Cartas a Guiomar: A oração (18)

 Cartas a Guiomar: A oração (18)

Querida Guiomar,

Depois de reler as últimas cartas, cheguei à conclusão de que me faltava ainda falar-te de um aspecto crucial do cristianismo.

«Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo», escrevia o papa Bento XVI na sua primeira encíclica (Deus é amor). É uma afirmação que colide com a visão que as pessoas têm da nossa fé, e posso mesmo confessar-te que a primeira vez que a li fiquei surpreendida (e um nadinha duvidosa de que o Papa fosse realmente ortodoxo). Então o cristianismo é um encontro com uma Pessoa? Então as ideias, as doutrinas, as normas não são o mais importante do cristianismo? Pois, de facto não. O cristianismo é a adesão pessoal a Cristo. As ideias, as doutrinas e as normas são meios para lá chegar; são meios essenciais, mas não são o fim.

Um dia destes, um amigo meu que é agnóstico (mas não o será por muito mais tempo, espero eu) dizia-me que, lendo os evangelhos, não tinha encontrado assim grandes elaborações teológicas; algumas afirmações ousadas, é verdade, bastantes milagres, declarações afectuosas, mas sobretudo conversas, algumas até banais. Não será bem assim, porque os evangelhos contêm muitas afirmações de Cristo que são autênticos tratados de teologia – e que deram origem a bibliotecas inteiras. Mas é um facto que a apreciação com que se fica de Jesus não é a de um teórico, mas a de uma pessoa carinhosa com os fracos, ríspida com os hipócritas, solícita e exigente com todos.

Jesus podia muito bem ter passado os Seus três anos de vida pública (ou os trinta de vida privada) a ditar doutrinas a um escriba, ou a escrevê-las Ele. E, como gostava muito de parábolas, podia ter narrado uma série delas – mas, já agora, com as correspondentes explicações, que algumas são bem difíceis de compreender. Mas não fez nada disso. Jesus andou dum lado para o outro, a pregar coisas simples e a relacionar-Se directamente com ricos e pobres, sãos e doentes, cultos e analfabetos, judeus e gentios. Jesus gostava (gosta!) das pessoas e as pessoas gostavam Dele: para onde quer que fosse, atraía multidões, e as crianças corriam a pendurar-Se-lhe ao pescoço quando O avistavam ao longe. Era (é!) uma pessoa extremamente sociável. Ia a casamentos com a mãe e a banquetes em casa de ricos. Tinha uns amigos em Betânia, três irmãos, a casa de quem ia de vez em quando passar uns dias a descansar. Não fazia cerimónia em ir bater à porta da casa de Cafarnaum sem avisar, na companhia de doze apóstolos famintos, pedindo à sogra de Pedro que lhes desse a todos de jantar (de tal maneira que um dia ela caiu à cama cheia de febre). E, quando entrou em Jericó, parou debaixo do sicómoro a olhar para Zaqueu, que tinha subido à árvore para conseguir vê-Lo; Jesus sorriu da esperteza do baixote e tratou imediatamente de Se fazer convidado para casa dele, que devia ser a melhor de toda a cidade.

Jesus veio ao mundo para Se dar a conhecer e Se fazer amar pelas pessoas. A todos quantos Lhe pediam um milagre, exigia-lhes previamente uma prova de confiança pessoal n’Ele. E é isso mesmo que continua a pedir-nos hoje. A cada um. Pessoalmente. Ninguém pode ser cristão se não estabelecer e mantiver uma relação pessoal com Cristo, se não aderir pessoalmente a Ele.

E como é que as pessoas estabelecem e mantêm relações umas com as outras? Naturalmente, conversando, primeiro de coisas superficiais, depois de coisas cada vez mais íntimas, depois de segredos que não querem que mais ninguém saiba, até que uma e outra cheguem a conhecer-se tão bem que sejam como que mutuamente transparentes. Com Deus é a mesma coisa: Ele tem uma série de segredos a revelar-nos sobre Si, segredos esses que só está disposto a dizer-nos ao ouvido, na intimidade do nosso coração. Para isso, temos de Lhe dedicar tempo e atenção. Temos de fazer oração.

