O Calvário Húngaro

O Calvário Húngaro

Nos últimos dias, todos os católicos estiveram especialmente unidos ao Papa Francisco e à mártir nação húngara que, depois de mais de quatro décadas de dominação soviética, sofre agora as investidas do lobby LGBT.

O primeiro-ministro dos Países Baixos chegou a sugerir que, por causa da lei húngara que proíbe a pedofilia e a propaganda LGBT a menores, a Hungria saia da União Europeia. O chefe do governo do Luxemburgo, ao mesmo tempo que afirmava que “na nossa União não há lugar para o ódio, nem para a intolerância ou a discriminação”, afirmava o seu ódio anti-húngaro, bem como a sua intolerância e discriminação em relação aos princípios da moral cristã. A Hungria conta, porém, com o apoio da Polónia, um país cristão que igualmente sofreu o domínio soviético, de que, no fim do século passado, se libertou, graças à acção heroica de, entre outros, o Cardeal Stefan Wyszýnski, Primaz da Polónia, que o Papa Francisco beatificará.

Santo Estevão foi o primeiro Rei da Hungria e, segundo uma piedosa lenda, recebeu do Papa Silvestre II uma coroa real, que tem a particularidade de ter, no seu topo, um crucifixo que ficou, por um fortuito acidente, inclinado. A coroação com essa insígnia real não era meramente simbólica: só depois de imposta a santa coroa é que o pretendente ao trono se tornava, juridicamente, rei. Logo que cessou a dominação soviética e a nação magiar recuperou a independência e liberdade, retomou este símbolo nacional, não obstante a Hungria ser uma república.

Em Fátima, Portugal, a Via Sacra termina, precisamente, na Capela de Santo Estêvão, mais conhecida por Calvário Húngaro. As 15 estações e a capela foram oferecidas pelos católicos húngaros refugiados no Ocidente. Por ocasião do cinquentenário do Calvário Húngaro, o Primaz da Hungria, Cardeal Péter Erdö, disse:

“Fátima é de facto um santuário importantíssimo para a nação húngara, símbolo da divina providência e da intercessão de Nossa Senhora também pelo nosso povo. Esta devoção manifestou-se através da construção do Calvário Húngaro, com a bela capela muito querida ao coração dos húngaros que vivem na Hungria, ou em qualquer outra parte do mundo”.

A história da Hungria foi, de facto, um autêntico calvário. De 1541 a 1699, sofreu o domínio otomano. Em 1920, em virtude do Tratado de Trianon, perdeu 71% do seu território e 58% da sua população. A sua adesão ao Eixo, durante a segunda Guerra Mundial, teve consequências dramáticas: ficou integrada na zona soviética, de que se libertou em 1989. Só então recuperou a sua independência política e liberdade religiosa.

Em 1956, a Hungria foi protagonista de uma frustrada tentativa de libertação. Com efeito, os sectores mais democráticos da sociedade magiar promoveram uma insurreição nacional, na tentativa de se libertarem do jugo comunista, sob a tutela moral do Cardeal József Mindszenty, cujo nome foi dado ao Calvário Húngaro, em Fátima. A intervenção do Primaz da Hungria nesse movimento político explica-se pelo facto de, segundo as tradições magiares, na ausência do legítimo monarca, caber a regência do reino à mais alta dignidade eclesiástica nacional. Devido à invasão da Hungria pelo exército soviético e à passividade da comunidade internacional, frustrou-se esta tentativa de restauração da independência e da liberdade húngaras.

O Cardeal József Mindszenty, cujo processo de canonização está em curso, é, para além de um grande confessor da fé, um exemplo de heroica resistência à tirania. Como jovem sacerdote, tinha feito uma opção pastoral pelos mais pobres, nomeadamente a comunidade cigana. Ainda antes de ser nomeado bispo, foi preso pelo regime comunista de Bela Kun, em 1919. Depois de ter ajudado inúmeros judeus a fugir dos nazis, voltou a ser detido em 1944 e 45, pelo governo nacional-socialista.

A 2 de Janeiro de 1949, Mindszenty foi de novo encarcerado, desta feita pelo regime comunista húngaro, sendo libertado em 1956, durante a insurreição popular. Dado o fracasso desta revolta, viu-se obrigado a refugiar-se na Embaixada dos Estados Unidos da América em Budapeste, onde permaneceu até 1971, data em que foi autorizado a exilar-se em Roma, na condição de renunciar à sua sede arquiepiscopal, a que acedeu. Nessa ocasião, disse:

“A pretensão de construir um mundo sem Deus será sempre ilusória; e isso levará somente ao reforço e união da Igreja com o povo e com todos os que sofrem. Só os que têm medo da verdade temem a Cristo”. Foi impedido, pelo regime comunista do seu país, de participar nos conclaves que elegeram os Papas São João XXIII e São Paulo VI. Viria a falecer em Viena, a 6 de Maio de 1975.

São João Paulo II, outro grande herói da resistência contra os totalitarismos nazi e comunista, disse, a 24 de Outubro de 2002, que o Cardeal József Mindszenty, de “venerada memória”, é um modelo a ser seguido pelos católicos húngaros, por ter sido uma “verdadeira testemunha da fé durante a perseguição do regime comunista”.

Da mesma forma como a Hungria logrou ultrapassar cento e cinquenta anos de dominação otomana e quase meio século de ditadura comunista, é de crer que também conseguirá resistir aos ataques dos lobbys que, na Europa comunitária, querem impor a agenda LGBT, que contradiz a sua tradição cultural e religiosa e a sua identidade nacional.

Portugal tem uma remota relação com a Hungria, por via da Rainha Santa Isabel, cuja avó paterna era filha do Rei André II da Hungria e irmã de Santa Isabel da Hungria, a quem também se atribui o milagre das rosas. É digna de nota a presença, no nosso país, de húngaros que aqui se exilaram e distinguiram pela sua virtude e saber, como o Padre Luís Kondor, devotíssimo de Nossa Senhora de Fátima, promotor da construção do Calvário Húngaro e principal impulsionador da canonização dos pastorinhos.

Que Nossa Senhora, Rainha e Padroeira de Portugal, que também o é da Hungria, proteja este país, agora abençoado com a visita do Papa Francisco, para que seja, nesta descristianizada Europa, o que foi a católica Polónia para os países da cortina de ferro: o motor de ignição de uma nova cruzada pela verdadeira liberdade, porque “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).

*Feliciano do Rosário

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