Iluminando Vidas na Era Digital

 Iluminando Vidas na Era Digital

Padre Luís Manuel Bairrada

Hoje, estamos a deixar o porto seguro para nos aventurarmos no oceano onde pertencemos.

Porque uma coisa é compreender, como cristãos, a nossa missão na quietude da oração e outra bem diferente é levá-la a cabo dia após dia, no meio das correntes culturais, das tempestades relacionais e do nevoeiro ideológico que definem o nosso tempo.

A questão que se nos coloca hoje é direta e desafiante: o que acontece quando o nosso pequeno e frágil espelho tenta refletir a luz num mundo que, muitas vezes, parece preferir o brilho de um ecrã?

A história está repleta de pessoas que questionaram as grandes certezas sobre as quais a cultura ocidental foi fundada, argumentando que não existem verdades absolutas e que conceitos como verdadeiro e falso, bom e mau, são relativos a um determinado ponto de vista e contexto. Foi assim que surgiu o relativismo

A sua origem é antiga – já no século V a.C., o filósofo Protágoras afirmava que «o homem é a medida de todas as coisas».

Na essência, o relativismo é a ideia de que a verdade e a moralidade não são absolutas e universais, mas dependem da perspetiva de cada pessoa, cultura ou momento histórico.

Para o relativismo, a verdade não é fixa e estática, mas dinâmica; não existe uma única verdade, mas muitas.

E sejamos claros: esse impulso humano de questionar não é inimigo. Na verdade, muitas vezes é o motor do progresso e o guardião da liberdade. Quando olhamos para a história, é fácil perceber por que esse impulso era tão necessário.

Durante séculos, injustiças terríveis foram cometidas em nome de «verdades absolutas». As guerras religiosas, a escravatura e a opressão colonial foram todas justificadas pela ideia de que um grupo possuía a verdade e tinha o direito de a impor.

Ousar questionar essas chamadas «verdades» foi uma reação corajosa e necessária que abriu um caminho diferente, com uma promessa muito atraente:

  • Um escudo contra o fanatismo: convidar ao diálogo em vez de impor.
  • Uma alavanca para a justiça social: quando vozes se levantaram dizendo que «a escravatura não é uma ordem natural» ou que «a discriminação é errada», foi possível avançar em matéria de direitos humanos.
  • Uma janela para a tolerância: abrir os nossos olhos para o valor de outras culturas e o respeito pela diversidade humana.
  • A porta para a liberdade pessoal: ao questionar modelos sociais rígidos, criou espaço para a autonomia e a autenticidade.

Então, onde está o problema? O problema é que essa valiosa ferramenta de crítica gradualmente se transformou em uma nova certeza absoluta: a certeza de que não há certezas. Essa ideia encontrou o ecossistema perfeito para florescer no que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “sociedade líquida”.

A imagem é poderosa: as grandes estruturas que antes nos davam estabilidade e um sentido de direção — família, instituições, comunidade — «liquefizeram-se», tornando-se fluidas, instáveis e temporárias.

No mundo «sólido» do passado, normalmente recebia-se um «kit pronto a montar» ao nascer, com instruções claras: um código moral (isto é bom, isto é mau), uma identidade social (o seu papel na família) e um conjunto de práticas religiosas.

Cada pessoa podia gostar ou não das peças, mas tinha um plano para construir. Numa sociedade líquida, no entanto, é como se nos tivessem entregue uma caixa de peças soltas sem manual e dissessem: «Construa algo que faça sentido para si.

E seja rápido, porque amanhã as peças podem mudar».

Diante dessa tarefa, o «eu» torna-se o único ponto de referência e, para muitas pessoas, «a minha verdade» deixa de ser uma simples opinião e torna-se uma necessidade para a sobrevivência.

Assim, o relativismo saudável de «a minha verdade não é a única verdade» transforma-se num relativismo radical de «só a minha verdade importa».

É como navegar com uma pequena tocha pessoal em vez de um sol que brilha para todos.

Quando as pessoas navegam pela sua própria lanterna, não conseguem ver muito longe e só podem interpretar as formas que vêem.

O valor das coisas torna-se uma «avaliação» pessoal, muitas vezes baseada no facto de ser útil para mim ou de eu gostar dela.

Como consequência direta, a bússola moral fica desmagnetizada. A questão passa de «o que é certo?» para «o que me parece certo?».

E sem pontos de referência externos, a identidade de cada um torna-se frágil, dependente da validação dos outros.

Viver assim é exaustivo. A necessidade constante de nos reinventarmos é uma fonte de ansiedade. Uma armadilha comum é a mentalidade de que «vale tudo».

Ouvimos pais bem-intencionados dizerem: «vale tudo, desde que o meu filho seja feliz» ou, em nome da liberdade, evitam transmitir uma fé, argumentando que «é melhor que eles decidam quando crescerem».

Essa postura bem-intencionada muitas vezes deixa a próxima geração à deriva, sem um mapa para começar a sua jornada.

*P. Luís Manuel Bairrada

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