Panegírico: A Minha Mãe

Maria de Fátima Laia Cardoso: 3/11/1937 – 23/5/2025
Pensar sobre a minha mãe, suas paixões, sonhos e aspirações é refletir sobre a escola e a política educativa seguida em Portugal no Séc. XX, o que me parece relevante, considerando que tem a 3.ª classe como habilitação.
Falemos primeiro de pessoas que admirou e que contribuíram para a estruturação da sua personalidade:
- O seu pai, José Cardoso (1898-1964), pessoa zelosa e dedicada, com grande sentido do dever nas suas múltiplas dimensões, incansável no apoio e serviço aos outros, incluindo a família, conhecido no seu tempo por discursar de improviso em acontecimentos sociais, por iniciativa própria, de forma criativa, fluente e cativante, tendo esses acontecimentos como tema;
- O seu tio-avô, padre António Ribeiro Delgado (1876-1964), missionário aposentado que na aldeia fazia uma vida descontraída seguindo hábitos ingleses, animava os dias com o seu sentido de humor e total disponibilidade para todos, incluindo a económica, enquanto a sua pensão mensal durasse;
- Os amigos de infância:
- Ribeiro Farinha, que lhe mostrou quanta beleza e arte pode emergir da criatividade de uma criança (Confirmada e reconhecida pela obra de pintura e escultura depois realizada) e de quem ela foi uma das primeiras admiradoras;
- Conceição Farias pela alegria contagiante, pela amizade de infância, de juventude e de sempre.
Tendo nascido em 3/11/1937 não sabia, mas haveria de saber, dramaticamente, que o facto determinante da sua vida já tinha ocorrido sete anos antes, em 28/3/1930: a publicação do Dec. Lei n.º 18140, do Ministério da Instrução Pública que reduziu a escolaridade obrigatória de 4 para 3 anos, (vigorando para as meninas até 1960), passando o 4.º ano a ser só para quem queria prosseguir estudos.
(O DL n.º 13 619 de 17/5/1927 tinha reduzido a escolaridade obrigatória de 5 para 4 anos).
Prosseguir estudos, a sua grande ambição de menina.
Tão grande que se revelou excessiva para as características e condições do meio em que vivia, apesar de o pai ser a pessoa admirável descrita, a mãe possuir hábitos de leitura que promovia através da assinatura de jornais e o irmão que viria a obter o grau de licenciado.
Sentindo a sua grande frustração por não ter estudado, perguntava-lhe por que razão não a tinham deixado continuar:
“Se estudasse abriam-se horizontes que me levariam para fora. Como os meus irmãos já tinham saído ou estavam em vias de sair… os meus pais disseram-me que alguém tinha que ficar.
Depois, como tinha sido publicada uma Lei que dizia que deixava de ser obrigatório fazer a 4.ª classe… foi o que eles quiseram ouvir.
A Lei tinha vindo ao encontro do que queriam, e perante a minha insistência fizeram dela o argumento forte que lhes convinha e venceram-me!…
Tiraram-me da escola para guardar as cabras, eu que tanto gostaria de ter estudado!”
Maria de Fátima Laia Cardoso
Releio Vasco Pulido Valente (VPV), in Público, 25 de julho de 2014:
“Desde quase há dois séculos que vários Governos decretaram a educação gratuita e universal e, às vezes mesmo, também obrigatória.
Este preceito piedoso nunca se chegou a cumprir.
Por uma razão muito simples: saber ler, escrever e contar não ajudava a população rural; e a escola diminuía ou anulava o valor económico dos filhos, que sempre serviam para guardar o gado ou malhar o trigo.”
Guardar o gado, lavrar a terra, malhar o trigo! Dia após dia, Primavera após Primavera, Outono após Outono, ano após ano! A forma de vida que lhe assegurava o pão, mas não lhe garantia a poesia: uma atividade não dependente dos rigores do clima, do esforço físico excessivo, do trabalho de sol a sol, de tudo obtendo resultados e produtos escassos, devido aos poucos e pequenos frutos que a magreza do chão produzia.
