DISTO E DAQUILO

DISTO E DAQUILO

Ler

Cecília Rezende – Escritora

Nas minhas andanças de fazedora de escrita, participo muitas vezes em feiras para promover os livros de que sou autora. É uma colaboração que faço com a Editora, pois a presença do autor ajuda a vender. É uma humanização do livro e uma aproximação entre o leitor e o autor.

Acontece-me muitas vezes, quando apresento um livro infantil, ouvir a mãe ou o pai dizer aparentemente com uma espécie de orgulho, Ai ele não gosta de ler. Não insisto, porque nem saberia o que dizer perante tal ignorância. Nunca me interroguei se os meus filhos gostavam de ler. Liam. E desde muito pequenos. Ofereci o primeiro livro ao meu filho quando ele fez dois meses. Era de pano, com as folhas duplas que davam para enfiar as mãos, agitava-o, e a minha mãe ia-me matando quando soube o dinheiro que eu tinha dado por aquilo. Foi um ato simbólico. Já lá vão 50 anos e nunca mais vi livros para bebés em pano. É pena. E quando soube que o meu primeiro neto ia nascer, fui logo comprar-lhe um livro. Chamava-se O quarto do Benjamim. Veio a ser muito apreciado mais tarde. Também nunca perguntei aos meus netos se gostavam de ler. Acho que até ficavam admirados com a pergunta. Faz parte das atividades normais de quem estuda. É claro que agora entram os tablets. E também ouço pais ou mães dizerem de crianças de três anos: Ai! Só sossega se estiver entretido com o tablet. E também o dizem muito contentes. Já há distanciamento suficiente para se conhecerem as consequências trágicas para o desenvolvimento da criança.

Michel Desmurget, doutorado em neurociências, dedicou-se à investigação e divulgação dos efeitos da exposição a ecrãs no desenvolvimento da criança. Em 2019, lançou A Fábrica dos Cretinos Digitais, que acaba de chegar a Portugal. Aponta o dedo à indústria dos videojogos e redes sociais que acusa de saber perfeitamente o que está a fazer, na sua opinião: uma operação de descerebração, a uma escala inédita. Recomenda tempo zero de ecrã antes dos seis anos, e nisso inclui televisão e desenhos animados, que as crianças consomem por dia em doses que os pais não tinham nem numa semana. Depois dos seis anos, não mais de 30 minutos por dia, seja qual for o ecrã.

Michel Desmurget não pretende ser tecnofóbico. Ele e muita gente usa ecrãs durante o dia todo para acesso a dados. Mas usar o digital apenas para horas e horas de entretenimento, quer crianças, quer adolescentes, já se revelou ser negativo e prejudicial para o desenvolvimento. Já há dados suficientes para se saber que crianças expostas desde bebés a ecrãs sofrem atrasos de linguagem. E quando mais velhas, há um risco de menor desempenho cognitivo, de menor concentração. E depois vêm os smartphones. E um smartphone é uma televisão e uma consola de jogos no bolso. E não são apenas adolescentes, na rua, a manejar o aparelho com os polegares a grande velocidade. Miuditos que mal se sustêm nas pernas também lá vão atrás dos pais a clicarem com toda a destreza. Já se detetaram, em jovens de 14 anos, artroses na raiz do polegar, as chamadas rizartroses, que não costumavam aparecer antes dos sessenta anos.

E no meio desta azáfama digital, onde está a leitura? Não há tempo nem disposição. Está- se a criar uma geração que só sabe fazer coisas simples: carregar num botão, continua Michel Desmurget e conclui: ainda não inventamos nada melhor para a construção do cérebro do que ler.

E ler exige esforço, exige concentração, exige hábito. Sem ler livros não se adquire o conhecimento da língua, não se enriquece o vocabulário, não se adquirem conhecimentos que ajudem a processar informação e a contextualizá-la, não se desenvolvem competências emocionais e intelectuais. E chegará uma altura em que é demasiado tarde. Quando se perde o comboio, perde-se o comboio.

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