Gestão do orçamento pessoal e familiar (cont.)

 Gestão do orçamento pessoal e familiar (cont.)

Conceitos a conhecer e princípios a seguir para ter tranquilidade e uma boa saúde financeira

<span class="info-article">Artigo de autoria</span><br/>Paulo Ferreira

Artigo de autoria
Paulo Ferreira

Licenciado em Matemática Aplicada e com pós-graduação em Atuariado e Gestão de Riscos Financeiros. Vem falar-nos sobre Literacia Financeira, numa parceira estabelecida com o Jornal de Proença.

Estimado Leitor,

No último artigo sobre Literacia Financeira iniciámos a abordagem ao tema da gestão do orçamento pessoal e familiar. Apresentámos alguns princípios básicos e demos também resposta a algumas questões importantes sobre conceitos e modo de funcionamento aplicáveis no âmbito de um orçamento.

Agora, nesta publicação vamos dar resposta às restantes questões aí colocadas:

Que tipos de orçamentos podemos utilizar?

– Medidas corretivas a tomar em relação a Receitas Correntes e Despesas Correntes?

– Ações a evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)?   

– Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias?   

– Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental?

E dessa forma pretendemos concluir o “puzzle”, onde constam conceitos, recomendações e atitudes positivas que podem orientar a nossa vida financeira diária num sentido mais positivo e confortável.

Legenda: Exemplo (draft) de possível orçamento

1. Que tipos de orçamento podemos utilizar?

As “ferramentas” utilizadas para gerir um orçamento podem ser variadas, designadamente, Aplicação – App (mais sofisticada e automatizada), Folha de cálculo Excell (mais prática e mais utilizada) ou Registo manual (mais artesanal, trabalhoso e difícil de manejar e gerir).

Fundamental é a existência de um instrumento, mais ou menos sofisticado, já que o orçamento corresponde naturalmente a um processo evolutivo, quer na forma (ferramenta utilizada) quer no conteúdo (rúbricas contempladas). Depois, é igualmente relevante o nível de informação que nos permita controlar a situação, avaliar o curso das nossas finanças e que medidas devemos aplicar em circunstâncias menos adequadas.

2. Que tipo de medidas corretivas podemos tomar em relação a Receitas e Despesas Correntes?

Quando temos um desequilíbrio nas nossas finanças correntes (resultado negativo), devemos atuar ao nível das Receitas Correntes e Despesas Correntes, com possíveis medidas corretivas.

Aumento Receitas (RC):   

–   Passam essencialmente pelo aumento do rendimento (lutar por salário melhor, mudar de emprego, efetuar horas extraordinárias, aumento rendas, obter mais rendimento nas aplicações financeiras, … ).

Redução Despesas (DC):

DCF:    É mais difícil atuar a este nível, a margem de manobra é inferior, porque estas despesas existem mensalmente e os valores não são muito variáveis. Mas é sempre possível renegociar / alterar contratos de crédito com Bancos bem como contratos com outro tipo de prestadores (Água, Eletricidade, Comunicações, …).

DCV:     Nesta área as oscilações dependem mais da nossa atitude e dos nossos hábitos de consumo, que podemos tentar moderar, pelo que a margem de atuação é superior.  A seguir apresentamos alguns simples exemplos de possível redução de custos:

–    Alimentação (jantar fora semanal pode passar a quinzenal).

–    Vestuário / calçado (compra de ténis mensal deve passar a trimestral).

O recurso ao crédito para equilibrar finanças correntes deve ser evitado ao máximo (apenas em circunstâncias muito pontuais), já que aumenta o valor das mensalidades (despesas correntes) e pode tornar a gestão orçamental mais crítica e insustentável.

