Opinião: de vento em proa

J. B. Teixeira – Jornalista
Cumpri uma agenda cansativa em São Paulo, arejada pelo encontro com as filhas mais velhas e o neto e um pulo no centro para garimpar livros em sebos.
Aproveitei para rever um livreiro heterodoxo e muito competente que não via há anos. Num meio dominado por comerciantes com pouca cultura, Pedro sobressai por sua espontaneidade, irreverência, senso crítico e indiferença quanto a padrões convencionais.
Me disse que fechara uma de suas duas lojas quando percebeu o provável resultado da eleição presidencial que se avizinhava.
Livros? Está pulando fora. Num país que pouco lê, acredita que cumpriu seu papel e migrou para a venda de discos em vinil. Lastimei, como fazemos quando algo de valor morre. Muitos livros de nossa biblioteca um dia dormiram nas suas prateleiras.
O centro? Segundo ele, decaiu. Multiplicaram-se os moradores de rua, jogados pelas calçadas, muitos dos quais beneficiários de recursos sociais do governo federal.
Que não os tiram das ruas, apenas os mantêm nelas, aliviados pelas drogas e pela cachaça, sem forças para mudar seu destino, testemunhando nosso naufrágio em águas turvas.
Como o vôo que me levará de volta aos pagos partirá no meio da manhã, decidi passar a madrugada no aeroporto, numa destas salas conhecidas como lounge.
Dormiria três a quatro horas, suficientes para encarar o sábado. Dormiria, não fosse a chegada de um casal com dois filhos pequenos.
O menor, com pouco mais de um ano, não conseguiu conciliar o sono e torturou cada um dos presentes com gritos, guinchos e choro até as cinco da manhã.
Sem demonstrarem constrangimento, os pais se revezaram em demonstrações apalermadas. A mãe abriu mão da tentativa de adormecer o menino e o pai, um mangolão sem voz de comando, limitou-se a ameaçar o filho: vou te beliscar! Beliscões? Surreal.
É temerário emitir um diagnóstico com tão curta observação mas, sem compromisso com avaliações comportamentais relevantes, arriscaria dizer que tais figurantes fazem parte de uma pedagogia com muita conversa fiada e pouca disciplina. Qual será o resultado de tudo isto? Receio que ficará distante do razoável. Um exército de ensimesmados sem disciplina não nos levará a lugar algum.
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Os crucifixos foram banidos das repartições públicas, mas também escasseiam nas residências. Trata-se de uma trágica apostasia, como um erro do tipo iceberg, cuja parte visível é a destruição dos lares, a violência e a criminalidade.
Durante a semana tomei ônibus, metrô e trem inúmeras vezes. Além da economia, é um meio rápido de percepção da realidade. Nas horas de pico as estações ficam sobrecarregadas e nos perguntamos aonde vai tanta gente? A mobilidade nas cidades superpopulosas é um desafio de monta. O governador de São Paulo, em entrevista, informou que um quilômetro de metrô custa em torno de trezentos mil dólares e o plano é ampliar a rede em cinquenta quilômetros.
Nos vagões de trem e metrô escuta-se anúncios relativos às estações e advertências quanto aos crimes de assédio sexual e maus tratos a animais.
Num dos finais de tarde, voltando depois de um dia puxado, cruzei por um destes “trabalhos” que antigamente mereciam a denominação de macumba. Não domino o tema e nem sei se o termo está correto.
Numa vasilha, a cabeça de um cabrito, no centro, e as patas – emergindo de um conteúdo indefinido,- repousando na borda. Isto não ultrapassa o razoável no sincretismo?
Como acreditar que tais coisas possam prejudicar alguém além dos passantes, devido ao cheiro pútrido?
Esta é uma cumbuca na qual os gestores públicos não querem por a mão, mas é sua obrigação. Animais mortos em rituais e abandonados nas vias públicas não configura crime?
