Gestão de investimentos: Riscos financeiros associados aos produtos subscritos

Estimado Leitor,
No último artigo deste projeto sobre Literacia Financeira entrámos na área da gestão de investimentos. Iniciámos estas publicações com a “identificação dos protagonistas” (tipos de perfis de investidor) e vamos agora abordar o “terreno” onde os mesmos habitualmente se movimentam (ou seja, riscos financeiros, que assumem ou estão dispostos a assumir no contexto das suas poupanças e investimentos).
Entendemos importante e útil este enquadramento inicial, para facilitar a abordagem dos temas seguintes, e permitir uma apropriada “visualização” do posicionamento de cada investidor / aforrador, face às opções disponíveis no Mercado, no que diz respeito aos produtos financeiros, suas características, particularidades e riscos financeiros que comportam.
De seguida iremos então abordar os Riscos Financeiros associados aos diversos produtos disponíveis no Mercado Financeiro:
Riscos de crédito – capital – mercado – cambial – inflação – liquidez
1. RISCO DE CRÉDITO
O que é?
– Corresponde ao risco de falência ou insolvência (incapacidade absoluta para assumir ou liquidar compromissos financeiros vencidos) da entidade que sustenta os títulos ou junto da qual foram efetuadas as respetivas aplicações financeiras.
Exemplos práticos:
. Certificados de aforro: Sendo títulos de dívida pública, o risco de crédito é muito reduzido, apenas se colocará em caso de falência ou insolvência extrema do Estado Português, o que significaria a sua incapacidade para assumir os compromissos financeiros vencidos.
. Depósitos bancários: O risco de crédito é igualmente muito reduzido até 100.000 € (por Banco e depositante), dado o Fundo de Garantia de Depósitos, promovido ao nível da União Europeia, e patrocinado por vários estados europeus (como é o caso de Portugal).
. Ações de empresa privada (na prática significam uma quota-parte dessa entidade): O risco de crédito existe em caso de falência ou insolvência dessa entidade.
. Obrigações de empresa privada, SAD clube de futebol, … (na prática significamempréstimo dos subscritores a essa entidade): O risco existe em caso de insolvência dessa entidade (incapacidade para assumir os seus compromissos financeiros).
Antes de passar ao ponto (risco) seguinte, entendemos conveniente clarificar melhor, em linhas gerais, a diferença entre falência e insolvência:
Falência: Ocorre quando o ativo (bens) de uma entidade é inferior ao passivo (dívidas). Uma entidade falida não está necessariamente insolvente (pode eventualmente continuar a assumir de forma temporária os seus compromissos e obrigações financeiras).
Insolvência: Ocorre quando a entidade (devedor) se encontra impossibilitada de cumprir os seus compromissos e obrigações financeiras já vencidas. Uma entidade insolvente não está necessariamente falida (pode ter bens ou títulos que não sejam facilmente convertidos em liquidez, o que pode impossibilitar o cumprimento temporário de obrigações financeiras já vencidas).
2. RISCO DE CAPITAL
O que significa?
– Significa o risco de perda parcial ou total do valor investido na aplicação financeira, por via das características e especificidades inerentes ao produto financeiro subscrito.
Exemplos práticos:
. Certificados de aforro: Este risco não se aplica porque estes títulos garantem sempre uma taxa de juro positiva, ou seja, pelas características do produto não existe risco de perca de qualquer capital.
. Depósitos bancários: Este risco não se aplica também porque as taxas de juro são sempre positivas (ou no mínimo zero), pelo que tendo em conta a definição e especificidades dos depósitos bancários, o risco de perca de capital não é possível.
. Ações de empresa privada: Este risco existe e pode ser mais ou menos significativo. Em função da evolução da cotação das ações, sujeitas a constantes oscilações, os subscritores podem perder parte, ou mesmo a totalidade, do seu investimento.
. Obrigações de empresa privada: Este risco é geralmente reduzido, a maioria das obrigações garante o capital investido na maturidade (termo) dos títulos. Caso se pretenda o reembolso antecipado dos títulos a “conversa já pode ser outra”, estando sujeito ao normal de funcionamento do Mercado, como referido no risco seguinte.
3. RISCO DE MERCADO
O que representa?
– Representa o risco de perda ou alteração de valor na aplicação financeira devido a alterações no preço / taxas de juros / cotações títulos / …, por via do normal funcionamento do Mercado Financeiro e da “lei da oferta e procura“.
Exemplos práticos:
. Depósitos bancários (com taxa fixa de juro): Este risco não existe nos depósitos bancários com taxa de juro fixa (não está sujeito a oscilações de Mercado no período acordado em que essa taxa se aplica).
. Depósitos bancários (com taxa indexada à Euribor): O risco existe, a taxa Euribor varia regularmente e pode influenciar a evolução do valor das poupanças aplicadas.
. Certificados de aforro: As séries mais recentes (E e F) têm taxas de juro indexadas à taxa Euribor 3 meses. A alteração regular desta taxa influencia os juros aplicáveis a estes investimentos, pelo que o risco de Mercado existe.
. Ações de empresa privada: Este risco existe claramente devido à oscilação natural na cotação das ações por via da “Lei da oferta e da procura“.
. Obrigações de empresa privada: Este risco existe. Caso se pretenda o reembolso antecipado dos títulos (antes da sua maturidade), o mesmo pode depender da existência de um comprador interessado no Mercado, e caso o cenário vigente seja o de subida de taxas de juro, o valor a negociar será tendencialmente mais baixo e influenciado por esse motivo (o valor atual de mercado dos títulos desce).
