Parábola do labirinto e da Porta

Padre Doutor Aires Gameiro: 95 anos
Eram multidões por milhares de caminhos.
Dois jovens tiveram visões e encontraram-se.
O primeiro viu centenas de grupos por caminhos cruzados sem conta. Era um imenso labirinto a ocupar campos, cidades, montanhas, vales, rios, penhascos e abismos. Pairava a ameaça de catástrofe.
Os caminhantes perdiam-se aflitos pelas encruzilhadas, em correrias e cansaços. Dúzias de capitães e capatazes, também perdidos e confusos, orientavam os perdidos para falsas saídas de ruas largas e atraentes. Sobreveio a escuridão e aumentaram as aflições.
A cada passo gritava um capataz: por aqui! Mas não era. Alguns tentavam outros caminhos, mas não acertavam com a porta. Vamos por este. Mas não era por ali. E assim, dia após dia, em novas ruas, povoações, veredas, direções e surgiam novos enganados.
Alguns guias escolhiam caminhos ainda mais atraentes, de atrações prazenteiras que davam em precipícios de arrepiar. Nem faltavam feras a rugir, a obrigar a desviar-se e a cair pelas escarpas nos abismos.
Os mais cuidadosos sugeriam veredas estreitas, mas os insensatos não os queriam ouvir. Esgotados de privações e no labirinto, muitos sucumbiam. Os parcos farnéis que alguns guardavam, esgotaram-se. Chefes autoritários tentavam saídas fáceis e diziam saber como sair para evitar o flagelo, mas grande número não confiava neles. Não se calavam as vozes que davam confiança e diziam que a saída era por ruas e veredas mais estreitas e exigentes.
Mas logo a vozearia doutros grupos não os deixava ouvir. Contudo, alguém nas mesmas ruas falava verdade e não se calava. O medo apoderou-se dos aflitos, alguns saltaram sebes e mares à procura de refúgio, muitos pereceram nos perigos perseguidos por salteadores.
Os feridos eram cuidados pelos que caminhavam pelas mesmas ruas com fé e esperança de encontrar a porta de saída. Boatos mais insistentes anunciavam, em vez de saída, tudo iria dar ao “AItocaos” distópico. Era grande a desolação!
Se foi no labirinto ou nas ruas de uma cidade marítima não é claro, os dois jovens da história encontram-se e contam um ao outro as suas experiências dos últimos meses e como tinham conseguido chegar ali. Eram dos escapados do labirinto.
De facto, um deles começou a contar a visão da confusão violenta, dos perdidos e mortos. Quando acabou, o segundo jovem logo se lembrou da sua visão pessoal num planeta dos arredores. E o primeiro implorou que contasse a sua visão. E contou.
Tinha participado numa festa que o impressionou. A multidão era maior que o costume, com grande número de forasteiros doutras terras e doutras festas semelhantes. O comportamento agora pareceu-lhe diferente do de há uns anos. A que te referes perguntou o outro? Não sei se já ouviste falar das festas religiosas?
De festas, sim e de festas religiosas nem me lembro bem. E o que aconteceu nessa da tua visão? Fizeram uma procissão do Santíssimo, depois grande celebração com muitos cânticos, flores, bandeiras, leituras e orações, e uma procissão nas ruas com tapetes de flores cantando e tocando hinos ao Santíssimo levado pelo bispo com muita gente a acompanhar.
Ficaste impressionado, porquê? E agora, mais, ao ouvir a tua visão ou sonho, de não encontrarem saída, nem porta. Penso na tua visão. Eu vi muita gente nas ruas da procissão a ajoelhar e adorar o Santíssimo, muito mais que antes.
Será que há mais gente a encontrar a Saída e a Porta do labirinto da tua visão? Parece que são mais a reencontrar a porta certa, não te parece?
Jesus Cristo disse uma vez de si mesmo: «Eu sou a porta: se alguém entrar através de mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem» (Jo 10,9).
Sempre houve milhões que acreditaram no amor do Sagrado Coração de Jesus como Porta da Salvação, mas agora estarão a aumentar porque muitos que tentam outras saídas, não encontram salvação.
Funchal, Festa do Corpo e Sangue de Cristo, junho de 2026, Aires Gameiro
