Pessoas doentes. Que dimensões? Que respostas?

Pessoas doentes. Que dimensões? Que respostas?
Padre Aires Gameiro

Escrevo no dia da Festa das Cinco Chagas do Senhor em que meditamos “pelas suas chagas somos curados” (Is 53, 5). O ilustre doente, S. João Paulo II, depois do atentado que sofreu em 1981 teve a inspiração de escrever uma reflexão profunda sobre o sofrimento, criou o Conselho Pontifício da Pastoral da Saúde (1985) e, em 1992, instituiu o Dia Mundial do Doente para ser celebrado na festa de Nossa Senhora de Lurdes, 11 de fevereiro.

Este Dia destina-se a escutar, ajudar, cuidar e responder às necessidades dos doentes. E também estimular os cuidados informais e autocuidados e a medidas para manter a saúde e o sentido de vida. Se são cristãos, este Dia apela também a viver a vida cristã unidos a Cristo e a Maria. Uma pessoa doente pode passar por diversas condições de fragilidade passageiras e permanentes. Sentir-se doente não é o mesmo que estar doente, ter uma doença não é o mesmo que ser doente, passar por necessidades e sofrimentos não significa apenas estar incluído no grupo dos doentes. Infelizmente, os doentes podem fazer parte dos grupos de pobres, carenciados, pessoas com deficiências e em situações de miséria. Dito desta maneira, vem a outra face de que, em percentagens variáveis, numerosas pessoas vivem afetadas, ao mesmo tempo, por diversas condições de sofrimento e doenças. São cada vez mais os pobres a viver em solidão, depressão, sentimento de infelicidade, injustiçados, ressentidos, habitados por raivas que não curam, de ódios que não saram, de gente fechada que não se abre à religação em esperança com Deus misericordioso e com Cristo que os ama e deu a vida por eles.

Na Idade Média, era frequente dizer “pobres doentes”, pobres de muitas capacidades, carenciados com limitações físicas, de saúde, abrigo, alimentação, roupa; limitações emocionais, intelectuais, espirituais, de talento e de relações. Eram os pobres dos pobres, doentes e enfermos (dolentes e infirmi, doentes e frágeis) de quase tudo. E hoje, há condições, mas não para todos. Não são os pobres-doentes que mais engrossam o número dos sem- abrigo? Não tendem os pobres-doentes a ficar esquecidos nos hospitais após os tratamentos possíveis? E os pobres-doentes do álcool, das drogas, do jogo, do tráfico de pessoas, da iliteracia, de dezenas de incapacidades, não vagueiam por aí como gente perdida? Não faltam crianças afetadas de doenças evitáveis por serem pobres de alimentos, roupa, casa, higiene, escola. E não esquecer que tantas vezes são pobres-doentes por não terem pai ou mãe, também, pobres-doentes. E pior ainda, serem afetados e empobrecidos por outros pobres de carater e de personalidades frágeis.

Doente? Aplicam-se a muitas destas condições eufemismos genéricos de falta de saúde mental, quase nunca só essa. Os cuidados de saúde mental, apesar da competência dos especialistas e técnicos, nem ao décimo quinto internamento (como dizia um jornal!) os tira do buraco dos pobres-doentes. Tanto mais que alguns ricos, e afetados de diversas carências e antropofagias, lhes devoram a alma e o ânimo, cada vez que algum deles tenta, a sério, viver com um pouco mais de coragem e menos pobre e miserável.

Não faltam cientistas que vão criando escalas para caraterizarem grupos de talento, de pobres, doentes, destituídos de graça e de laços de esperança, para proporem cuidados e terapias. Investigam a modalidade de inteligência espiritual e a espiritualidade quase como mais abrangente substitutiva de todas as religiões, mesmo as de fé no Além. As escalas são construídas por respostas traços de grupos de pesquisados. Apesar do mérito de procura de tais estudos, a relação religiosa de fé em Deus pessoal que ama, perdoa e conforta, não ocupa muito esses estudos. Espiritual é adjetivo de uma capacidade humana, não substantiva como Aquele que é, na narrativa de Moisés na Bíblia, nem Pai que ama e entrega o seu Filho para amar e morrer pelos que sofrem, no Evangelho. Corre-se o risco de algumas pessoas serem levadas a sentirem-se abandonadas em espaços mentais e espirituais subjetivos, fechados em maior solidão.

Será que se pretende apagar o cristianismo de relação religiosa eclesial com Alguém que transcende o mundo, o criou e fala por Jesus às pessoas frágeis e sofredoras? S. João Paulo II escreveu Salvifici doloris (1984), “sofrimento que salva” em Jesus Cristo que amou os homens até dar a vida por eles para lembrar que o sofrimento humano unido ao de Cristo não é absurdo e também salva na vida terrena e na eterna (Cf. Col.1, 24): pelas suas chagas somos curados e curamos.

O Papa Francisco na sua mensagem para este Dia, sob o tema “Trata bem dele! A compaixão como exercício sinodal de cura» fala deste caminhar juntos: «Quando caminhamos juntos é normal que alguém se possa sentir mal, que tenha de parar por causa do cansaço ou por alguma dificuldade no percurso. É exatamente nesses momentos que se vê como estamos a caminhar: se caminhamos verdadeiramente juntos ou vamos pela mesma estrada, mas cada um por sua conta, dando atenção aos seus próprios interesses e deixando que os outros “se arranjem”. E acrescenta: “em pleno percurso sinodal, convido-vos a refletir sobre o facto de podermos aprender, precisamente através da experiência da fragilidade e da doença, a caminhar juntos segundo o estilo de Deus que é proximidade, compaixão e ternura».

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