3. Que ações devemos evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)?

Nesta área das Despesas Correntes, devemos ter como princípio básico o seguinte:

    “ Despesas Correntes devem ser suportadas por Receitas Correntes “

Dentro desse espírito e princípio, devemos evitar:

–     Empréstimos para consumo (apenas em casos muito pontuais, e em última instância, nunca como regra);

–     Utilização de cartão de crédito (gera maus hábitos, dependência indesejável e instabilidade financeira e psicológica frequente);

–     Delapidação de poupanças (devem estar reservadas para Reforma, Projetos de Médio/Longo Prazo, ou seja, para “preparação do futuro”, …, e não para consumo ou financiamento de despesas correntes);

–     Utilização do Fundo de Emergência (deve estar constituído como reserva para despesas inesperadas como saúde, acidente, obras, cirurgia, …, e não para consumo ou financiamento de despesas correntes).

4. Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias?

Vamos agora abordar algumas recomendações a seguir em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias.

Receitas Extraordinárias:    Nem sempre existem (ou podem mesmo não existir). Quando existem:

–     podem permitir aquele “pequeno luxo”, que se tem adiado, mas sem exageros e dentro de certos limites. Isto porque também se deve desfrutar da vida.

                                                        mas essencialmente

–    devem reforçar poupanças (“pensar no futuro“) ou constituir / reforçar Fundo de Emergência (“reserva para despesas inesperadas“, como, doença, acidente, obras, cirurgia,…). Obter “paz e tranquilidade“, evitando recurso desnecessário ao crédito, em condições pouco convenientes.

Despesas Extraordinárias:

–      Evitar ao máximo recurso ao crédito (aumenta despesas correntes e dificuldades orçamentais).

–     Aceitáveis, se suportadas, por receitas extraordinárias (“pequeno luxo”, férias, …).

–     Recurso estratégico ao crédito aceitável (situações pontuais que se possam traduzir numa mais-valia futura, tais como, formação, pequeno negócio, … ), mas apenas se for sustentável em termos orçamentais e, preferencialmente, com análise viabilidade prévia.

–     Em certas situações inesperadas (doença, acidente, obras, …), deve utilizar-se o Fundo de Emergência (caso tenha sido constituído em dimensão suficiente), utilizando no limite o crédito, se insuficiente, mas sustentável em termos orçamentais.

5. Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental? 

Para terminar gostaríamos de apresentar três sugestões finais relacionadas com a constituição do Fundo de Emergência, financiamento de férias futuras e gestão global do rendimento mensal auferido.

Fundo de Emergência:     Aplicar uma % do salário mensal (5% – 10%) destinada a este nobre fim, ou seja, à constituição de uma reserva para despesas inesperadas. Podemos considerar uma despesa “positiva” para proteção e estabilidade familiar.

Férias:   Reservar também uma % do salário mensal (5%-10%) para este fim, se sustentável, sem desequilibrar o orçamento mensal. E em alternativa, ou complemento, destinar subsídio de férias (receita extraordinária) para este fim. Nunca se deve solicitar créditos para esta situação.

Gestão do rendimento mensal:   Um bom princípio poderá ser a aplicar a seguinte regra:

Despesas essenciais:  X% / Despesas não essenciais (lazer, …):   Y% /  Poupanças:   Z%X, Y e Z poderão ser diferentes em função das necessidades e contexto de cada família. Porque não começar com 70%, 20% e 10% e depois ir ajustando regularmente em função da experiência que se vai adquirindo? O importante é existir algum controlo, equilíbrio e racionalidade, sem deixar de desfrutar da vida, mas tendo consciência de que poupar é fundamental para preparar o futuro.


Estas eram as “dicas” ou recomendações que pretendíamos transmitir aos nossos estimados Leitores sobre esta temática. É fundamental ter um orçamento e mantê-lo atualizado. Não possuir um orçamento, ou viver com ele permanentemente desequilibrado, é viver num turbilhão permanente a nível financeiro e emocional, com todo o impacto negativo que isto terá na nossa saúde financeira e saúde em geral.

Este artigo já vai extenso e hoje ficaremos por aqui. Na próxima publicação iniciaremos a abordagem aos créditos bancários, com destaque para o Crédito à Habitação, mas também outros, já que o modo de funcionamento e conceitos aplicáveis são, em grande parte, transversais aos vários tipos de crédito.

Boa análise e até breve…

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