Não percebo! Li, reli e juro que não percebo


É com uma funda turbação, inquietação e perplexidade que escrevo estas linhas na sequência da leitura duma notícia, a qual passo a transcrever, para que o leitor possa avaliar, compreender ou tentar perceber, o que, eventualmente, poderá estar subjacente a tais episódios…
«PÓVOA DE LANHOSO
Professor primário condenado a 17 anos por abusar de 10 alunas
Crime
O Tribunal de Guimarães condenou ontem a 17 anos de prisão o professor primário da Póvoa de Lanhoso acusado de 3.734 crimes de abuso sexual de crianças cometidos na sala de aulas sobre 11 alunas.
Na leitura do acórdão, a juíza presidente disse que «não resultou provado» que o arguido cometeu os crimes sobre uma das vítimas, nem «o abuso sexual com regularidade diária» praticado contra as restantes 10 alunas, como apontava a acusação do Ministério Público.
O tribunal considerou que os testemunhos das vítimas foram «credíveis e consistentes», assumindo que a maior dificuldade em julgamento foi conseguir apurar o «número de vezes» em que as alunas foram abusadas pelo arguido, «que pediu desculpa às vítimas e assumiu os crimes mais graves» (in: Diário do Minho, quarta-feira, dia 23 de julho, de 2025, última página)»
Em causa não coloco a notícia, nem a sentença nem todos os meandros que propiciaram tal crime. Mas o que me deixa muito perplexa é este crime acontecer, ir acontecendo sem que algo fosse notado, alguma suspeita fosse levantada, alguma atitude menos própria fosse denotada…
Adultos em proximidade, professores, funcionários da escola, pais, familiares próximos, encarregados de educação ou as próprias crianças não acusaram de imediato alguma alteração, alguma reacção, é assim tão superficial que uma criança ser abusada por um docente?
Não percebo o que se passa na nossa sociedade, todos somos cidadãos, temos o direito e o dever de zelar pela nossa sociedade, defender a nossa democracia, e, sobretudo, estar muito atentos a qualquer acto que nos possa parecer menos normal, que possa colocar em causa a tranquilidade, a paz, a dignidade de todos os seres humanos, nomeadamente, os jovens, que pela sua fragilidade e imaturidade são sempre mais vulneráveis.
Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar…
Mas recorro a um poema de Augusto Gil, para afagar esta minha tumultuosa indignação, face a tantas apatias que vamos vendo pulular por aí e deixar que o mal aconteça…
“Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!... E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa…
*Maria Susana Mexia
