Opinião: Santos com pés de barro (parte II)

Opinião: Santos com pés de barro (parte II)
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João Paulo Marrocano

Recentemente, o nosso parlamento aprovou a atribuição de honras de Panteão Nacional a Aristides Sousa Mendes. Aristides Sousa Mendes inicia a sua carreira diplomática ainda nos finais da monarquia. Homem fiel a três princípios, Deus, Pátria e Família, não aceita de bom grado a implantação da república tendencialmente laica.

Devido às suas convicções monárquicas e antirrepublicanas, o governo decreta, em 1919, a suspensão das suas funções, um despacho ministerial colocava-o no estado de disponibilidade, situação que geralmente significava  inação  ou,  eventualmente,  a atribuição de um serviço irregular que implicava sempre uma perda considerável do vencimento. Em 1921 é colocado a dirigir temporariamente o consulado de São Francisco, nos EUA. Permanece neste consolado durante dois penosos anos, por um lado ainda não tinha recuperado o seu vencimento de diplomata por completo e por outro, o elevado custo de vida praticado naquelas paragens não é compatível com o sustento da sua numerosa família.

Depois de inúmeros pedidos para alterar a sua situação, regressa em 1923 ao Brasil onde já tinha estado colocado.

Durante a sua passagem pelos EUA e posteriormente pelo Brasil, começam a chegar ao governo as queixas contra Aristides. Muitos são os portugueses dessas paragens que acusam o diplomata de corrupção. Os embaraços no ministério dos negócios estrangeiros somam-se e nem a anarquia em que a I república se transformou salva o Diplomata. Nos primeiros dias de 1926, curiosamente os últimos da I república, é novamente forçado a regressar a Lisboa para passar a desempenhar funções desprovidas de qualquer prestígio ou relevo.

O 28 de Maio de 1926 apanha-o já em Lisboa. Apressa-se a apoiar a ditadura militar pois depressa compreende que desse apoio depende o seu futuro. Na verdade, alem de depender da nova ditadura, tem em comum com esta os seus pilares basilares, Deus, Pátria e Família. Salazar, grato pelo apoio que recebeu de Aristides, reabilita-o e atribui-lhe funções de maior responsabilidade. Alem de lhe repor o vencimento, atribui-lhe vários louvores.

Estava colocado no consulado de Bordéus quando a II guerra se inicia. Salazar pretende a todo o custo manter Portugal fora da guerra e obter vantagens dos dois lados, para não irritar Hitler, ordena a todos os consulados que não sejam dados vistos a judeus.

Dizem alguns defensores do diplomata que entre os dias 16 a 23 de Junho de 1940, data em que definitivamente foi afastado de funções, terá assinado cerca de 30 000 vistos.

Todos nós nos habituamos a ver estes números como verídicos e inquestionáveis. Obviamente este número é humanamente impossível de atingir, daria uma média interrupta de mais de dois vistos assinados a cada minuto, sem qualquer paragem que fosse. Carlos Fernandes, outro embaixador conhecedor profundo de Aristides, acabaria por escrever um livro onde afirma que o número de judeus salvos não teriam afinal passado de algumas centenas.

Os números sobre os judeus que passaram por Portugal fugidos dos horrores da guerra são tudo menos consensuais. Ainda assim, o valor estimado de 30 000 almas é o que parece reunir mais consenso.

É, no entanto, sabido que muitos destes refugiados, transitaram rumo ao outro lado do atlântico, com conhecimento e complacência do governo português, que quis, no entanto, que tal trânsito se fizesse no maior dos segredos. Alguns historiadores apontam para que destes 30 000, apenas cerca de 10 000, tenham passado por Portugal com visto assinado pelo consulado de Bordéus.

Uma vez mais, é, no entanto, a esquerda, que eleva bem alto Aristides Sousa Mendes, a mesma esquerda que hoje se coloca em bicos de pés a aplaudir o Hamas sempre que este ataca o estado de Israel.

Infelizmente, a esquerda já nos demonstrou ao longo da nossa história, que as vidas humanas não valem todas por igual, valem em função do proveito momentâneo.

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