Filocalia

Filocalia

A Oração do Coração

Maria Susana Mexia

Filocalia é uma vasta coletânea, não de extratos, mas de tratados integralmente transcritos, constituindo no seu todo a “escola mística da prece interior”.

Uma antologia sobre a união do espírito com Deus, recolhida nos escritos dos antigos Padres, graças aos cuidados de monges piedosos e dedicados.

A Filocalia não é uma obra confessional, a Igreja ortodoxa testemunha uma Igreja indivisa em que estão enraizadas todas as confissões cristãs, englobando toda a humanidade e todo o universo. Destinada aos monges e aos leigos juntos, pois todos são chamados a unificarem-se interiormente unindo-se a Deus e através disto, em Cristo, com todos os homens, segundo a oração sacerdotal citada por Nicodemos: “que todos sejam um, como nós somos um.”

O Cristianismo, nos seus primórdios, como referiu João Paulo II, respirava a dois pulmões – a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente -, e a Tradição Oriental, até hoje, testemunha as riquezas dessa Igreja indivisa.

A “filosofia religiosa” russa em consonância com a experiência da filocálica, procurou uma renovação espiritual fundamentada numa retomada de consciência da teologia, da espiritualidade e da vida sacramental ortodoxas. Um misto de acção e contemplação com o objetivo de conduzir o homem a descobrir o reino de Deus em si mesmo, o tesouro escondido no campo do coração, alusão à parábola evangélica que descreve um homem que, tendo encontrado um tesouro no campo, vende tudo o que possui para adquiri-lo.

Encontrada no Mosteiro de Vatopédi, localizado no Monte Atos, Grécia, foi traduzida em eslavo, difundiu-se principalmente na Rússiaem 1793, com nova edição em 1822. A Filocalia traduzida para o russo por Teófano, o Recluso, foi publicada em 1877, e reimpressa quatro vezes até as vésperas da guerra.

A Filocalia não era conhecida no mundo grego, aonde só seria reeditada em 1893 e depois em 1957. Porém foipublicada – em grego – em Veneza em 1782(*), pois os livros cristãos não podiam ser impressos no Império Otomano.

Os mestres da Filocalia, inquietos com a influência crescente da filosofia iluminista sobre os gregos cultos, quiseram opor à Enciclopédia francesa das “luzes” uma espécie de enciclopédia da Luz incriada.

Será significativo, que na Europa ocidental da segunda metade do século XX, a Filocalia parece ter sido um bem desejado e esperado, pela divulgação de extratos, nos anos 50, no final dos anos 80 e começo dos anos 90, com traduções integrais na Inglaterra, Itália e em França.

Em “Relatos de Um Peregrino Russo ao Seu Pai Espiritual”,(autor anónimo – provavelmente um monge ortodoxo – por volta de 1870)(**), somos conduzidos a uma experiência enriquecedora e estimulante através da espiritualidade ortodoxa. Considerado um excelente manual de meditação, a sua intensa procura da comunhão com Deus, propicia-nos momentos de aprazível leitura, numa mescla de deleite com a natureza, a cultura, a fraternidade e o sentido de vida do ser humano.

Num mundo que se laicizou de forma extrema, onde de tão light, tudo parece diluir-se e desvanecer-se, vale a pena conhecer outros caminhos, outros saberes que dignificam e enobrecem a humanidade, dentro da origem e essência do Cristianismo.

  • (*) Filocalia
  • (**) ”Recomendo-vos que o leiais: ajudar-vos-á a compreender o que é a oração vocal.” Papa Francisco citando o livro Relatos de um Peregrino Russo ao seu pai espiritual.

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