FALSA DISPUTA

 FALSA DISPUTA
J: B. Teixeira

Participei de um bolão de apostadores da Mega Sena da virada. Estava em jogo uma bolada pra ninguém botar defeito. Um dos parceiros afirmou que o faria, quase compulsoriamente, porquanto seria dura de engolir a ideia de que os colegas se tornaram milionários e ele ficara de fora. Foi de uma sinceridade rara e confesso que fico a rir quando a recordo.

Não foi desta vez, dirão os otimistas. O fato é que excedemos as piores expectativas: não acertamos sequer um número. Quem consultou o oráculo de apostas deve reavaliar suas pitonisas ou, quem sabe, contratar as de Delfos. Nenhum acerto até mereceria um prêmio de consolação, não é mesmo? Seja como for, do ponto de vista estatístico, qualquer sequência tem a mesma probabilidade de qualquer outra e portanto os números sorteados só podem solapar o jogo limpo se as bolinhas do sorteio forem viciadas. Como os milhões de apostadores desconsideram tal hipótese, o sorteio não pode ser contestado. Afinal, estamos falando de sorte.

Escolher seis números dentre os cinquenta da cartela, configurando a aposta mais barata, significa concorrer com uma chance em pouco mais de cinquenta milhões de combinações possíveis. Se o apostador refletir, dando-se conta do quão difícil é conquistar o prêmio, provavelmente pouparia, mas não o faz porque alguém ganha, e volta a sonhar com o bolão e a jogar. O fermento? O sonho de acertar todos os buracos do golfe da sorte em uma só tacada.

Fiquei então a lembrar da explicação do possível início da vida, no tempo escolar: um sopão de aminoácidos, descargas elétricas e tempo, muito tempo, formaram organismos unicelulares, que originaram coisas pluricelulares que, então, na panela cósmica, com a colher do tempo a mexer, evoluíram até o aparecimento dos bichos e, por fim, do homem. Pelo caminho algumas criaturas tombaram, como testemunha a arqueologia. O evolucionismo encampa esta narrativa.

Dias atrás minha esposa leu, em voz alta, trecho de livro sobre o cérebro, a explicar por que nos arrepiamos quando, ameaçados, sentimos medo: porque o cérebro ordena a liberação de adrenalina, acelerando o coração, elevando a pressão arterial, diminuindo o fluxo sanguíneo na pele e aumentando nos músculos das pernas, deixando-as mais aptos à fuga. Imaginar que tais funções tenham sido adquiridas aleatoriamente parece tão sem sentido quanto seria descartar a evidência das descobertas de Darwin. Por que não desconsiderar a mútua exclusão do design inteligente e da evolução? Podemos, de sã consciência, descartar que os milhões de fragmentos se encaixem para compor o mosaico divino? Afinal, quem criou os aminoácidos e os raios?

Enquanto correntes de pensamento que se pretendem destruidoras de crendices semeiam conclusões sem fundamento, temos de aguentar asneiras inimagináveis. Garimpando livros em um sebo da capital escutei um cidadão afirmar que os evangelhos apócrifos são os verdadeiros e por isto foram escanteados. Tais disparates são frutos de um iluminismo que persegue a religião e se apoia em pressupostos evolucionistas baseados em “milhões de anos!”. A partir do fato de que os chimpanzés têm 24 pares de cromossomos e os homens apenas 23 e que os DNAs das duas espécies são 33% diferentes e as proteínas, 80%, Marcos Eberlin, da Unicamp, afirma que

A fusão cromossômica que se imaginou um dia reduzir nossos cromossomos de 24 para 23 nunca ocorreu. O cromossomo é a coisa mais preservada do mundo, ninguém mexe em software. Nosso cromossomo Y é totalmente diferente do cromossomo Y dos chimpanzés, e somos tão parecidos com eles em cromossomo Y como o somos com as galinhas”.

Edward Feser, em seu “A Última Superstição. Uma refutação ao Neo-Ateísmo”, pega pesado:

Eu diria que um homem verdadeiramente religioso é, por esta razão e nesta escala, um homem sensato e virtuoso; ao passo que um homem irreligioso, e especialmente o homem que é afirmativamente hostil à religião, é, por esta mesma razão e nesta escala, um homem defeituoso e um homem irracional. Em suma, a consciência religiosa, entendida corretamente, é uma virtude intelectual e moral; e a indiferença ou hostilidade à religião é um vício moral e intelectual. Em suma, a consciência religiosa, entendida corretamente, é uma virtude intelectual e moral; e a indiferença ou hostilidade à religião é um vício moral e intelectual”.

Cá na minha ignorância, sem negar os achados de Darwin, que são reais, mas não passam de pedras do mosaico, lembro de frase que li algures: “O elo perdido é o sopro de Deus”.

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