Viveu no meio físico e social rústico, mas a rusticidade educativa e o simplismo emocional a ela associado afastou-os, para que a realidade não impedisse a concretização do sonho, permanentemente, sonhado.
Já não podia reverter os efeitos e recuperar para si a escolaridade perdida, mas as conclusões que retirou da sua exclusão escolar, precoce, mas legal, formaram-lhe a convicção sobre o que tinha que fazer para parar a espiral ruralista, redutora e anulante de que falou VPV e procurar para os filhos realizações que transcendessem as origens familiares.
Sendo o meu pai uma pessoa metódica e afável, adquiri o gosto por acompanhá-lo nos trabalhos agrícolas e florestais, para grande inquietação da minha mãe, por recear que embalado na ilusão infantil de ser útil, eu viesse a adotar por vontade própria a forma de vida que ela foi obrigada a suportar por vontade alheia.
Quatro anos à frente seguia a minha irmã, com um percurso escolar muito positivo.
Se por alguma razão, ainda que válida e momentânea, me afastava do trabalho escolar determinava:
“Tens que estudar porque eu não quero que exista entre ti e a tua irmã a diferença de habilitações que existe entre mim e o meu irmão!”
Maria de Fátima Laia Cardoso
ou quando eu argumentava que já tinha estudado e podia ajudar:
“Se não quiseres estudar ficas ao pé dos livros! Não quero que quando perceberes a importância dos estudos, se não os tiveres, venhas dizer-me que não estudaste porque não te dei tempo.”
Maria de Fátima Laia Cardoso
Para que não alimentassem a veleidade de ser, prematuramente, úteis proibiu os filhos de trabalhar no campo, num exercício convicto de desobediência à ruralidade e ao modo de vida dominante.
Assim, quando os rapazes em idade escolar eram mobilizados para as vindimas na Extremadura e as raparigas para a apanha do tomate no Ribatejo, quais personagens temporárias de um Romance Neorealista tardio, os convites para os filhos seguirem o mesmo caminho eram recusados:
“Eles não estão habituados a isso!”
Maria de Fátima Laia Cardoso
Foi pela sua voz que ouvi pela primeira vez o nome dos Ministros da Educação, Veiga Simão e Sottomayor Cardia, pronunciados em razão das alterações que fizeram no Sistema Educativo que, ao contrário do DL de 1930, exigiam aos pais a disponibilidade económica que, por vezes, só obtinham por empréstimo, e requeriam-lhes iniciativa e responsabilidade no acompanhamento educativo dos filhos, as quais sempre teve para dar em adiantamento e como garantia do crédito.
Legalmente deixou de ser possível a exclusão escolar das crianças, mas se a escolaridade obrigatória continuava a não ser universalmente cumprida, as medidas governamentais ficavam aquém das suas expetativas e ambições.
Por isso, umas vezes por intuição, outras por uma confiança absoluta nas virtudes da escola que não teve, a minha mãe assimilou e ampliou para os seus os motivos da política educativa implementada pelos dois e por outros Ministros da Educação, também posteriores a Veiga Simão porque a educação é um esforço interminável de dimensões tanto intelectuais como morais.
No início dos anos 90, Séc. XX, vi no Teatro Nacional D. Maria II aquilo que senti como uma representação da alma insatisfeita da minha mãe: Eunice Muñoz a dizer o poema de Natália Correia “A defesa do Poeta”
“Minha cobardia é esperar-vos/umas estrofes mais além.”
Não sei se as alegrias e as tristezas, as derrotas e as vitórias, o sonho e a realidade e o sentido particular que a minha mãe incutiu à sua existência, mereceriam honras de Teatro Nacional, mas sei que ela poderia, neste momento de despedida como síntese da sua vida na Terra, com total propriedade, proclamar os dois últimos versos do poema
“Ó subalimentados do sonho!/a poesia é para comer.”
*João Laia Nascimento
