Uma família de se tirar o chapéu!…

 Uma família de se tirar o chapéu!…

imagem retirada de https://edicoescnbb.blog

Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Todos apreciamos as pessoas que se dedicam de alma e coração a causas nobres, sobretudo em voluntariado alegre e feliz. Uns, sempre disponíveis, conseguem fazê-lo em acumulação com as suas ocupações diárias. Outros, com pena sua, só o poderão fazer após a aposentação. A sua profissão, o tempo, as distâncias, o vai e vem da vida nunca lho permitem. Mesmo assim, sempre que podem, lá estão eles a dar uma mãozinha. De facto, ninguém se deveria ocupar a fazer versos à lua, quais poetas de água doce. Tampouco a burilar a maledicência para zurzir em quem participa e colabora. As formas de cooperar são muitas e variadas, é verdade. A fé não nos tira do mundo, compromete-nos ainda mais com ele, há deveres sociais e outros a cumprir. Mas hoje, de entre todos eles, refiro-me apenas àquele que brota da própria fé. No conjunto do trabalho eclesial e do apostolado dos leigos, o testemunho de participação, se é de louvar em cada batizado, não o é menos quando é dado por um casal, por uma família que se torna sujeito de ação pastoral através do anúncio do Evangelho e de outras formas de testemunho, quer no compromisso social quer como cireneu de terceiros nas dificuldades da vida.

A nova evangelização precisa de famílias cuja alegria do Evangelho lhes encha o coração e a vida. Só assim poderão levar Cristo a outras famílias e ser verdadeiros suportes do crescimento das comunidades. De pouco adiantarão belos discursos e inteligentes esquemas pastorais se as famílias não deitarem as mãos ao arado. Tantas famílias com saúde, disponibilidade, talento e saber, que, se não vivessem fechadas em si próprias, poderiam revolucionar as suas comunidades tão carentes de quem as faça viver com alegria e esperança, fazendo delas uma família de famílias. Há paredes a derrubar para que as famílias se deem as mãos, reflitam juntas, rezem juntas, cresçam na fé juntas, debatam temas juntas, programem juntas e juntas metam mãos à obra, deixando-se conduzir pelo Espírito, pela Palavra e pela Alegria de servir, em comunhão. Tenho para mim que, se, numa comunidade, um casal mais sensível à evangelização se decidisse a constituir um grupo de seis/sete casais abertos a fazer caminhada, como isso seria uma bola de neve a, no futuro, fazer ramificar novas equipas, novas dinâmicas de ação e entusiasmo contagiante. Ai se as famílias quisessem!… Como tudo seria diferente!…

O Livro dos Atos dos Apóstolos apresenta-nos um casal que se tornou fermento evangelizador na sociedade do seu tempo e cujos frutos ainda perduram. Ao recordá-lo, tenho dois objetivos. Em primeiro lugar, aplaudir as famílias que se organizam a si próprias, dando as mãos, e se dedicam à causa do Evangelho e ao serviço das comunidades, de forma discreta e eficaz, gerando empatia e admiração do povo. Em segundo lugar, alertar muitas outras famílias para o tanto bem que poderiam fazer, em fidelidade ao seu batismo e ao sacramento do matrimónio. Sim, a família não é só um campo de autoevangelização e de graça salvadora. Não é só destinatária ou recetora da evangelização. É uma escola donde irradia o anúncio do Evangelho, qual igreja em saída a tornar-se fonte de alegria para tantas famílias ao levar-lhes a certeza de que Deus as ama, as toma pela mão, as conduz a bom porto e conta com elas para se fazer encontrado junto de quem o procura de coração sincero.

São Lucas apresenta-nos esse casal ao dizer que “Paulo deixou Atenas e foi para Corinto. Encontrou ali um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que acabara de chegar da Itália com a esposa Priscila, pois o imperador Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo entrou em contacto com eles. E como eram da mesma profissão – fabricantes de tendas -, Paulo passou a morar com eles e trabalhavam juntos (At 18, 1-3).

Depois de algum tempo em Corinto, Paulo, juntamente com Áquila e Priscila, partiram para a província da Síria, tendo chegado a Éfeso. Com o seu zelo e entusiasmo apostólico, Paulo falava desassombradamente aos judeus na sinagoga local. Priscila e Áquila também o ouviam pregar e iam-se instruindo cada vez mais nos caminhos do Senhor. A alegria do Evangelho acabou por lhes encher o coração e a vida toda, ficando sempre muito amigos de Paulo, ao ponto de, em certa ocasião, terem arriscado a sua própria vida para salvar a de Paulo (cf. Rom 16,4). Também na 1ª Carta aos Coríntios e na 2ª a Timóteo Paulo manda saudações para Áquila e Priscila (1Cor 16,19; 2Tim 4, 19).

Mas retomando a conversa, depois de algum tempo em Éfeso, Paulo, sempre imparável – ai de mim se não evangelizar! -, prosseguiu a sua viagem missionária. Áquila e Priscila, porém, ficaram em Éfeso como alicerce daquela crescente comunidade cristã. Era em sua casa que se reunia a Igreja em crescimento. A sua hospitalidade, o seu bem fazer e dedicação aos outros fez deles pessoas muito estimadas pela comunidade envolvente. Entretanto, chegou aqui, a Éfeso, um judeu chamado Apolo, natural da Alexandria. Era um homem muito culto, orador de largos recursos humanos e muito instruído nas Escrituras. Falava com convicção na sinagoga e ensinava com precisão o que se referia a Jesus. A sua base cristã, porém, não era famosa, só conhecia o batismo de João. Áquila e Priscila, cristãos atentos e a sentir responsabilidades pelo crescimento da comunidade, ao escutá-lo, logo viram nele alguém que muito podia dar ao serviço da evangelização. Levaram-no consigo e ajudaram-no a crescer no conhecimento de Cristo. De tal forma o souberam fazer que Apolo passou a rebater “vigorosamente os judeus em público, demonstrando pelas Escrituras que Jesus é o Messias” (At 18, 24-28). Isto mostra-nos como Áquila e Priscila, para além do seu trabalho evangelizador, estavam atentos aos possíveis líderes da comunidade. Perceberam que Apolo seria um bom trunfo para o serviço da evangelização e logo o desafiaram. Hoje, como sempre, também é preciso estar atento aos líderes. Os servidores das comunidades fariam um trabalho valiosíssimo em prol do futuro das mesmas comunidades se se dedicassem, com prioridade, à formação de líderes, partilhando tarefas, responsabilizando, aceitando êxitos e fracassos, sempre em proximidade amiga e estimulante. Sei que, no terreno, nem sempre é fácil, mas esse é um grande e prioritário desafio da pastoral! Quando em família se vive e ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a família torna-se verdadeiramente evangelizadora, missionária. Os filhos, regra geral, não ficam atrás nesse processo do compromisso missionário. Mesmo que, porventura, em certos momentos da vida pareça que se afastaram, eles sabem que Deus os ama, que Jesus se entregou também por eles, que Jesus está vivo, se faz companheiro de viagem de cada um e de cada um quis precisar para que fosse dado a conhecer a muitos outros, com alegria e esperança.

Ai se, pelo menos, algumas famílias o quisessem!… Como tudo seria diferente!…

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