Os idosos e o futuro da Europa

 Os idosos e o futuro da Europa

SOLIDARIEDADE E CUIDADO INTERGERACIONAIS EM TEMPOS DE ALTERAÇÕES DEMOGRÁFICAS

A COMECE (Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia) e a FAFCE (Federação das Associações de Famílias Católicas na Europa) publicaram no dia 3 de Dezembro de 2020 em Bruxelas um documento denominado “Os Idosos e o futuro da Europa, solidariedade e cuidado internacionais em tempos de alterações demográficas”.

À medida que a nossa idade média aumenta, o mesmo acontece com o número e a percentagem de pessoas nas faixas etárias mais elevadas. Até 2070, estima-se que 30% das pessoas na Europa tenham 65 anos ou mais, acima dos 20% atuais. De 2019 até 2070, estima-se que a percentagem de pessoas com mais de 80 anos mais do que duplique, para 13%

Relatório da Comissão Europeia sobre o impacto das alterações demográficas, pág.10

“A Europa está diante de uma alteração significativa, sistémica e epocal. Esta alteração tem sido apresentada sobretudo em termos negativos, como se o crescimento da esperança média de vida fosse um problema e não uma oportunidade pela qual há que estar profundamente agradecidos. Esta reflexão gostaria de realçar o papel positivo e crucial que os idosos têm nas nossas comunidades, de modo a contribuir para as discussões em curso a nível da União Europeia sobre os desafios demográficos e o futuro da Europa.

Esta reflexão tem dois lados: começa por assumir que a pessoa humana é relacional por definição. Os idosos não podem ser separados da sociedade e das redes de relações, em particular da família. Eles são parte integrante da família, fonte de apoio e de encorajamento para as gerações mais novas. Em primeiro lugar, vamos olhar para o seu papel essencial e promover as melhores práticas para a sua inclusão total nas nossas comunidades. Depois, vamos considerar a necessidade de coesão social, como requerem os tratados europeus, a respeito das competências da União Europeia. Que políticas podem ajudar a estabelecer o necessário equilíbrio que é preciso para uma verdadeira solidariedade intergeracional?

A pandemia da Covid-19 tem mostrado ao mundo muitas vulnerabilidades escondidas – também no nosso velho continente. Também tem criado uma verdadeira consciência da “riqueza de muitos anos de vida” como um tesouro que deve ser valorizado e protegido. Tem ficado claro que “é tempo de parar a ‘cultura do descarte’ e concentrar-se em mais políticas públicas para apoiar as famílias”. Com efeito, esta crise também tem revelado que a família é a “rocha da vida das pessoas”. Aqueles que mais sofreram foram precisamente aqueles que ou estão longe das suas famílias ou estão isolados. Graças à relação específica entre aqueles que geram e aqueles que são gerados, a família é o primeiro lugar da solidariedade intergeracional. Como tal, não é possível falar de gerações sem fazer referência à cadeia familiar; mais ainda, uma vez que a primeira mediação entre a pessoa e a comunidade pertence à família. Os Bispos europeus sublinharam que este tempo de crise mostrou os grandes limites do individualismo e acentuou o papel central desempenhado pela família enquanto “verdadeira célula de solidariedade e de partilha, mas também como lugar para rezar juntos. Investir na família é o primeiro passo para uma recuperação justa a nível social, económico e eclesial”.

O facto de os Europeus estarem a viver mais é verdadeiramente uma boa notícia, mas concomitantemente a União Europeia tem cada vez menos crianças: “A população em idade ativa (20-64 anos) deverá diminuir. Em 2019, totalizava 59% de toda a população. Até 2070, deverá baixar para 51%. Nessa altura, o número de crianças e jovens (0-19 anos) deverá diminuir de 12,6 milhões”. Há muitos fatores que conduzem à atual situação e não podemos ignorar que ela também é causada por uma profunda perda de esperança e de confiança no futuro. Ao mesmo tempo, vemos demasiados obstáculos culturais e económicos, que também têm efeito no desenvolvimento de verdadeiras redes de solidariedade para comunidades mais prósperas.

Investir na solidariedade intergeracional, na inclusão social, na família e na rede de famílias é efetivamente a chave para enfrentar os atuais desafios. As redes de famílias têm maior possibilidade de garantir solidariedade e subsidiariedade e podem perfeitamente desempenhar o seu papel no encontro de gerações. De facto, os idosos são perfeitamente parte das nossas famílias e não basta apenas cuidar deles. Com efeito, as famílias deveriam gozar de melhores condições para prosperar e para ser centros de coesão social: “Já não se pode falar de desenvolvimento sustentável sem uma solidariedade intergeracional”.”

