Cartas a Guiomar: A encarnação do Verbo (3)

 Cartas a Guiomar: A encarnação do Verbo (3)

Querida Guiomar,

Temos realmente estado a ver umas coisas muito subidas, como tu dizias, mas que eram essenciais para perceberes a carta de hoje, com a qual entramos em domínios mais intensamente comovedores do amor de Deus.

Por volta do ano 1 da nossa era (mais 6 anos, menos 6 anos), vivia na Palestina (que na altura era uma província do Império Romano), em Nazaré, uma rapariga chamada Maria, prometida a um homem chamado José, carpinteiro de profissão. Estavam prometidos em casamento um ao outro, já tinham celebrado a primeira parte do contrato matrimonial, quando a rapariga – que, sendo jovem e solteira, era virgem – recebeu a visita do arcanjo Gabriel, que veio perguntar-lhe se queria ser a Mãe do Filho de Deus.

Ela respondeu que sim, que estava disposta a ser aquilo que Deus quisesse que Ela fosse, e nesse momento a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho, encarnou, ou seja, tomou carne, tomou a natureza humana no ventre de Maria. Nove meses depois, nasceu. Como todos nós (mais mês, menos mês).

Deus, na Sua segunda Pessoa, fez-Se homem.

Aquele que os céus não podem conter tornou-Se um de nós; o que celebramos no Natal é o nascimento de Deus.

Nasceu a chorar e nesse momento começou a respirar sozinho; e estremeceu de frio, porque tinha abandonado o quente da barriga da Mãe. Nasceu em Belém, uma cidadezinha situada a poucos quilómetros de Jerusalém, num estábulo. Teve fome e adormeceu encostado ao coração de Maria; e José – que, embora não fosse o pai biológico de Jesus, era tão pai como se pode ser – atirava-O ao ar quando Ele tinha uns dois anos, para Lhe ouvir as gargalhadas deliciadas.

Foi crescendo e a Mãe tinha de Lhe fazer túnicas novas todas as estações, porque as do ano anterior já não Lhe serviam; e gastava as sandálias e sujava os pés a andar dum lado para o outro, a fazer recados e a brincar. Depois aprendeu de carpinteiro com o pai, e passava horas a aplainar a madeira e a dar cera às mesas, e tinha um sorriso a que ninguém conseguia resistir.

Devia ser moreno, com nariz de judeu (mais judeu que Ele não se podia ser). Tinha uma cor preferida, e um prato que a Mãe lhe fazia no dia dos anos. Tinha um cheiro que era o Seu, e gestos parecidos com os dos pais; e um tom de voz facilmente reconhecível. E suava quando fazia esforços, e tinha sede no final de uma caminhada, e quando passava a noite acordado bocejava muito no dia seguinte. E ficava com calos nas mãos quando carregava coisas pesadas, e quando andava à chuva chegava a casa encharcado dos pés à cabeça, e espirrava (e a Mãe não devia gostar nada da brincadeira). E, quando tinha de acender a lareira, nem sempre conseguia à primeira, sobretudo quando a lenha estava húmida.

Era um de nós, exactamente como nós (em tudo excepto no pecado, como diz São Paulo).

Jesus era verdadeiro Deus e verdadeiro homem, unia duas naturezas (a humana e a divina) numa só Pessoa. Não era homem à semana e Deus ao fim-de-semana; não era homem durante o dia e Deus durante a noite; não era um Deus a fingir que era homem, nem um homem a armar em Deus; não deixou temporariamente de ser Deus para ser homem, nem deixou de ser homem para voltar a ser Deus. Era Deus e homem. É Deus e homem.

Como é que sabemos? Bem, primeiro porque o arcanjo Gabriel disse a Nossa Senhora que o Filho dela era o Filho do Altíssimo; depois, porque São Pedro declarou que Ele era o Filho de Deus, e Jesus confirmou esta declaração; e ainda, porque o próprio Jesus disse de Si próprio, preto no branco e com todas as letras, que Ele e o Pai são um. De vez em quando, aparecem umas luminárias (aposto que já ouviste algumas) a dizer que Jesus era um sujeito fantástico, que as coisas que Ele pregou eram lindas e maravilhosas, mas que ser Filho de Deus… francamente! Mas dizer isto é um contra-senso. Jesus disse que Ele e o Pai eram um; portanto, ou era um sujeito fantástico, mas era um lunático megalómano e deviam tê-Lo metido no manicómio por achar que era Deus (mas nesse caso de onde Lhe vinha o poder que tinha de fazer milagres?); ou então era mesmo Deus. E era. E é.

E Deus encarnou por amor a nós.

Convenhamos que é preciso ter perdido um bocado o juízo, para abandonar o conforto do céu, aquela maravilhosa descontracção e felicidade divinas onde o amor reina indefectível, para vir passar cerca de trinta e três anos neste mundo, a que com razão se chama um vale de lágrimas. Mas a verdade é que Deus perdeu mesmo o juízo: enlouqueceu de amor por nós.

E amanhã há mais, se Deus quiser.

*Maria José Figueiredo

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