Apague-se o fogo com gasolina

 Apague-se o fogo com gasolina

imagem retirada de wordpress.com

João Paulo Marrocano

Esta expressão, tanta vez utilizada em jeito de brincadeira, aplica-se na perfeição não a uma, mas a duas medidas anunciadas recentemente pelo governo. Na realidade, ambas são altamente incendiárias e desprovidas de qualquer racionalidade. Mais trágico só mesmo o facto de serem antagónicas entre si.

Anunciou-nos o Sr. Ministro Eduardo Cabrita que durante o próximo mês de Junho estará concluído o processo para atribuição de SUBSIDIO DE RISCO a todos os membros das forças de segurança. Não sei se estas são ou não mal pagas ou se o país lhes pode ou não pagar melhor. Sei sim que as forças de segurança carecem de uma reforma profunda com vista à resolução de muitos dos problemas que saltam à vista de qualquer cidadão minimamente atento, ainda que leigo na matéria. Os casos conhecidos recentemente de disputa entre GNR e PSP sobre escolta a vacinas. Os casos conhecidos, dignos de uma verdadeira novela de mau enredo, com elementos dos GIPS a dar voz de detenção a elementos da FEB em pleno incêndio ou tantos outros infelizes episódios a que vamos assistindo, merecem uma reflexão profunda, ponderada, mas necessária sobre a dignificação e valorização de quem garante a nossa segurança.

É preciso reflectir hoje se se justifica a existência de várias policias com funções idênticas, vindas do tempo em que havia uma definição clara de meio urbano ou meio rural. É preciso reflectir que sentido faz haver uma força de combate aos incêndios da GNR depois de já ter sido criado uma força especial de bombeiros, tutelada pelo mesmo ministério. É preciso reflectir porque vale a vida de um cidadão estrangeiro oito vezes mais que a vida de um militar que tomba no cumprimento do dever. É preciso reflectir que funções inequívocas cabem a cada uma delas, pela sua própria dignidade.

Acontece que as medidas tomadas pouco vão além da atribuição do já referido subsídio. Se as forças de segurança são mal pagas, e se o país lhes pode pagar mais, então valorize-se a sua carreira com vencimento base, NUNCA desta forma. Atribuí-lo, é admitir que Portugal tem um problema com a criminalidade, a violência e com a completa falta de respeito para com os seus agentes de autoridade. É admitir a total incompetência governativa para resolver o problema da criminalidade na origem e pela via da educação da população. Atribuir um subsídio de risco às forças de segurança, é legitimar a violência sobre as mesmas, é legitimar a criminalidade. Afinal recebem um subsídio pela “porrada” que eventualmente possam levar. As forças de segurança merecem muito mais, merecem principalmente condições de trabalho, reconhecimento e respeito.

Também a Sra. ministra Alexandra Leitão anunciou a construção em Lisboa de uma residência exclusiva para filhos de funcionários públicos que estudem nas universidades da Capital. Quem diria que tal obra vinha de um governo que tanto apregoa o seu “amor” ao interior do país e aos mais desfavorecidos. De uma só penada mostra todo o radicalismo que lhe “corre nas veias”. De uma só penada favorece os funcionários públicos em detrimento dos outros, exactamente como fez Salazar quando criou a ADSE em 1963. Tal medida é o regresso a uma espécie de “Apartaid” em que as pessoas são separadas pela sua condição à nascença. Lá chegará o tempo em que a separação será pela cor da pele. Uma vez mais fica também demonstrado a completa falta de respeito que o Partido Socialista tem para com o interior.

Posto isto, se um ministro quer legitimar a criminalidade, a violência e a indigência, para que quer uma ministra criar condições de formação nas universidades?  Não seria mais fácil levar logo os jovens por maus caminhos para que ninguém ousasse sequer duvidar da necessidade de atribuir um subsídio a legitimar a violência contra as policias? Ou será que o único propósito da criação da residência é garantir uma qualquer reforma dourada e vitalícia a um ilustre camarada de partido proprietário da mesma? Um assunto a acompanhar nos próximos episódios desta trágica “novela”.

*João Paulo Marrocano

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