Semana Nacional do Migrante e Refugiado

Semana Nacional do Migrante e Refugiado
Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

A Igreja Católica em Portugal está a celebrar, de 8 a 15 de agosto, a 49ª Semana Nacional de Migrações. A Peregrinação Internacional a Fátima, em 12 e 13, será presidida pelo Cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo e presidente da Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia. No último dia desta semana especial, em 15 de agosto, realiza-se também uma jornada de solidariedade com a mobilidade humana. O tema da Semana é o da Mensagem do Papa Francisco para o 107º Dia Mundial do Migrante e Refugiado a celebrar em 26 de setembro: «Rumo a um ‘nós’ cada vez maior». Para que todos sintonizemos com a efeméride e o seu tema, faço eco da referida Mensagem que lhe está subjacente. Apoiando-se na Sagrada Escritura, Francisco recorda que “Deus criou-nos homem e mulher, seres diferentes e complementares para formarem, juntos, um ‘nós’ destinado a tornar-se cada vez maior com a multiplicação das gerações. Deus criou-nos à sua imagem, à imagem do seu Ser Uno e Trino, comunhão na diversidade”. Além disso, diz o Papa, “Deus, na sua misericórdia, quis oferecer um caminho de reconciliação, não a indivíduos isoladamente, mas a um povo, um nós destinado a incluir toda a família humana, todos os povos” (cf. Ap 21, 3). O tempo presente, porém, “mostra-nos que o nós querido por Deus está dilacerado e dividido, ferido e desfigurado … E o preço mais alto é pago por aqueles que mais facilmente se podem tornar os outros: os estrangeiros, os migrantes, os marginalizados, que habitam as periferias existenciais”. Por isso, o Papa apela ao empenho “para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira”. Se este apelo é para todos, para os católicos “traduz-se num esforço por se configurarem cada vez mais fielmente ao seu ser de católicos, tornando realidade aquilo que São Paulo recomendava à comunidade de Éfeso: “Um só corpo e um só espírito, assim como a vossa vocação vos chama a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4, 4-5).

Com a presença do Senhor e a força do Espírito, os cristãos devem tornar-se “capazes de abraçar a todos para se fazer comunhão na diversidade, harmonizando as diferenças sem nunca impor uma uniformidade que despersonaliza. No encontro com a diversidade dos estrangeiros, dos migrantes, dos refugiados e no diálogo intercultural que daí pode brotar, é-nos dada a oportunidade de crescer como Igreja, enriquecer-nos mutuamente”. Numa Igreja cada vez mais inclusive, “todo o batizado, onde quer que se encontre, é membro de pleno direito da comunidade eclesial local e membro da única Igreja, habitante na única casa, componente da única família”.

Nesta maneira de ser e estar, “a Igreja é chamada a sair pelas estradas das periferias existenciais para cuidar de quem está ferido e procurar quem anda extraviado, sem preconceitos nem medo, sem proselitismo, mas pronta a ampliar a sua tenda para acolher a todos. Entre os habitantes das periferias existenciais, encontraremos muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano, aos quais o Senhor deseja que seja manifestado o seu amor e anunciada a sua salvação”.

Caminhando juntos rumo a um ‘nós’ cada vez maior, construiremos “em conjunto o nosso futuro de justiça e paz, tendo o cuidado de ninguém ficar excluído. O futuro das nossas sociedades é um futuro «a cores», enriquecido pela diversidade e as relações interculturais. Por isso, hoje, devemos aprender a viver, juntos, em harmonia e paz. Encanta-me duma forma particular aquele quadro que descreve, no dia do «batismo» da Igreja no Pentecostes, as pessoas de Jerusalém que escutam o anúncio da salvação logo após a descida do Espírito Santo: «Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus» (At 2, 9-11).

E Francisco acentua que “para alcançar este ideal, devemos todos empenhar-nos por derrubar os muros que nos separam e construir pontes que favoreçam a cultura do encontro, cientes da profunda interconexão que existe entre nós. Nesta perspetiva, as migrações contemporâneas oferecem-nos a oportunidade de superar os nossos medos para nos deixarmos enriquecer pela diversidade do dom de cada um. Então, se quisermos, poderemos transformar as fronteiras em lugares privilegiados de encontro, onde possa florescer o milagre de um nós cada vez maior”. O Senhor deu-nos dons e talentos e confiou em nós conservar e tornar ainda mais bela a sua criação e, disso, o Senhor pedir-nos-á contas. “Mas, para assegurar o justo cuidado à nossa Casa comum, devemos constituir-nos num nós cada vez maior, cada vez mais corresponsável, na forte convicção de que todo o bem feito ao mundo é feito às gerações presentes e futuras. Trata-se dum compromisso pessoal e coletivo, que se ocupa de todos os irmãos e irmãs que continuarão a sofrer enquanto procuramos realizar um desenvolvimento mais sustentável, equilibrado e inclusivo. Um compromisso que não faz distinção entre autóctones e estrangeiros, entre residentes e hóspedes, porque se trata dum tesouro comum, de cujo cuidado e de cujos benefícios ninguém deve ficar excluído”.

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