Há 104 em Fátima e um missionário em Moçambique

Há 104 em Fátima e um missionário em Moçambique
Padre Aires Gameiro

O Dia Mundial das Missões, 24 outubro 2021, leva-nos a evocar um grande missionário no norte de Moçambique durante trinta anos; bem se pode considerar um chamado das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, no dia 13 de outubro de 1917, com o milagre que Ela anunciou e que se realizou perante 70 mil testemunhas. Este missionário, a que me refiro, foi chamado, sucessivamente, até Moçambique, em 1972. Foi assim. O rapaz chamado Manuel Nogueira foi chamado para missionário porque um Nogueira de S. Simão de Litém esteve em Fátima no dia 13 de outubro, viu o milagre e contou as impressões ao seu filho António. Este jovem António entregou-se mais a Jesus e sentiu que era chamado a unir-se a dois primos na vida religiosa como Irmão de S. João de Deus. Recordo que um destes primos foi o fundador da Casa de Saúde S. João de Deus no Funchal, fará cem anos em 1922.

O seminarista João, irmão do António, visitou-o quando já assistia doentes mentais na Casa de Saúde do Telhal, concelho de Sintra, e ficou impressionado com o seu contentamento. E assim, o João decidiu trocar o Seminário de Leiria onde já estava adiantado nos estudos pela Ordem de S. João de Deus e foi juntar-se ao irmão. Já sacerdote, em 1941, visitou a sua terra e perguntou a quatro ou cinco rapazes da Pré-JAC se algum queria vir com ele para missionário. Logo o Manuel disse que sim. Mais tarde, já Irmão enfermeiro e professor dos outros rapazes candidatos, o Irmão Manuel Nogueira, de seu nome, foi convidado pelo Provincial para estudar latim e continuar outros estudos para  ser  sacerdote hospitaleiro e… missionário.

E agora dou um salto com o Manuel que estudou Humanidades e Filosofia no Seminário de Angra do Heroísmo e cinco anos de Teologia na Universidade Lateranense em Roma. Em 1972, já após 10 anos de sacerdote e formador de jovens noviços e Irmãos, foi de novo convidado pelosos superiores para concretizar o primeiro convite de ser missionário. Vai para Missões em Moçambique onde continua a ser professor de rapazes e capelão de uma grande leprosaria com cerca de dois mil leprosos e familiares. A seguir é convidado para  ser capelão e enfermeiro numa clínica de doentes mentais em Nampula. E logo formador e professor de jovens e de latim para universitários e muitas outras atividades pastorais. Veio o “25 de Abril” em Lisboa e os estilhaços chegaram a Moçambique com o fim da era colonial substituída pela fase marxista que se transformou em guerra civil e num grande desafio para a Igreja, e para os missionários. Alguns não se adaptaram, outros, como o Pe. Manuel, mantiveram-se firmes e fiéis ao chamamento para missionário. As suas atividades de enfermeiro, catequista, missionário, adaptaram-se, a uma Igreja das palhotas, na expressão significativa do título do livro do Pe. José Luzia – «Igreja das Palhotas». A Igreja e a Ordem ficaram sem a capela da Clínica e o Pe. Manuel começou a catequizar, celebrar, batizar à sombra dos cajueiros. E até um grupo de leigos conseguir um título de propriedade numa parcela de terreno da clínica, nacionalizado, para construir uma capela-igreja e autorização para a construir, continuou a evangelizar à sombra das árvores. Eram muitos os que acorriam, apesar do ambiente hostil.

Eram tantos que ele mobilizava para as celebrações e outras atividades que surgiram suspeitas de ele ser contra revolucionário. Como outros padres foi preso, sofreu vexames, em cela de segurança sem colchão, sem cobertor, nada. Sem colher para comer, teve que improvisar uma de tubo de pasta dentífrica vazia. Foi solto e tornado a prender, foi mudado para a prisão política de Machava e foi mantido com residência fixa. Finalmente, depois de cerca de dois anos, foi reintegrado como enfermeiro a trabalhar nas diversas terapias do hospital de doentes mentais. O que acabei de resumir é, em grande parte, relatado por ele do tempo de prisão e do longo período de missionário para todas as atividades até adoecer e falecer em 2003, depois de trinta anos da sua chamada para as missões de Moçambique. E termino com um episódio do seu relato de prisão. Não tinha qualquer objeto pessoal. Até o rosário lhe confiscaram. Para rezar tinha que recorrer a sua grande memória e inventiva. Conta que em certa altura, ao espreitar pela janela, viu ao longe uma torre de igreja e teve a ideia de fazer oração olhando para ela e imaginando-se  nela com Jesus. Nos tempos de pandemia do Covid-19, em que tantos estiveram privados de participação nas celebrações, pode ser um exemplo de oração mesmo nestas situações adversas. Afinal, Santa Teresa de Jesus teve que se contentar em ser missionária pela oração, no mosteiro, e hoje é padroeira da Missões. Tal como os pastorinhos a quem Nossa Senhora pediu que rezassem o terço todos os dias pelos pecadores e depois desse convite viveram com firmeza o tema deste dia- «não podemos deixar de afirmar o que vimos e ouvimos» (At 4, 20) como lembra o Papa na sua Mensagem.

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