Podemos rezar de duas maneiras: ou seguindo um texto pré-estabelecido (oração vocal), ou adorando e amando a Deus com os nossos pensamentos e desejos, sem necessidade de recorrer a fórmulas estabelecidas (oração mental). De entre as orações vocais, a mais importante e a mais perfeita é aquela que nos foi ensinada pelo próprio Jesus: o Pai-nosso. O Pai-nosso contém todas as coisas que devemos pedir e desejar, e exprime-as no quadro de uma atitude exemplar: a fé e confiança filial no poder e no amor de Deus. A segunda oração vocal mais importante é a Ave-maria, que começa com as lindíssimas palavras da anunciação do arcanjo a Nossa Senhora e termina com uma petição composta pela Igreja: que a Mãe de Deus nos assista na hora da nossa morte. Ao longo da sua história, a Igreja foi compondo inúmeras orações com que podemos dirigir-nos a Deus louvando-O e agradecendo-Lhe os Seus dons, pedindo-Lhe pelas nossas necessidades e suplicando-Lhe o perdão dos nossos pecados.

Outra forma de oração imprescindível para os cristãos é a oração mental, em que falamos com Deus como Moisés na sarça ardente, aprendendo a conhecê-Lo. Muitas vezes, esquecemo-nos deste pormenor: que a oração nos serve para conhecer a Deus, de tal maneira que passamos o tempo a falar de nós e deixamos passar a oportunidade de O ouvir falar de Si. Ora, Deus é um mistério grandioso, inesgotável, de uma riqueza infinita, que está para além do nosso entendimento, mas que quer dar-Se a conhecer à nossa alma, porque quem ama quer ser íntimo daquele que ama, e Deus morre de amor por nós. Mas para isso temos de ser persistentes, fiéis, de querer realmente conhecê-Lo.

Uma boa maneira é dedicar todos os dias algum tempo a conversar com Ele (pode não ser muito, dez minutos, digamos), para Lhe contar como vai a nossa vida e Lhe perguntar como vai a Dele. Sem fórmulas nem palavras feitas, sem querermos parecer bem, mostrando-Lhe com sinceridade as nossas fraquezas, narrando-Lhe os acontecimentos do nosso dia; é verdade que Ele sabe tudo, mas quer ouvi-lo a nós. No fundo, como dizia um padre que eu conheço, Deus quer é conversa. E, quando não soubermos o que havemos de Lhe dizer, dizemos-Lhe isso mesmo: Não sei o que Te hei-de dizer hoje – e já estamos a rezar. Outras vezes, limitamo-nos a contemplá-Lo em silêncio, como fazia aquele camponês iletrado a quem São João Maria Vianney perguntou um dia o que fazia na igreja: Olho para Ele e Ele olha para mim, respondeu o homem, e o que mais impressiona é a fé com que ele afirmava que Jesus o olhava!

Mas, se nos convém dedicar uns minutos por dia a estar sossegadamente a falar com Deus, todo o resto do nosso dia também pode – deve! – ser oração. Quando vamos na rua, quando estamos a almoçar, enquanto estudamos, no cinema, numa festa, a qualquer momento podemos elevar o coração a Deus e cumprimentá-Lo, pedir-Lhe desculpa por não nos lembrarmos d’Ele há muito tempo, pedir-Lhe ajuda para o que estamos a fazer, agradecer-Lhe o que acaba de nos dar – milhentas coisas! São uns segundos, mas assim estamos mais unidos a Ele e fazemos de toda a nossa vida um hino de louvor ao Altíssimo.

Porque nós não somos funcionários, somos apaixonados! Não estamos na Igreja como quem tem um emprego ou pertence a uma agremiação; nós fazemos parte da Igreja porque encontrámos em Cristo o primeiro amor da nossa vida, um amor que dá vida, e calor, e sentido a todos os outros amores, um amor que não nos afasta daqueles que amamos neste mundo, mas pelo contrário nos aproxima mais e mais deles. O cristianismo é uma relação com uma Pessoa. Nós temos o privilégio de dizer: Eu sou amigo pessoal do Senhor do universo.

Pensa bem nisto, porque não é uma coisa vulgar!

*Maria José Figueiredo

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