X Encontro Mundial das Famílias

X Encontro Mundial das Famílias

Transcrevemos a entrevista feita a Vincenzo Bassi, da FAFCE, associação de famílias católicas da Europa. Numa primeira parte avalia o Encontro Mundial das Famílias, numa segunda parte faz balanço dos 25 anos da associação, que celebra este ano os 25 anos.

Como é que olha para este Encontro Mundial das Famílias?

É uma ocasião importante para as famílias de todo o mundo, porque podemos encontrar-nos. A solidão é a enfermidade mais grave para as famílias. É uma oportunidade de falarmos entre as famílias, confrontar e dizer o que está bem e o que não está bem.

Podemos dizer que as famílias querem ser protagonistas neste tempo de mudança de época, como disse o Papa. Gosto de ver como as famílias querem tomar a responsabilidade desta mudança de época no serviço. As famílias, neste encontro mundial, têm demonstrado que se pode servir a sociedade como protagonistas, porque as famílias não são destinatários de serviços, mas podem ativar processos de organizar o futuro na sociedade.

A Igreja está preparada para deixar as famílias serem protagonistas?

Igreja e família são a mesma coisa. A Igreja é uma comunidade de famílias, com os pastores no meio. Se isto for a Igreja, não se pode distinguir entre Igreja e família, e creio que neste tempo de sinodalidade, podemos falar e ajudar os pastores a descobrir o papel dos pastores e o papel da família. Temos de ajudar a que cada um sirva segundo a sua vocação.

Na sua ideia, quais são os aspetos que precisam de mais atenção?

Eu dizia há pouco que a solidão é a enfermidade mais grave da família e da Igreja. Temos de encontrar solução cuidar desta doença. Para mim, como presidente da FAFCE, a solidão soluciona-se se pudermos criar redes de famílias. As famílias sozinhas não têm força para cumprir a sua vocação de serviço para os membros da sua família e para o resto da sociedade.

Esperamos que as redes de famílias levem a uma experiência melhor de cada Igreja local.

O que é que estes delegados devem levar daqui para os seus países?

As famílias têm de ser protagonistas, porque a família tem uma função muito precisa na sociedade e na Igreja. Como organizar-se para realizar esta função é uma responsabilidade de cada comunidade local. Temos de encontrar uma necessidade comum, precisamos de ajudar as famílias a estarem na comunidade, e as redes de famílias, adaptadas a cada país, podem ser um exemplo útil para dar às famílias o exemplo e a coragem para continuarem neste caminho de missão e evangelização.

Como é que olha para estes 25 anos de FAFCE?

São 25 anos muito intensos, onde as famílias mudaram as responsabilidades e os papéis. Agora, 25 anos significa uma história, uma confiança e a responsabilidade de continuar a representar famílias e países.

Os princípios orientadores mantêm-se?

Sim, sim. Os princípios são os mesmos, mas desenvolveram-se, porque hoje as famílias precisam de coisas diferentes que há 25 anos. Temos problemas novos, se pensarmos que o Inverno demográfico é o maior problema. A Familiaris Consortio é o documento da Igreja que nos serve de inspiração. Está ali, é um documento importante, e as famílias e as associações nacionais têm de compreender como aplicar os princípios da Familiaris Consortio.

Vivemos uma mudança de época. Os novos conceitos de famílias afetam a visão de família da Igreja e da FAFCE?

Quando falamos de família, falamos de família sem adjetivos. Não preciso de utilizar adjetivos porque isto é algo concreto. A família tem responsabilidade, tem uma função e aí é sempre família. Temos de falar sobre a responsabilidade da família, e a FAFCE tenta explicar que, sem as famílias, a sociedade não tem futuro, e quando se fala assim, não temos de explicar outras coisas, porque a ideologia é uma enfermidade e não permite explicar a função e a beleza da família. Falamos da beleza da família e de como ela aplica essa beleza na vida concreta.

Mas os novos modelos de família estão aí… devem ser enquadrados, e como?

Creio que a família não é um modelo, é uma realidade, porque se toma a responsabilidade dos outros de forma geracional. Se falarmos da função da família, temos somente de nos preocuparmos de não excluirmos ninguém da Igreja. A Igreja tem uma função de acolher, mas a família tem funções e características específicas que não devemos misturar com outras associações ou realidades que não têm as mesmas características da família. Agora, é importante para as famílias europeias, e também para a portuguesa, estarem juntos, porque a solidão da família é uma enfermidade, não basta participar nos movimentos eclesiais para formar comunidade. A família tem de tomar a responsabilidade de construir comunidade, que tem de incluir as pessoas que querem estar com Deus, mas as famílias não são um privilégio, são uma responsabilidade, podemos ver na vida concreta de cada família o futuro da sociedade. Uma instituição que não pode programar ativamente o futuro da sociedade não pode definir-se como família.

Devem ser criadas outras estruturas que acompanhem estas realidades?

Eu acho que a família é uma instituição que permite incluir todas as pessoas. Mas temos de compreender a função concreta da família, e não é útil misturar com outras instituições. A família tem a característica de ver o futuro e de se preocupar com ele, é uma instituição natural que tem esta função. Não é uma questão de discriminar algo ou alguém, trata-se de ver a realidade, que é que a família, na história do Homem, teve uma função particular, porque é a que estava, que está e que ficará para sempre.

Por outro lado, a sociedade olha para a família tentando forçar uma mudança que não é boa?

É verdade, éuma coisa que é difícil de compreender, porque a família está ao serviço da sociedade. A ideologia é algo de muito mau, e a família é a coisa menos ideológica que podemos imaginar. Não é fácil, mas, no tempo do inverno demográfico, sem família não podemos imaginar o futuro.

As últimas discussões sobre aborto, eutanásia, entre outros, têm um impacto grande na forma as famílias se organizam nos diferentes países…

Sim, mas nós agora temos de tentar mudar a comunicação sobre a família. Hoje, a comunicação é de defesa da família, mas esperamos promover as famílias, e comunicar a beleza da família, porque só com o efeito de contágio da beleza da família é que podemos falar mais da família e da responsabilidade da família. Se seguirmos esta forma de comunicar, que é uma forma que não ajuda a ver a beleza, não podemos ter êxito.

E porque é que as pessoas deixaram de perceber a beleza da família?

A solidão é a causa das enfermidades mais graves para a família. A solidão pode solucionar-se somente quando as famílias estiverem em rede. Em Portugal, em Itália, na europa e no mundo, temos de falar mais da importância e do papel das famílias na rede de famílias.

Portugal não tem uma associação de famílias católica…

Para mim, dizer que é uma pena num país que não é Itália, o meu país, não é fácil. Mas posso dizer que as associações familiares católicas são úteis onde existem, e por isso poderiam ser úteis também em Portugal. Esperamos poder cooperar mais, porque ao falar sobre a família, falamos sobre a sociedade e o futuro, e se a representação das famílias católicas for mais forte e profissional, podemos organizar e fazer algo interessante para representar as necessidades das famílias em Portugal, como também o fazem instituições públicas e políticas. Por isso é que acho importante ter uma associação de famílias católicas, porque onde temos esta experiência também os políticos compreendem melhor o que é que as famílias precisam.

E essa iniciativa deve surgir das famílias ou da Igreja?

Cada país tem uma realidade diferente. Se for a França, é uma iniciativa da sociedade, em Itália comunidade e Igreja, em Espanha também e Portugal poderia seguir esse exemplo.

*Ricardo Perna

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