Filosofia versus “eremitas de massa”

Filosofia versus “eremitas de massa”
Maria Susana Mexia, Professora de Filosofia

“Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento colectivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…

Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drasticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar. É necessário que o acesso ao conhecimento se torne cada vez mais difícil e elitista… que o fosso se cave entre o povo e a ciência, que a informação dirigida ao público em geral seja anestesiada de conteúdo subversivo. Especialmente sem filosofia. Há que usar persuasão e não-violência directa: transmitir-se-á maciçamente, através da televisão, entretenimento imbecil, bajulando sempre o emocional, o instintivo.

Vamos ocupar as mentes com o que é fútil e lúdico. É bom com conversa fiada e música incessante, evitar que a mente se interrogue, pense, reflita.

Vamos colocar a sexualidade na primeira fila dos interesses humanos. Como anestesia social, não há nada melhor. Geralmente, vamos banir a seriedade da existência e de tudo o que tem um valor elevado, manter uma constante apologia à leveza; de modo que a euforia da publicidade, do consumo se tornem o padrão da felicidade humana e o modelo da liberdade.

Assim, o condicionamento produzirá tal integração, que o único medo (que será necessário manter) será o de ser excluído do sistema e, portanto, de não poder mais aceder às condições materiais necessárias para a felicidade. O homem em massa, assim produzido, deve ser tratado como o que é: um produto, um bezerro, e deve ser vigiado como deve ser um rebanho. Tudo o que permite adormecer a sua lucidez, a sua mente crítica é socialmente boa, o que arriscaria despertá-la deve ser combatido, ridicularizado, sufocado…

Qualquer doutrina que ponha em causa o sistema deve ser designada como subversiva e terrorista e, em seguida, aqueles que a apoiam devem ser tratados como tal.” – Günther Anders – “A obsolescência do homem”, 1956.

Neste livro o autor expõe uma crítica à padronização do mundo, e foi um dos primeiros pensadores a abordar os meios de comunicação de massa  (especialmente o rádio e a televisão) como um problema filosófico. Criou o termo “eremitas de massa”, para descrever as famílias trancadas em casa pela hipnose da televisão, um meio diabólico para nos tornar consumidores e trabalhadores dóceis. Além de nos isolar em casa, o perverso eletrodoméstico destruiria as relações lá dentro. Em vez de interagirem entre si, os membros de cada família transformaram-se numa miniplateia, cuja única relação era com o ecrã.

Profetizando, nem imaginaria o quanto a nossa realidade viria a corresponder ao seu conceito. Confinados, em casa, por opção ou obrigação, colados à exiguidade dos nossos ecrãs digitais, o vírus tornou-nos de facto nesses eremitas.

Porém existe uma  outra perspectiva.

Nascida em Atenas, no século V a.C., a Filosofia é uma fábrica de homens livres que reconhecem na convivência, no diálogo, na busca de esclarecimento e na reflexão, o elemento fundamental para a prática da Democracia, que se exige activa, esclarecida, participada e partilhada.

Portadora de uma atitude crítica permanente, a Filosofia é o constante problematizar do tudo e do todo que nos circunda, na ânsia de acrescentar mais saber ao saber que se tem e mais sentido à vida da humanidade, tão carente de uma directriz esclarecida, para o rumo decisivo dos seus hesitantes passos.

A ausência de uma educação filosófica e da capacidade de criticamente reflectir, faz da nossa cultura uma cultura de risco, tal como a renúncia ao exercício do pensamento conduzirá à mediocridade da violência e da guerra.

Neste sentido, é premente evidenciar, tudo o que favoreça o desenvolvimento do pensamento e da reflexão, e a Filosofia será um contributo relevante para a necessidade de acordar das letargias impostas suavemente.

A escolha está em nós, não temos de ser nem massa, nem eremitas. A tecnologia não nos obriga a isso, pelo contrário, permite, se assim o quisermos, mantermo-nos interessados, interventivos, interligados, interativos e filosóficamente activos.

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