Cartas a Guiomar: A Redenção

Cartas a Guiomar: A Redenção

Querida Guiomar,

A vida de Jesus não foi propriamente um mar de rosas. Sobre os trinta anos que passou com os pais em Nazaré não sabemos grande coisa, mas devem ter sido trinta anos normais de uma família remediada, em que o pai era artesão e a mãe cuidava da casa. Andaram pelo Egipto a fugir de Herodes quando Jesus era bebé, iam todos os anos a Jerusalém pela festa da Páscoa, Jesus foi crescendo, José terá morrido. Pelos trinta anos, o Senhor deu início à Sua vida pública dirigindo-Se ao rio Jordão para ser baptizado por São João Baptista, e depois passou cerca de três anos a andar pela Palestina, entre a Galileia (que fica ao norte) e a Judeia (que fica ao sul, e tem o centro em Jerusalém), indo ocasionalmente ao outro lado do Mar da Galileia.

Andava dum lado para o outro sem descanso, pregava a Sua doutrina, curava muitos doentes, convertia muitas outras pessoas, perdoava os pecados, ressuscitou três mortos (um deles foi Lázaro, um amigo Seu que estava morto há mais de três dias), deu de comer a multidões com um par de pãezitos e de peixes, atraía as crianças, fez amigos e inimigos, e escolheu os Doze, que viriam a ser as colunas da Igreja.

E durante todo este tempo, havia um grupo de fariseus e saduceus, de escribas e doutores da Lei, que andava atrás Dele a picá-Lo. Andavam furiosos com Ele porque dizia que era Filho de Deus – e é – e ainda por cima provava-o com os milagres que fazia; porque atraía multidões sempre mais numerosas, que estavam dispostas a passar dias seguidos sem comer para O ouvirem; porque os acusava de serem hipócritas, por prestarem mais atenção a preceitos inventados por eles do que à caridade; e porque elogiava a pobreza, coisa que eles consideravam uma maldição. Estes escribas e fariseus andaram, como te disse, três anos a picá-Lo, a lançar-Lhe armadilhas, a pregar-Lhe rasteiras, a ver se conseguiam apanhá-Lo.

Finalmente, chegou a Sua hora – quando Ele quis e como quis, porque Ele é Deus e o Senhor da história – e Jesus foi preso e condenado à morte. Apanharam-No porque um dos Doze, Judas Iscariotes, O traiu (um dos Doze que Ele tinha escolhido um a um, repara bem); foram prendê-Lo ao Jardim das Oliveiras, para onde Ele tinha ido rezar ao cair da noite, preparando-Se para o que estava para vir.

Prenderam-No como se prende um malfeitor e conduziram-No ao tribunal dos judeus, onde foi condenado por blasfémia (ou seja, por dizer que era Deus), que era o crime mais grave de todos, punível com a morte. Passou a noite preso e, na manhã seguinte, levaram-No à presença do representante de Roma (Pôncio Pilatos) que, incitado pela multidão, O condenou à morte por crucifixão. Foi flagelado, que o mesmo é dizer que foi violentamente chicoteado no tronco, nas pernas e nos braços por dois homens à vez, e a seguir espetaram-Lhe na cabeça um capacete de espinhos. Ao Senhor do Universo. Estavam a divertir-se.

Depois fizeram-No marchar para o local da execução, o Calvário, que ficava a uma distância bastante razoável, com a trave da cruz aos ombros e os braços amarrados à trave, de maneira que, sempre que caía, batia com a cara no chão. Tinha perdido tanto sangue, ia tão desidratado, tão trôpego, tão cheio de feridas, que os militares que O acompanhavam tiveram receio de que morresse pelo caminho, de maneira que obrigaram um sujeito que ia a passar a ajudá-Lo a levar a cruz.

Chegados ao Calvário, crucificaram-No: passaram-Lhe um prego por cada um dos pulsos e outro pelos pés e içaram a cruz ao alto. E Ele esteve ali três horas, três compridas e dolorosas horas, suspenso, vivo, nu, e de cada vez que respirava rasgava-se-Lhe a pele contra a madeira da cruz e as feridas voltavam a abrir-se.

