Opinião: Santos com pés de barro (parte I)

Opinião: Santos com pés de barro (parte I)
João Paulo Marrocano

Era eu miúdo, quando ouvi a história de um homem que só tinha palha seca para alimentar o seu burro. Para contornar tal pobreza, o homem terá comprado uns óculos verdes para o animal ver a palha em tons de verde e pensar que estava a comer um reluzente feno.

A verdade é que eu nunca mais esqueci esta metáfora e muito contribuiu para que me tivesse habituado a tentar perceber sempre o que está para além dos “óculos” que tanta vez nos querem impingir. Foi assim que nos meus vinte e poucos anos, depois de ler tudo o que consegui sobre Ernesto “Che” Guevara, descobri que que havia um facínora e criminoso da pior espécie atrás do homem romântico que tanta vez nos querem “vender”. Foi assim que em definitivo rasguei a bandeira que me acompanhava no carro com a romântica frase inscrita “No soy un libertador. Los libertadores no existen. Son los pueblos quienes se liberan a si mismos.”

Há duas personalidades da nossa história que foram recentemente resgatadas para discussão publica que me merecem uma visão diferente da “versão oficial”. Humberto Delgado e Aristides Sousa Mendes. O que é que têm em comum? Eram ambos homens de direita e ambos foram “canonizados” pela esquerda.

Foi o governo da “geringonça” que por uma questão ideológica batizou o Aeroporto da Portela em Aeroporto Humberto Delgado. Com este gesto, quis a esquerda mostrar ao país que não estavam esquecidos os seus opositores a Salazar. Na realidade, a escolha do nome até é do meu ponto de vista justo. Humberto Delgado foi o “pai” da aviação em Portugal e do início das carreiras regulares com todos os territórios que Portugal tinha um pouco por todo o mundo. No entanto, e ao contrário do que tanta vez nos querem fazer crer, não era de esquerda.

Com apenas 20 anos, mas já oficial do exército, participa fervorosamente no golpe de estado de 1926. Nos 30 anos seguintes afirma-se como um dos mais fiéis delfins de Salazar. À conta dessa lealdade, e em especial do seu ódio assumido e profundo ao comunismo, sobe rapidamente na hierarquia militar. Também ganha “livre transito” nos corredores do poder. É um dos principais mentores da legião portuguesa, recriação suave da juventude hitleriana. Não se coíbe de elogiar publicamente Salazar e de desacreditar a I república.

Quis o destino, ou Salazar, que no decorrer da II guerra mundial, Humberto Delgado que era simpatizante assumido de Hitler, voasse em sentido contrário. É colocado como oficial de ligação junto dos aliados. Negoceia secretamente e em nome de Portugal, a instalação dos americanos na base das Lages. Representa Portugal ao mais alto nível nos principais organismos internacionais de aviação e também de defesa, especialmente na recém-criada NATO. Em 1953 recebe talvez a última grande recompensa pela sua lealdade ao regime e é promovido a general. Tinha 47 anos de idade e fica para história como o mais jovem general de sempre das nossas forças armadas.

Homem ambicioso, tenta ser o candidato do regime ás presidenciais de 1958 e com isso fazer uma abertura progressiva para a democracia. Tivesse Salazar acedido à sua ambição e talvez o “Obviamente demito-o” fosse substituído por um “Obviamente apoio-o” Afastada essa hipótese, decide enfrentar o regime. O desfecho das eleições é de todos nós conhecido. Acaba exilado.

Sabe que para continuar a lutar contra Salazar tem forçosamente que se entender com o PCP, pois este detém a mais bem organizada oposição ao regime. Em nome da sua ambição, engole o orgulho anticomunista e tenta uma aproximação. Usa o PCP como um meio para atingir um fim. Acaba assassinado pela PIDE aos 58 anos. Os seus amigos mais próximos passam muito tempo convencidos que os assassinos são os comunistas. O PCP não perde tempo, usa a morte do “general sem medo” a seu favor e faz disso uma campanha. Campanha que ainda agora perdura.

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1 Comentário

  • Sobre Hitler, escreveu Humberto Delgado.
    “O ex-cabo, ex-pintor, o Homem que não nasceu em leito de renda amolecedor, passará à História como uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a viralidade numa palavra.”
    Revista AR, número 44. Junho de 1941.

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