O MEU APLAUSO AOS SENHORES AUTARCAS

O MEU APLAUSO AOS SENHORES AUTARCAS
Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

Decorrem os dias de instalação dos órgãos autárquicos. Uns saem, outros entram. Aos que saem, manifestamos a nossa gratidão pelo seu empenho ao serviço do bem comum e pela sua colaboração, sempre leal e atenciosa. Aos que entram, formulamos votos de muitas felicidades, disponibilizando-nos a caminhar juntos no respeito pelas instituições que representamos e suas diferentes esferas de competência. A tarefa não está fácil. Não só o nosso, mas todo o interior do país continua muito combalido. Apesar de tudo, vai reiterando o seu otimismo no futuro, graças aos autarcas e à sua dedicação ao bem comum. Há sempre a esperança de que melhores dias virão. É certo que se ouvem alguns oráculos de cassandra, não sei se por maledicência se por convicção, a dizer que jamais o interior se irá safar, que não há mezinha que o reanime, acupuntura que o faça pular ou medicinas alternativas que o fortaleçam. Ao sabor de tal conversa, quando o grupo engrossa, deitam-se mais achas para o lumaréu, bichanando que as corujas já sobrevoam a anunciar a desgraça e que, em certas zonas, até já se pressente os sinos a dobrar a finados, com a tristeza enrugada de uns, as lágrimas de crocodilo de outros e o pranto das carpideiras de ofício!…

Ninguém ignora que os Senhores e Senhoras autarcas, por mais que se esmerem e esfolem, só têm instrumentos de ação para lhe prestar os serviços de primeiros e indispensáveis socorros à sua sobrevivência. Para animar e fortalecer a esperança e o brio dos cidadãos, tantas vezes empolgam o amor pátrio e local, não sei até se a fazer ultrapassar o razoável, não por mal, mas pode ser mau. É que o povo até pode acreditar que é verdade, que somos o que não somos, ou temos o que não temos! Somos o que somos e as nossas circunstâncias, faz-se o que se pode com o que temos, na esperança de que o Estado não negue, não regateie ou desvie aquilo a que se tem direito.

Sabemos que não é fácil governar. Até nos admiramos como é que tanta gente se atropela na fila e diz o que diz na conquista destes lugares numa casa onde não há pão e todos ralham sem razão! Alguém tem de ser, é verdade. No assumir do encargo, seja quem for, há festa e muitas palmas como sinal de esperança. À saída, mesmo que se tenha gastado na dedicação e no muito que levou a cabo pelo bem comum, é quase sempre tido como um inútil que nada fez! O povo tem memória curta e a democracia também tem as suas ironias. Seja como for, os cuidadores nacionais, sempre gente muito especializada e sabida, mesmo que não seja verdade, dão a impressão que agem como pessoas indiferentes à situação e à sorte deste pobre esquecido que é o interior, não por palavras que, graças a eles, são muitíssimo abundantes, mas pela míngua de ações. De quando em vez, lá lhe fazem uma visitinha ao domicílio, para que lhe sirva de conforto e deixe de gritar, que faça o favor de se calar. Sem quererem dar a impressão que desistiram dele, cá vão aparecendo aos soluços, a manifestar atenção promissora e a fazer crer que lhe merece os maiores cuidados. Com os atentos diagnósticos na gaveta, não raro puxam por outros de ocasião, “à la carte”, para, com desconhecimento das suas verdadeiras maleitas, fazerem discursos heroicos e prometedores, pois agora é que vai ser um sem número de melhorias. E lá lhe vão receitando uns fármacos demagógicos dos laboratórios da capital, de embalagem cativante, sim, mas amargos e sempre difíceis de engolir. Ou umas mezinhas para que, com tão generosas receitas, faça o favor de entrar na barca de Caronte e de abalar quanto antes lá para as bandas do sheol!

