Vidas

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Rita Gonçalves, Gestora do lar e Mãe em full-time

Quem sou eu para falar do Aborto? Tenho sete filhos, tive um aborto espontâneo com poucas semanas de vida e sou doméstica. Custa-me falar de assuntos tão sérios porque não quero ser leviana em nenhum momento. Não quero parecer que levo ao de leve o que é sério. Muito sério.

Conheço pessoas e vidas, com quem aprendo e de quem vos falo hoje.

Conheço uma pessoa que foi violada, ficou grávida e decidiu deixar o seu filho viver. É uma mulher feliz, o seu filho é um miúdo feliz e não observo nada de amarguras na sua vida. Tenho a certeza que se perguntasse a esta mulher se ela preferia não ter tido o filho, ela até ficaria ofendida comigo. Se a sua carreira profissional, se os seus relacionamentos são perturbados pela existência deste filho, mais ainda a ofenderia.

Conheço uma pessoa que engravidou muito jovem, numa aldeia pequenina e que esteve às portas da igreja para casar e percebeu que não era aquele o homem que queria para a sua vida. Todos ficaram contra ela, mas a pouco e pouco, a vida daquela criança era maior que qualquer nódoa ou mágoa e tudo se foi compondo. Trabalhou, estudou e tem três filhos incríveis. Seria mais feliz se tivesse abortado, se tivesse decidido apagar aquele engano?

Já falei com esta minha amiga muitas vezes. Que mulher! Alegre, generosa, de bem com a vida porque lutou o que tinha de lutar, deu tudo a cada momento. Como será viver com o peso de ter deixado uma vida para trás? Não consigo imaginar.

Conheço uma pessoa que engravidou nos seus tempos de faculdade. Vila pequena. Teve a sua filha, acabou o curso, casou e teve um outro filho. Uma mulher que aceitou uma filha, que lutou por ela e pelas suas dificuldades de aprendizagem, quando ainda estava a iniciar a sua vida profissional. É uma mulher admirável porque aceitou os desafios da vida e deu tudo. Sangue, suor e lágrimas pela vida da sua filha que é a sua vida também.

Conheço uma pessoa que engravidou jovem e abortou clandestinamente. Sofreu horrores. Quem a rodeava sofreu. Hoje, não me parece que alguma vez esta mulher se tenha voltado a encontrar. Não passou pela generosidade de ter um ser na sua vida porque quem morreria a qualquer hora. Não passou pela luta de ser mãe jovem e ter de enfrentar as opiniões e os comentários. As suas lutas são outras, bem mais dolorosas, bem mais pesadas e amargas.

Muito tempo já passou desde este aborto, mas transparece a sensação de que a vida ficou lá atrás. A vida da mãe desta mulher também ficou lá atrás e que seriam certamente muito mais felizes e melhores se, hoje, tivessem este jovem ou esta jovem nas suas vidas.

Não sei falar de aborto. Ninguém faz um aborto de ânimo leve. Pesa. Dói. Nada mais volta a ser como dantes, ainda que a publicidade da moda faça parecer que é como uma borracha que apaga o erro e que a mulher tem o direito de escolher.

Sim, a mulher tem direito a escolher até ao surgimento de uma nova vida. A partir desse momento incrível que se origina a vida, acaba a escolha porque a vida de outra pessoa não pode estar dependente das decisões de outros. Basta ver uma ecografia para perceber. Não se trata de acreditar num Deus criador, não se trata de fundamentalismos religiosos. É a ciência que o diz. Como fazia notar um jurista espanhol chamado Francisco J. Contreras, “se o ventre das mulheres fosse transparente, nenhuma mulher seria capaz de abortar”.

A questão do aborto começa no conceito de vida humana, no valor que damos à vida humana. Se assumimos que a vida humana é valiosa em si mesma, que não tem mais ou menos valor, consoante o seu grau de desenvolvimento, o seu sexo, a sua raça, a conta bancária dos seus pais, a sua utilidade, então o aborto não tem lugar nas nossas vidas, não tem lugar nas nossas sociedades, porque, de facto, nada de bom pode surgir de um aborto, para ninguém.

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