Introdução de Idosos e o futuro da Europa

O documento desafia a ver a pessoa idosa como um recurso e um dom para as nossas comunidades porque partilham a sua sabedoria, transmitem conhecimento, valores, fé e esperança à geração seguinte;

“missionárias da família”, a sabedoria das pessoas idosas não se limita ao passado. Elas são capazes de ter uma visão mais ampla que as meras preocupações a curto prazo e são uma fonte de esperança no futuro para a geração mais jovem. Os avós podem ajudar as suas famílias a perceber o que realmente interessa à escala de uma vida. As pessoas idosas são uma fonte essencial de orientação para a geração seguinte

as pessoas idosas recebem cuidados e dão testemunho às gerações vindouras;

A vulnerabilidade que vem com a idade faz parte da condição humana, mas muitas vezes está escondida durante a parte mais saudável da vida. Cuidar dos idosos constitui uma boa advertência para um círculo de vida mais amplo e para a dignidade inalienável da vida humana, tanto na saúde como na doença.

as pessoas idosas são cuidadoras e testemunham a solidariedade intergeracional;

Eles foram os primeiros cuidadores dos seus filhos (…) realizam um trabalho de cuidado impagável, quando cuidam dos seus netos. (…) Os idosos são os principais agentes de “generatividade”. Eles são os primeiros a preocupar-se diretamente com o bem-estar da geração seguinte

A Covid-19 colocou a nu algumas das fragilidades da pessoa idosa: a discriminação no acesso aos cuidados de saúde, os maus tratos e o isolamento que traz solidão.

Os idosos nas nossas famílias e comunidades foram colocados no centro da situação de crise. As pessoas mais velhas são mais vulneráveis ao vírus: de acordo com o Eurostat, em outubro de 2020 as pessoas com 70 ou mais anos eram 161.000, ou seja, 96% das mais de 168.000 mortes registadas, quando comparadas com a taxa média de mortalidade registada em igual período entre 2016-2019.

A crise da Covid-19 revelou claramente outra fragilidade: a de uma sociedade em que os idosos estão na periferia da vida quotidiana. A Organização Mundial de Saúde estima que até 50% de todas mortes por Covid-19 durante a primavera de 2020 dizem respeito a residentes em lares de idosos na Europa.

Como proposta para uma solidariedade intergeracional europeia, precisamos de, desde já, reconhecer que temos um desequilíbrio intergeracional; de políticas favoráveis à família intergeracional; de reconhecer o valor do trabalho gratuito a familiares dependentes; de modalidades de trabalho que sejam flexíveis para poder combinar o trabalho e a família e dando a possibilidade para que as famílias possam estar mais tempo juntas; de um investimento em sistemas de saúde que promovam a dignidade da pessoa idosa; de sistemas flexíveis que apoiem as famílias que cuidem de um familiar em casa, de melhorar a rede de cuidados continuados (cuidados de qualidade e a preços comportáveis) e de inclusão social, e que combata a pobreza na velhice melhorando pensões e habitações; procurar um envelhecimento activo que traz benefícios para toda a comunidade.

Por fim, faz algumas recomendações políticas que emanam das directivas europeias: implementar o regulamento jurídico proposto sobre ameaças transfronteiriças graves para a saúde, “assegurar uma abordagem equilibrada entre diferentes modelos de cuidados e refletir as diferentes necessidades das pessoas idosas dependentes” (Princípio 18 do Pilar Europeu dos Direitos Sociais sobre cuidados continuados), promover “o equilíbrio entre o trabalho e a vida”, “monitorizar a mobilidade dos cuidadores na União Europeia”

estabelecer relações laborais legais e condições de trabalho justas com um contrato de trabalho transparente, proteção de seguro correspondente, remuneração justa e horários de trabalho regulamentados, bem como tempo livre

“monitorização e a elaboração de relatórios sobre a adequação e a qualidade dos cuidados”, dar mais atenção à “criação de emprego no setor dos cuidados e melhorar as condições de trabalho”, atribuir os novos fundos europeus “a investimentos em novas estruturas de solidariedade (cuidados informais, voluntariado, urbanismo favorável à família) e em políticas demográficas e familiares”, partilhar as boas práticas de cuidados, e “propor novos instrumentos à luz dos atuais desafios e fragilidades reveladas pela crise da Covid-19”

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