No princípio do fim da URSS…

No princípio do fim da URSS…
António Manuel Silva

Hoje, todos estão certos do papel determinante que GORBACHOV desempenhou na História Universal do século XX embora nem todos o avaliem com a mesma bondade. Em 1987 já se tinha iniciado o processo de reestruturação e abertura/transparência por ele desenhado perante o choque com o desastre do socialismo real mas ninguém sabia como iria prosseguir nem que resultados seriam alcançados. As incertezas eram muitas e o desconhecimento do que se passava na URSS era enorme.

Curioso, decidi inscrever-me num grupo e deslocar-me à URSS para verificar, ao vivo e a cores, o que se passava no país dos sovietes. Foi em Agosto de 1987. Embarcámos em Lisboa num avião da Aeroflot e depois de uma escala em Praga (Checoslováquia) aterrámos em Moscovo. Durante 10 dias, visitámos três grandes cidades (Moscovo, Leninegrado/Sampetersburgo e Kiev) viajando entre elas de avião e de comboio. Nas cidades tínhamos liberdade de deslocação, as fotos eram condicionadas e os documentos pessoais ficavam retidos em troca de um cartão com o nome do hotel e o nosso em cirílico para ser presente às autoridades em caso de problemas. Escrevi um diário que procurei agora sem êxito. Deve estar refugiado, aguardando resgate, no interior de um dos muitos caixotes de livros que aguardam destino mais condigno. Assim como algumas dezenas de fotos e slides da viagem.

Nas páginas do dito caderno, comprado na URSS e fazendo de diário, estão muitas memórias, impressões e comentários de índole diversa sobre o que fui vendo, ouvindo, fotografando e deduzindo começando pela viagem no interior do avião da Aeroflot e continuando com encontros extraordinários no aeroporto de Praga, a chegada a Moscovo, o controlo no aeroporto, a instalação no hotel, as refeições, as viagens no metropolitano moscovita cujas estações são também museus e abrigos, a ida ao futebol assistir a um Lokomotiv Moscow- Shakhtar Donetsk, a visita ao Hermitage em Leninegrado, um surreal voo interno, os passeios nas avenidas da capital do comunismo e o encontro inesperado na rua com altas individualidades do regime, a visita à Ópera de Moscovo, a viagem para Kiev em comboio nocturno, as surpresas na chegada à estação ferroviária, a merenda no estádio do Dínamo de Kiev (que o Porto tenha vencido nas meias finais antes de ganhar a final ao Bayern), a observação das lojas do povo vazias de produtos e os lugares de venda ambulante nas ruas cheios de mercadoria logo vendida, a beleza das mulheres russas, a antipatia dos moscovitas, a grandiosidade e frieza do Kremlin, a beleza e harmonia da Praça Vermelha, a lei seca que proibia o consumo de bebidas alcoólicas até às 13h e tanto mais que estou a deixar para trás… Tantos episódios! Tantos registos interessantes gravados naquele caderno a resgatar!

Por agora, partilho este. Na deslocação à Praça Vermelha estava incluída uma entrada no Mausoléu de Lenine e uma visita à múmia do “Pai da Pátria” soviética. Como não podia deixar de ser.

Apesar de estarmos na URSS e o calor não ser comparável ao que sentimos por cá, a verdade é que Agosto é sempre mês de temperaturas elevadas à hora do “meio-dia” período que nos calhou para aguardarmos na fila, à torreia do sol, a entrada no edifício.

Em plena Praça Vermelha estavam centenas de pessoas em fila indiana em movimento contínuo para que não ocorressem demoras embaraçosas. No interior do Mausoléu, por razões óbvias, a segurança era apertada e à retaguarda dos visitantes que iam passando em frente da múmia de Lenine permanecia uma fila de militares impávidos, hirtos e de feições impenetráveis.

Eis se não quando, acontece o imprevisto! Depois de ter estado ao sol e entrado para um espaço mais fresco, com ar condicionado, e certamente possuído pela emoção de estar “frente a frente” com o ”Pai da Pátria”, o visitante à minha frente começou a titubear e a desfalecer. Logo dois soldados deram um passo em frente, encostaram-se a ele e, sem grandes gestos, apoiaram-no na marcha até à saída do edifício.

A situação foi de tal modo discreta que, por estar imediatamente atrás, fui dos poucos visitantes que dela me apercebi nos seus pormenores. Talvez mesmo o único. Cá fora, os militares, impávidos, hirtos e impenetráveis, olharam-me e regressaram aos seus postos como se nada tivesse ocorrido.

(As fotos partilhadas foram retiradas de páginas diversas editadas na WEB)

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