Portugal ensinou o mundo a tocar cavaquinho e ukulele

 Portugal ensinou o mundo a tocar cavaquinho e ukulele
Paulo Freitas do Amaral, Professor de História

É provável que muitos portugueses nunca tenham ouvido falar do ukulele havaiano.

E os que ouviram, dificilmente associam aquele som leve e vibrante ao Norte de Portugal ou à Madeira.

Mas a verdade é esta: o instrumento que se tornou símbolo da música do Pacífico nasceu cá, com outro nome e com outras mãos. Chama-se cavaquinho. É português. E mudou, sem que o mundo o saiba, a história da música popular global.

Num tempo em que se discute tanto o poder cultural das nações, Portugal esquece que já teve — e ainda tem — uma das ferramentas mais subtis e eficazes de difusão da sua identidade: os seus instrumentos, as suas vozes, a sua arte popular. E, no coração disso tudo, está o cavaquinho.

Nascido no Minho e popularizado em todo o país, o cavaquinho acompanhou romarias, festas, rusgas e arraiais, ecoando a alma viva do povo português.

Pequeno, ágil, sonoro, foi embarcando com os nossos emigrantes, marinheiros e aventureiros. Em 1879, três madeirenses — João Fernandes, Manuel Nunes e Augusto Dias — partiram para o Havai.

Levaram consigo a machete, prima do cavaquinho.

Os havaianos, encantados com o som, adaptaram-no e baptizaram-no de ukulele — “pulga saltitante”, dizem, pela rapidez do dedilhar.

Foi aí que começou a metamorfose. Em cada lugar onde o cavaquinho chegou, transformou-se. As madeiras locais alteraram-lhe o timbre. As mãos novas deram-lhe outras técnicas.

O ritmo e o uso popular variaram. Mas no fundo da sua caixa de ressonância ficou sempre a alma portuguesa.

No Brasil, tornou-se cavaquinho de choro.

No Havai, virou ukulele.

Em Cabo Verde, inspirou a cavaquinha.

É sempre ele — reinventado, mas português na raiz.

Hoje, o ukulele brilha nos palcos dos EUA, nas bandas sonoras de Hollywood, nas redes sociais e nas escolas de música do mundo inteiro.

É moderno, tropical, divertido. Mas raramente se diz que, antes de ser havaiano, foi português.

O cavaquinho é apenas um entre muitos instrumentos que demos ao mundo sem pedir recibo. A guitarra portuguesa, a braguinha, a viola de arame, o adufe, o bombo — todos são património nacional e herança universal.

Mas o nosso defeito é antigo: criamos, mas não reivindicamos. Inventamos, mas não promovemos. A modéstia excessiva transforma-se em apagamento cultural.

Enquanto outros constroem impérios musicais com raízes ténues, nós deixamos os nossos instrumentos confinados a museus etnográficos e a rodapés de manuais escolares.

Enquanto o mundo ensina jazz e blues, esquecemos que o cavaquinho foi a semente de muitos sons modernos. Falta-nos visão estratégica, continuidade pedagógica e, acima de tudo, orgulho nacional.

É tempo de agir. Urge propor o cavaquinho como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Mas antes disso, há que torná-lo património emocional e didáctico cá dentro.

Integrar o seu ensino nas escolas, apoiar luthiers nacionais, promover festivais lusófonos, fazer do cavaquinho um símbolo vivo da portugalidade — não uma relíquia esquecida.

Portugal não precisa de inventar uma identidade musical. Já a tem. Feita de madeira, cordas e génio popular.

Com um cavaquinho na mão, demos música ao mundo. Agora falta contá-lo.

*Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

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