Novos desenvolvimentos do estudo da saliva

Novos desenvolvimentos do estudo da saliva

“selecionar o tratamento mais adequado a usar, consoante o tipo de molécula salivar que pretendermos analisar em cada estudo”

Investigadores da Universidade de Évora (UÉ) e da Universidade de Múrcia, Espanha, acabam de publicar um estudo sobre o efeito dos tratamentos térmicos e químicos utilizados na inativação SARS-COV-2 na medição de diferentes moléculas na saliva. Os resultados deste estudo publicado na revista Scientific Reports mostram que os diferentes tratamentos para inativação do vírus, vão influenciar os resultados, consoante o tipo de molécula salivar que se esteja a considerar.

No estudo agora publicado, os cientistas portugueses e espanhóis recorreram a técnicas de quantificação proteica e de eletroforese, para separação de proteínas, “no sentido de avaliar quais os protocolos que provocam maiores alterações no perfil proteico (e quais as proteínas mais afetadas por cada tratamento), técnicas de avaliação de atividade enzimática, de imunoquímica e de avaliação de atividade antioxidante” explica Elsa Lamy, investigadora no Instituto Mediterrâneo para Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento (MED), da Universidade de Évora, e primeira autora do estudo.

Os resultados obtidos foram bastante animadores “conseguimos observar que os diferentes tratamentos, para inativação do vírus, vão ter efeito diferente nos resultados, consoante o tipo de molécula salivar que estejamos a considerar”, ou seja, explica a investigadora que, “enquanto que os métodos térmicos têm maior efeito no perfil proteico salivar e, nalguns casos, na atividade de algumas enzimas, têm menor efeito noutros tipos de moléculas; já alguns dos tratamentos químicos afetam os resultados para quantificação de moléculas como o cortisol, a qual é muito pesquisada na saliva, como medida de stress”.

Em suma, os resultados obtidos mostram que, “se quisermos trabalhar com saliva tratada, devemos selecionar o tipo de tratamento em função do objetivo do nosso estudo” esclarece Elsa Lamy que contou com a colaboração de Laura Carreira e Fernando Capela e Silva, por parte da equipa da UÉ, e de Camila Rubio, Silvia Martinez-Subiela; Fernando Tecles; Pia Lopez-Jornet; Jose Ceron e de Asta Tvarijonaviciute, da congénere espanhola.

A investigadora da academia eborense realça que o estudo, “ainda que seja considerado simples, permite dar informação aos diferentes investigadores e profissionais que trabalham com saliva (e que cada vez são mais) acerca dos melhores protocolos a escolher” até porque, como realça, “muitas vezes, quando queremos iniciar um trabalho, perdemos tempo e amostras a verificar e otimizar as condições de teste”.

Estes resultados permitem ainda “poupar algum desse tempo, e recursos, o que me parece ser a grande mais valia de trabalhos desta natureza” frisa a investigadora cujos resultados servem para o SARS-CoV-2, mas podem servir também para outras situações em que possa ser necessário tratar as amostras de saliva desta forma.

Elsa Lamy, com estudos de relevo publicados sobre o estudo da saliva sob diferentes perspetivas e abordagens, referiu que a ideia do estudo agora publicado, surgiu no início da pandemia, “pela necessidade que nessa altura sentimos de ter ferramentas que nos permitisse continuar a realizar trabalhos com saliva humana, mas de forma segura”.

A investigadora recorda que logo no início de 2020, a saliva foi apontada como um meio de possível transmissão do vírus. “Nós, no Laboratório de Fisiologia Animal Aplicada, do MED, temos diversos estudos a decorrer em que as análises são feitas à saliva humana. Na altura da pandemia sentimos dificuldade em continuar, mas ao mesmo tempo necessidade de o fazer, até porque no âmbito do projeto ARCO, uma das tarefas implicava a recolha de saliva a pessoas com COVID-19, com o risco da recolha numa fase em que a contaminação por saliva era previsível”.

Para dar maior ênfase à investigação desta natureza, as Universidades de Évora e de Múrcia “com quem já colaboramos há vários anos” recorda a investigadora, reforçaram a parceria porque sentiram as mesmas dificuldades, “até porque na altura começaram a surgir publicações científicas a mostrar protocolos eficazes para a inativação do vírus e pensámos que a forma de poder voltar a recolher e analisar saliva em segurança seria aplicando essas técnicas”.

Ainda assim, como recorda Elsa Lamy, “não se sabia a que nível essas técnicas de inativação poderiam afetar o resultado final. Ou seja, para as metodologias que ambos laboratórios usam, qual seria o efeito do tratamento da amostra no resultado final? Será que aplicar tratamentos térmicos ou químicos, para inativar o vírus, afeta os resultados? E se sim, a nível de que parâmetros salivares?”.

Estas foram questões que levaram os investigadores a reforçar esta colaboração e, em conjunto, poder avaliar de que forma cada um dos tipos de tratamentos para inativação do vírus poderia afetar os resultados, “de modo a selecionar o tratamento mais adequado a usar, consoante o tipo de molécula salivar que pretendermos analisar em cada estudo” salienta a investigadora de Évora.

*Universidade de Évora

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