Mas, por mais horroroso que isto tenha sido – e foi –, o pior não foi o sofrimento físico, foi o sofrimento moral. Durante aquela noite, a manhã e o princípio da tarde, durante aquelas cerca de vinte horas de agonia, desfilaram diante Dele todos os pecados de todos os homens de todos os tempos, desde a rebelião de Adão e Eva até aos pecados que serão cometidos na véspera do fim do mundo. Cristo era a vítima inocente – o Deus-homem sem pecado – que Se oferecia a Deus pela redenção dos culpados; por isso, todas as culpas dos culpados tinham de passar por Ele. E isso foi o mais negro horror, a mais tremenda noite de Jesus naquelas horas; foi isso que O levou a bradar: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» Não é que Deus O tivesse propriamente abandonado, porque Ele era Deus; é que, ao assumir os nossos pecados, ao fazer-Se pecado por nós, Jesus como que Se separou de Deus – e essa dor, que é como a dor do inferno, era-Lhe insuportável. Finalmente, ao fim de três longas horas, morreu. O centurião romano que estava a dirigir a execução espetou-Lhe uma lança no coração, e dele saiu sangue e água. Três dias depois, ressuscitou.

E sabes o que é que a Igreja diz disto? Quase que tenho vergonha de to dizer, porque parece uma blasfémia. Ao contemplar o seu Senhor morto, a Igreja canta (canta!): «Feliz culpa!, que nos valeu tal e tão grande redentor!» Quer dizer, ainda bem que pecámos, porque de outra maneira não teríamos conhecido um amor assim. Ninguém, nunca, em circunstância nenhuma, amou tanto como Cristo na cruz. É isso que a Igreja está a reconhecer: que, por muito terrível que tenha sido o pecado, e foi, Deus provou que nos ama de tal maneira que, em vez de nos castigar a nós, Se castiga a Si próprio por nós.

A dolorosa morte de Jesus ensina-nos duas coisas cruciais: a primeira é a gravidade do pecado. Se Jesus nos tivesse redimido sem dor, ainda teríamos menos consciência do que temos da enormidade que são as nossas ofensas a Deus. O facto de Ele ter sofrido daquela maneira mostra-nos que o pecado é uma coisa abominável, tanto que o Filho de Deus padeceu uma morte ignominiosa para nos libertar dele.

A outra coisa que a morte de Jesus no ensina é o valor redentor do sofrimento. Não é coisa que a gente perceba bem, mas é um facto, e um facto que Deus deixou claro sem qualquer sombra de dúvida. A partir desta altura, qualquer sofrimento nosso, unido à paixão de Jesus, tem valor redentor. Mas atenção, o sofrimento tem de ser aceite e oferecido por amor e com amor! Nós não somos masoquistas! Nós não temos prazer no sofrimento! Doem-nos os dentes como às outras pessoas, e não gostamos nada de ter dores de dentes! O que podemos ter, e temos, é a alegria de saber que, tal como as dores de Cristo durante a paixão, também as nossas dores de dentes podem contribuir para salvar almas (pelo menos enquanto o analgésico não faz efeito). Porque o sofrimento, aceite e oferecido por amor, é uma maneira de renunciarmos a nós próprios e à feroz ditadura do eu, e de pormos a vontade de Deus à frente da nossa; é uma maneira de dizermos: Tu és mais importante do que eu. Cristo não nos salvou com a dor; salvou-nos com o amor, que exprimiu através da dor. E cara alegre! Nós, os cristãos, não estamos autorizados a queixar-nos porque, por mais que soframos (e há quem sofra muito), sabemos sempre que Cristo conheceu esse sofrimento e muito mais, e não há notícia de que Se tenha jamais queixado. Nós, os cristãos, sofremos virilmente como as santas mulheres ao pé da cruz e rezamos virilmente como um exército em ordem de batalha!

Em consequência desta entrega de Cristo, ficámos redimidos. Quer isto dizer que passámos a ter a possibilidade de voltar a viver com Deus para sempre no céu. A coisa não é automática, evidentemente; Cristo conquistou-nos a possibilidade de ir para o céu, mas nós temos de estar em condições de possuir o que Ele conquistou para nós. Acontece que, até estarmos redimidos, por muito bem que fizéssemos, tínhamos de ficar à espera (foi o que aconteceu às almas dos justos que viveram antes de Cristo, e que Ele foi buscar para o céu após a Sua morte).

O pecado abre uma divisão dentro de nós, impede-nos de atingir o fim para que fomos criados, fim esse que é a nossa única felicidade a sério; por isso, torna-nos miseráveis. O pecado abre-nos em dois: de um lado, ficamos com aquilo que realmente somos, filhos de Deus; do outro, com aquilo em que nos tornámos por acção da nossa vontade, escravos do demónio. A morte de Cristo construiu uma ponte entre estes dois lados, permitindo-nos regressar à nossa origem, àquilo que verdadeiramente somos.            

E chega por agora, que esta não foi fácil.

*Maria José Figueiredo

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