James Bond nasceu em Portugal

 James Bond nasceu em Portugal

Paulo Freitas do Amaral, professor de história

Nos bastidores da Segunda Guerra Mundial, Lisboa era uma cidade neutra, mas não inocente.

Entre refugiados, contrabandistas, diplomatas e espiões, circulavam homens que não pertenciam a lado nenhum, movendo-se como peças ambíguas num tabuleiro de alianças incertas.

Um deles, o mais fascinante de todos, chamava-se Dusko Popov — aristocrata sérvio, agente duplo britânico, e o homem que, segundo o próprio Ian Fleming, inspiraria a personagem de James Bond.

A história de Popov em Portugal não é apenas uma curiosidade de espionagem.

É o espelho de um tempo em que o nosso país, sob a neutralidade vigilante de Salazar, servia de ponte entre o mundo em guerra e o mundo em decadência.

A Lisboa de 1940 não era apenas um porto de saída para quem fugia da Europa ocupada.

Era também uma zona de contacto entre impérios, ideologias e interesses.

Popov chegou a Lisboa com uma missão: enganar os alemães e protegê-los dos seus próprios aliados.

Entrava e saía do Hotel Palácio do Estoril, jogava roleta com agentes do Abwehr, frequentava os corredores do Hotel Aviz e mantinha reuniões discretas no Grémio Literário.

Fingia estar ao serviço do Eixo, mas transmitia informações críticas para Londres — muitas delas enviadas directamente a um jovem oficial britânico de nome Ian Fleming, destacado para o Naval Intelligence Division e profundamente atento às personalidades que orbitavam entre o luxo e o abismo.

Foi em Lisboa que Fleming teve o primeiro vislumbre do espião como personagem de ficção.

A imagem de Popov, sentado à mesa do Casino Estoril, enfrentando um alemão com dezenas de milhares de dólares apostados, sob olhar gélido e cigarro aceso, marcou-o profundamente.

Foi esta cena — não inventada, mas vivida — que daria origem à abertura de Casino Royale, o primeiro romance da saga Bond. Mas Popov era mais do que um jogador refinado.

Era um homem que arriscava a vida ao manter a confiança do Abwehr enquanto informava o MI5 e o MI6. Um agente duplo real, de carne, osso e contradição.

Em Portugal, o teatro da guerra era feito de silêncios. As conversas nos cafés eram vigiadas, os navios estavam sob escuta, os telefones interceptados.

E no entanto, era aqui, neste ambiente rarefeito, que se decidiam movimentos de tropas, avanços diplomáticos e campanhas de propaganda.

Popov compreendeu o papel estratégico de Portugal: um país que, não sendo protagonista, tornava-se palco de protagonistas.

E foi esse palco que deu vida ao maior mito literário da espionagem moderna.

Bond, na pena de Fleming, não é um super-homem. É um homem perigoso, marcado pela violência, pela solidão, pela sedução e pela morte.

Tem muito de britânico, mas nasceu de uma observação feita em Lisboa. Numa neutralidade que permitia todos os jogos, mesmo os mais sujos.

A nossa historiografia, tantas vezes virada para dentro e para os seus próprios fantasmas, esquece com frequência que Portugal foi, nos anos 40, uma encruzilhada global.

A história de Popov obriga-nos a olhar para esse passado com menos provincianismo.

A perceber que, mesmo sem tanques nas ruas ou bombardeios nos céus, fomos actores de uma guerra de sombras. E que dessas sombras nasceu uma lenda.

Não é por acaso que Casino Royale começa com um jogo no casino. Nem é coincidência que o espião mais célebre da cultura ocidental tenha o rosto — ou pelo menos o reflexo — de alguém que jogava em Estoril e jantava em Lisboa.

Bond pode ter sido um agente britânico. Mas o seu baptismo literário foi português.

*Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

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