‘Jesus es vuestro hijo´!

‘Jesus es vuestro hijo´!

Grandparents with grandson writing Santa letter in their living room decorated for Christmas

Fátima Fonseca, Professora

Paquita e Óscar tinham – se conhecido numa festa de Natal, em Lisboa, na Universidade Católica, durante o Erasmus. No final daquele ano, ela, luso -espanhola, regressara a Madrid para acabar os estudos de Economia, e ele, angolano, tivera de interromper a Faculdade, para começar a trabalhar em Angola e ajudar os pais, já idosos, e os seus irmãos mais novos…
Voltaram a encontrar- se em Lisboa, uns dois anos mais tarde. A empatia e cumplicidade nascidas nos bancos da Faculdade e no coro da Paróquia que ambos frequentavam, e os contactos mantidos por zoom, deram lugar a um namoro radioso apesar das separações frequentes, que um ano depois, dava lugar a um feliz casamento. Apesar das distâncias geográficas e diferenças culturais foi possível celebrar o casamento, em vésperas de Natal, com a presença de vários familiares e amigos.

Fixaram morada nos arredores de Lisboa, ambos trabalhavam em empresas multinacionais, viajavam bastante e prosperavam, mas ainda lhes faltava o que mais desejavam desde o seu casamento, cinco anos atrás: um bebé que, sem razão conhecida, tanto se fazia esperar…
Entretanto, Óscar deslocava -se a Angola com frequência e estava agora para chegar após uma ausência de quase dois meses…

Porém, desta vez, Paquita tinha um maravilhoso segredo a comunicar, estava felicíssima! Tinha estado no médico e queria dizer ao Óscar, no dia seguinte, logo que ele chegasse, que graças a Deus, finalmente, vinha a caminho o tão desejado bebé… seria, como tinham planeado, um ‘Jesus’ ( como o pai dela, espanhol) ou uma ‘Maria’( como a mãe dele, angolana)!

Naquele fim de tarde, de princípios de Março, chovia copiosamente e exceptuando as janelas iluminadas, as ruas estavam escuras e sem movimento…Paquita acabara de arrumar o carro e entrava em casa cheia de embrulhos, para acabar os preparativos, ansiosa pela chegada de Óscar, na manhã seguinte…quando abriu os olhos, Paquita não sabia onde estava. A seu lado, de mão dada com ela, fazendo -lhe festas e beijando -a, viu o rosto ansioso de Óscar.


Paquita quis saber onde estava. Não se lembrava de nada…só se lembrava de querer muito revelar -lhe um segredo… esperava enfim, o tão desejado bebé…
Então, de lágrimas nos olhos, e voz embargada, Óscar começou a explicar -lhe que estava no hospital. Agora já estava tudo bem… e em breve, voltaria para casa… Contou-lhe que tinha sido assaltada por desconhecidos à porta de casa e uns vizinhos tinham – na encontrado inconsciente, numa poça de sangue, e de imediato, tinham chamado uma ambulância e avisado um familiar. Este, por seu turno telefonara- lhe, quando Óscar estava já no aeroporto, pronto a embarcar para Lisboa. Ao chegar ao hospital, Paquita tinha sido operada, de urgência, devido à pancada que dera ao cair no empedrado da rua…

‘E o nosso bebé, Óscar? Já sabes que vamos ser pais? Está tudo bem com o bebé?’ – perguntou – lhe, de repente, Paquita. Mas Óscar não respondeu, nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira vez em que Paquita insistiu em perguntar…

Oscar, muito comovido, beijando – lhe as mãos, carinhosamente, recomendava – lhe apenas que dormisse e descansasse, que não se preocupasse…
Então Paquita, de repente, compreendeu tudo, tapou a cara com as mãos e começou a chorar longa e aflitivamente… e só conseguia, a custo ,articular : ‘ Oscar, não acredito, tu não me digas que perdemos o nosso filho…’ e foram as suas últimas palavras.
Quando no dia seguinte voltou a acordar, Paquita perdera a fala… percebia tudo, mas não falava…

E foram meses assim. Recuperara fisicamente, mas o choque emocional roubara – lhe a fala. Paquita queria vencer a tristeza e a depressão, mas não conseguia. Óscar tudo fazia para a distrair, consolar, alegrar. Viajaram, peregrinaram, fizeram férias em locais distantes e desconhecidos, consultaram diferentes médicos, pediram conselho… família e amigos queriam ajudar, mas a situação não se modificara …

Entretanto, Oscar não queria que Paquita ficasse só e através de grupos da Paróquia tinha arranjado para ajudar em casa, uma jovem ucraniana, recém chegada e fugida da guerra, com um filho de cinco anos e no início de uma nova gravidez. Paquita gostou dela de imediato! A Oksana, assim se chamava, falava um pouco de espanhol, pois tinha trabalhado alguns anos em casa de diplomatas espanhóis. Contou -lhes que o marido ficara na guerra e ela só tinha saído por causa do filho de cinco anos e do bebé que iria chegar lá para o Natal… mas queria muito voltar…logo que possível! O seu lugar era junto do marido…

Ao fim de algum tempo, o pequenito de cinco anos estava feliz, e Oksana trabalhava com empenho. Estava bem, mas ansiosa por reencontrar seu marido. Já tinha convidado Paquita para madrinha do bebé que ia nascer, e agora sabia que seria mais um rapazinho e até lhe dissera que lhe daria o nome de ‘Jesus’ … Mas em meados de Outubro, de repente, Oksana deixou de aparecer. E deixou de atender telefonemas. Tinha o telemóvel desligado. Paquita e Óscar estavam muito preocupados, tentaram encontrá – la através da Paróquia, do contacto de outros ucranianos, mas ninguém sabia de nada.

Então, dois meses depois, na noite de Natal, quando Paquita e Óscar saíam da Missa do Galo, receberam um telefonema de um número desconhecido. Do outro lado, ouviu -se a voz de Oksana muito sumida: ‘He dejado la llave y Jesús en vuestra casa. Perdón! Muchas gracias. Me marcho con mi hijo mayor… no me busquen. Perdón!’

Paquita e Oscar correram para casa! Lá dentro, embrulhado numa mantinha que Paquita tricotara de propósito, deitado na alcofinha que Paquita lhe oferecera e que anos antes comprara para o seu próprio filho, estava um lindo bebé, adormecido, junto à mesa do presépio da casa…
Paquita, emocionada, pegou no pequenino, abraçou- o e olhando para o marido, leu em voz alta, um bilhetinho que acompanhava o bebé, onde estava escrito: ‘Jesus es vuestro hijo´!


Paquita, tu já voltaste a falar!’ exclamou Óscar, em lágrimas, abraçando a mulher e o bebé nos seus braços…

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