Este Risco de Mercado, por vezes, parece cruzar-se ou confundir-se com o Risco de Crédito, mas estamos a falar de cenários diferentes. O Risco de Crédito está relacionado com situação extrema de falência ou insolvência de entidades, que pode levar à perda total ou não recuperação do investimento efetuado. Este Risco de Mercado é diferente, está ligado ao normal funcionamento do Mercado e às suas naturais oscilações (no âmbito da lei da oferta e procura), o que poderá provocar algumas perdas (temporárias ou definitivas) no valor dos investimentos efetuados.
4. RISCO CAMBIAL
De que estamos a falar?
– Essencialmente da incerteza provocada pela evolução da cotação de uma determinada divisa (moeda) e do impacto que isso tenha num investimento efetuado nessa moeda.
Exemplo prático:
. Momento 1: Existe paridade de moedas, com equivalência monetária entre Euro (€) e Dólar ($), ou seja, 1 $ = 1 €.
. Momento 2: Nessa altura, um investidor europeu pretende investir 1.000 € num produto financeiro cotado em dólares ($). Portanto, o investimento inicial é de 1.000 $.
. Momento 3: No primeiro ano a valorização deste produto (em $) foi 10%, ou seja, o valor atualizado do investimento, após um ano, traduz-se em 1.100 $.
. Momento 4: O investidor pretende agora efetuar o reembolso desse investimento e convertê-lo novamente em Euros (€). A paridade das moedas nesse momento é a seguinte: 1 $ = 0,9 €.
. Momento 5: Assim os 1.100 $ nessa altura representam apenas 1.100 x 0,9 € = 990 €.
Conclusões finais:
. Apesar do investimento (em dólares) ter valorizado 10% num ano, para o investidor europeu esta aplicação financeira traduziu-se numa perca de 1% (1.000 € investido vs 990 € reembolsado).
. Antes do investimento em produtos cotados em divisas estrangeiras, convém avaliar a volatilidade histórica dessas moedas, e também a sua evolução mais recente, para se estar consciente dos riscos a correr por via desta instabilidade. Investimentos aparentemente atrativos podem tornar-se um “pesadelo”.
5. RISCO DE INFLAÇÃO
Que risco é este?
– Este termo não é novo e é certamente do conhecimento generalizado. Significa o risco de redução do valor real (ou do poder de compra) dos montantes investidos numa aplicação financeira, e dos rendimentos por ela gerados, devido à subida de preços.
Exemplo prático (aplicável aos Certificados de Aforro):
. No início de 2023 vigorava a Série E com uma taxa anual de juro bruta = Euribor 3 meses + 1% (com um máximo de 3,5%).
. Assim, quem investiu no início de 2023, teve durante esse ano, uma taxa anual de juro bruta de 3,5% (após a retenção em IRS da taxa liberatória de 28%, a taxa anual de juro líquida cifrou-se em cerca de 2,5%).
. A taxa de inflação em Portugal em 2023 foi de 4,3%.
. Portanto, apesar de se tratar de uma aplicação financeira, com uma rentabilidade aparentemente atrativa, a verdade é que o investidor / aforrador, em termos reais, perdeu nesse ano cerca de 1,8% do valor do seu investimento.
A inflação é de facto um dos “impostos mais cruéis“, de que somos vítimas, e que contribui para tornar os “pobres cada vez mais pobres“.
Para quem investe essencialmente em produtos com segurança, liquidez, capital garantido, taxas de juro garantidas, …, convém ter consciência, que em anos de inflação mais elevada e/ou menos controlada (como ocorreu em 2022 e 2023, e poderá ocorrer de novo em 2026), a perca real de valor nas suas aplicações financeiras é uma realidade. É algo cruel, mas é de facto assim…
6. RISCO DE LIQUIDEZ
De que se trata?
– Risco do investidor não ter disponível o capital investido antes do vencimento da aplicação financeira ou quando dele necessitar ou ter de suportar custos elevados para o conseguir.
Exemplos práticos:
. Depósitos bancários: O risco de liquidez é reduzido. Geralmente existe elevada liquidez (corre-se “apenas” o risco de perder os juros correspondentes ao período decorrido desde a última atribuição de juros).
. Certificados de aforro: O risco de liquidez é igualmente reduzido (só nos primeiros 3 meses após cada subscrição não é viável qualquer reembolso). A partir daí é possível o reembolso (parcial ou total), apenas se perdem os juros (sobre o montante reembolsado) desde a última atribuição trimestral de juros.
. Ações de empresa privada: Risco liquidez existe, mas pode considerar-se reduzido / médio. O risco de liquidez é medido pela facilidade com que os títulos se transacionam no mercado acionista, onde geralmente a liquidez é elevada.
. Obrigações de empresa privada: Este risco de liquidez existe e pode ser mais ou menos significativo. Antes da maturidade (termo) dos títulos a liquidez pode depender do nível de procura no Mercado Financeiro e da existência de um potencial comprador.
Hoje ficaremos por aqui. Estes artigos iniciais foram um pouco extensos, mas entendemos conveniente efetuar este enquadramento inicial sobre o mundo financeiro, e alguns dos seus principais conceitos, para facilitar depois a “navegação“ futura pelos diversos produtos financeiros, o que ainda não se iniciará na próxima publicação.
Na mesma apresentaremos algumas recomendações sobre a forma de repartir o nosso património financeiro, iniciando pela indispensável constituição do Fundo de Emergência, a que se deverão seguir investimentos na ótica do médio / longo prazo e poupanças a longo prazo, para podermos ter uma reforma digna. Assim sendo, essas “dicas” ficarão para a próxima quinzena.
Boa análise e até breve

