei Balduíno abdicou do seu trono em vez de assinar uma lei que legalizava o aborto.

O Papa João Paulo II solicitou-lhe a criação dos Estatutos da nova Academia Pontifícia para a Vida, criada em 11 de Fevereiro de 1994, entregando-lhe o cargo de primeiro Presidente em 26 de Fevereiro de 1994.

Lejeune era casado desde de Maio de 1952 com a dinamarquesa Birthe Bringsted, tiverem 5 filhos, e viveram uma profunda fé cristã. Morreu em Paris, na Páscoa de Abril de 1994 devido a um cancro. Nas orações fúnebres, os seus colegas não deixaram de afirmar que lhe era devido um Prémio Nobel, que só não lhe foi atribuído por preconceitos ideológicos…

O Papa João Paulo II enviou uma mensagem ao arcebispo de Paris considerando-o como “um grande cristão do século XX”, “um homem para quem a defesa da vida se tornou um apostolado”. E sobre ele escreveu ainda: “Na sua função de cientista biólogo, ele apaixonou-se pela vida. Na sua área de trabalho, foi uma das maiores autoridades a nível mundial. Vários organismos o convidavam para fazer conferências e solicitavam o seu parecer. Era respeitado até mesmo por aqueles que não compartilhavam as suas convicções mais profundas. Desejamos hoje agradecer ao Criador, de quem toda paternidade recebe o seu nome (Ef 3,15), o carisma especial do defunto. Devemos falar de carisma, porque o professor Lejeune sempre soube utilizar o seu profundo conhecimento da vida e dos seus segredos para o autêntico bem do homem e da humanidade, e tão-somente para isto. Tornou-se um dos ardentes defensores da vida, particularmente da vida dos nascituros, que na nossa civilização contemporânea é muitas vezes ameaçada, a ponto de se poder pensar em ameaça programada.” Para ele a legalização do aborto não era só moralmente censurável, mas também  um violento ataque à ciência.

Aquando das Jornadas Mundiais da Juventude, realizadas em Paris, a 22 de Agosto de 1997, o Papa João Paulo II, prestou homenagem ao seu “irmão Jérôme”, recolhendo-se em oração, junto do seu túmulo, na aldeia de Châlo-Saint-Mars, rompendo assim o protocolo estabelecido.

Após a sua morte, foi criada uma Fundação com o seu nome a qual deu continuidade ao trabalho em favor dos pacientes com síndromas de origem genética, cuidando das pessoas portadoras de trissomia 21 e também na defesa da Vida. O seu lema é: Chercher, soigner, défendre. Foi também criado um Instituto, que oferece consultas médicas especializadas em deficiência intelectual genética (diagnóstico, tratamento, prevenção, informação às famílias e formação profissional). A fundação subsiste exclusivamente com donativos privados.

Jérôme Lejeune, um homem sábio que mostrou com a sua coerência de vida e o seu trabalho competente que não há contradição entre a Fé e a Ciência, se uma e outra se mantiverem honestamente na esfera que lhe é própria e que nem tudo o que é legal é necessariamente justo. Mas, “mais importa obedecer a Deus do que aos homens”. Em 28 de Junho de 2007 foi aberto o seu processo de canonização na diocese de Paris, tendo seguido mais tarde para Congregação para a Causa dos Santos, toda a documentação recolhida.

O Papa Francisco em 21 de Janeiro de 2021 aprovou a publicação do decreto que reconhece as “virtudes heroicas” do professor de genética, o primeiro passo para a beatificação e canonização do médico francês Jérôme Lejeune, o cientista que descobriu a causa da síndrome de Down. Por amor à Verdade perdeu um Prémio Nobel, mas ei-lo a caminho da Santificação.

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