E há coisas que intrigam. Gente importantemente responsável, dá uma no cravo e outra na ferradura. Pelo menos parece, e sempre se ouviu dizer que, em política, o que parece, é! E fazem-no à vez!… Ora dizem que sim, que o doente se vai restabelecer, ora dão a entender que não, que não há hipótese de cura. Ora dizem que querem o discurso da verdade, sem demagogias, ora vibram com demagogias e sem verdade. Ora falam de “gerir o declínio”, com “apoios seletivos”, com os tais cuidados paliativos, ora dizem que “é no interior que temos que fazer o maior esforço de infraestruturas, para ser um território ainda mais atrativo para a fixação das populações”. Ora dizem que é preciso “assumir que há partes do nosso território onde não vai ser possível recuperar população e atividade económica”, ora dizem que isto “não significa o abandono destes territórios, nem deixar de garantir às populações o acesso aos bens e serviços nas mesmas condições da população dos territórios mais desenvolvidos”. Ora usam, de forma entusiasmada, o tema da coesão territorial e do desenvolvimento regional para o qual Portugal recebeu milhões e milhões de euros em fundos comunitários, ora dizem o que lhes lembra de forma não menos empolgante e aquecida. Ora dizem que é preciso atender às especificidades do território e valorizar a sua atratividade e recursos endógenos, ora fogem com o rabo à xeringa, burocratizando e tornando infernal o acesso às linhas de financiamento pelos possíveis agentes locais ou outros interessados em investir. Ora dizem que vão construir, alargar ou requalificar isto ou aquilo, ora dizem, por exemplo, “que em vez de a pessoa ir ao centro de saúde, à loja do cidadão, ao mercado, são os prestadores destes serviços que vão a casa das pessoas”, pois, com as tecnologias de que dispomos, “é seguramente possível fazer melhor e com menos recursos, tendo as pessoas no centro das políticas e das decisões”.

Não seria bom que se sentassem, falassem, ouvissem os responsáveis e as instituições locais de conhecimento, intervalassem para beberem uma taça de Alvarinho de Monção, e decidissem sair a curar, sem ser preciso alguém entrar lá, na reunião, de pau na mão como aconteceu na mui nobre e florida cidade de Abrantes? Não seria melhor que, sem exceção, congregassem sinergias para um plano de sobrevivência do interior e, depois, falassem todos a uma só voz para dar solução a estes desequilíbrios territoriais e ansiedade do povo?

Sei que os representantes destes burgos, a nível nacional e local, conhecendo a realidade e as necessidades no terreno, veem a sua missão muito difícil e delicada. Sabem com que linhas se cosem. Dizem e defendem o que entendem dizer em benefício do povo e do bem comum, mas percebe-se que, muitas vezes, não acreditam muito na concretização do que estão a dizer e a prometer. É evidente que ninguém quer fazer figura de sendeiro ou de parvo. Passar por mentiroso ou enganador do povo, quando se está bem intencionado e se luta pelo bem comum, não é ofício que se pretenda para gente séria e ciente de que a política é uma arte nobre a exercer com coerência e verdade. Sem querer generalizar ou apontar o dedo a quem quer que seja, os métodos e alguns comportamentos políticos têm desacreditado a política, o que é pena. E porque ninguém quer passar por trapaceiro, continua a pensar-se pequenino, promete-se e concretiza-se o pequenino, sem incomodar o poder mais alto e gerando simpatia entre o povo, cumprindo o que apenas se promete! No entanto, se assim for, nem uns pequenos estilhaços duma qualquer ‘bazuca’ cá chegarão, embora se mantenha a esperança de que hão de surgir e gotejar numa qualquer manhã de nevoeiro… Por isso, quão salutar será que todas as forças políticas locais, se deem as mãos por aquilo que é estruturante e deve ser defendido por todos. Por todos, embora cada um, depois, se distinga pelo modo de fazer o que prometeu, pois também será muito importante para a qualidade de vida local.

Não se pode esquecer que, mesmo que por estes lados haja políticos competentes, ágeis e dedicados, falta peso político, falta força reivindicativa, os votos do interior pouco ou nada pesam na balança eleitoral. Pior será se falta a união naquilo que é estruturante, se cada um esgravatar por si e para seu lado, dispersando, dividindo, não sabendo o que se quer como região, como território mais alargado, mas cujo processo de desenvolvimento, se acontecer, beneficiará a todos. Torcemos, pois, para que haja acordo no essencial, no estruturante, e todos gritem e batam o pé. Como já dizia noutro escrito, se houver projetos refletidos e ambiciosos, defendidos por todas as forças políticas locais, mesmo que fiquem na gaveta do esquecimento alfacinha, a história se encarregará de contar aos vindouros que os seus antepassados sabiam bem, e a tempo, quais eram as terapias a aplicar, embora nunca satisfeitas.

Reitero aos vinte e dois Presidentes das Câmaras Municipais e a todos os Presidentes de Junta de Freguesia e de União de Freguesias do território desta Diocese os votos dos maiores êxitos, desejando-lhes também que a cruz lhes seja leve.

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