Gestão do orçamento pessoal e familiar (cont.)

Conceitos a conhecer e princípios a seguir para ter tranquilidade e uma boa saúde financeira
Estimado Leitor,
No último artigo sobre Literacia Financeira iniciámos a abordagem ao tema da gestão do orçamento pessoal e familiar. Apresentámos alguns princípios básicos e demos também resposta a algumas questões importantes sobre conceitos e modo de funcionamento aplicáveis no âmbito de um orçamento.
Agora, nesta publicação vamos dar resposta às restantes questões aí colocadas:
Que tipos de orçamentos podemos utilizar?
– Medidas corretivas a tomar em relação a Receitas Correntes e Despesas Correntes?
– Ações a evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)?
– Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias?
– Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental?
E dessa forma pretendemos concluir o “puzzle”, onde constam conceitos, recomendações e atitudes positivas que podem orientar a nossa vida financeira diária num sentido mais positivo e confortável.


1. Que tipos de orçamento podemos utilizar?
As “ferramentas” utilizadas para gerir um orçamento podem ser variadas, designadamente, Aplicação – App (mais sofisticada e automatizada), Folha de cálculo Excell (mais prática e mais utilizada) ou Registo manual (mais artesanal, trabalhoso e difícil de manejar e gerir).
Fundamental é a existência de um instrumento, mais ou menos sofisticado, já que o orçamento corresponde naturalmente a um processo evolutivo, quer na forma (ferramenta utilizada) quer no conteúdo (rúbricas contempladas). Depois, é igualmente relevante o nível de informação que nos permita controlar a situação, avaliar o curso das nossas finanças e que medidas devemos aplicar em circunstâncias menos adequadas.
2. Que tipo de medidas corretivas podemos tomar em relação a Receitas e Despesas Correntes?
Quando temos um desequilíbrio nas nossas finanças correntes (resultado negativo), devemos atuar ao nível das Receitas Correntes e Despesas Correntes, com possíveis medidas corretivas.
Aumento Receitas (RC):
– Passam essencialmente pelo aumento do rendimento (lutar por salário melhor, mudar de emprego, efetuar horas extraordinárias, aumento rendas, obter mais rendimento nas aplicações financeiras, … ).
Redução Despesas (DC):
DCF: É mais difícil atuar a este nível, a margem de manobra é inferior, porque estas despesas existem mensalmente e os valores não são muito variáveis. Mas é sempre possível renegociar / alterar contratos de crédito com Bancos bem como contratos com outro tipo de prestadores (Água, Eletricidade, Comunicações, …).
DCV: Nesta área as oscilações dependem mais da nossa atitude e dos nossos hábitos de consumo, que podemos tentar moderar, pelo que a margem de atuação é superior. A seguir apresentamos alguns simples exemplos de possível redução de custos:
– Alimentação (jantar fora semanal pode passar a quinzenal).
– Vestuário / calçado (compra de ténis mensal deve passar a trimestral).
O recurso ao crédito para equilibrar finanças correntes deve ser evitado ao máximo (apenas em circunstâncias muito pontuais), já que aumenta o valor das mensalidades (despesas correntes) e pode tornar a gestão orçamental mais crítica e insustentável.
3. Que ações devemos evitar no âmbito da gestão orçamental (para suportar Despesas Correntes)?
Nesta área das Despesas Correntes, devemos ter como princípio básico o seguinte:
“ Despesas Correntes devem ser suportadas por Receitas Correntes “
Dentro desse espírito e princípio, devemos evitar:
– Empréstimos para consumo (apenas em casos muito pontuais, e em última instância, nunca como regra);
– Utilização de cartão de crédito (gera maus hábitos, dependência indesejável e instabilidade financeira e psicológica frequente);
– Delapidação de poupanças (devem estar reservadas para Reforma, Projetos de Médio/Longo Prazo, ou seja, para “preparação do futuro”, …, e não para consumo ou financiamento de despesas correntes);
– Utilização do Fundo de Emergência (deve estar constituído como reserva para despesas inesperadas como saúde, acidente, obras, cirurgia, …, e não para consumo ou financiamento de despesas correntes).
4. Qual a abordagem adequada em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias?
Vamos agora abordar algumas recomendações a seguir em relação a Receitas Extraordinárias e Despesas Extraordinárias.
Receitas Extraordinárias: Nem sempre existem (ou podem mesmo não existir). Quando existem:
– podem permitir aquele “pequeno luxo”, que se tem adiado, mas sem exageros e dentro de certos limites. Isto porque também se deve desfrutar da vida.
mas essencialmente
– devem reforçar poupanças (“pensar no futuro“) ou constituir / reforçar Fundo de Emergência (“reserva para despesas inesperadas“, como, doença, acidente, obras, cirurgia,…). Obter “paz e tranquilidade“, evitando recurso desnecessário ao crédito, em condições pouco convenientes.
Despesas Extraordinárias:
– Evitar ao máximo recurso ao crédito (aumenta despesas correntes e dificuldades orçamentais).
– Aceitáveis, se suportadas, por receitas extraordinárias (“pequeno luxo”, férias, …).
– Recurso estratégico ao crédito aceitável (situações pontuais que se possam traduzir numa mais-valia futura, tais como, formação, pequeno negócio, … ), mas apenas se for sustentável em termos orçamentais e, preferencialmente, com análise viabilidade prévia.
– Em certas situações inesperadas (doença, acidente, obras, …), deve utilizar-se o Fundo de Emergência (caso tenha sido constituído em dimensão suficiente), utilizando no limite o crédito, se insuficiente, mas sustentável em termos orçamentais.
5. Que sugestões podemos apresentar no âmbito da gestão orçamental?
Para terminar gostaríamos de apresentar três sugestões finais relacionadas com a constituição do Fundo de Emergência, financiamento de férias futuras e gestão global do rendimento mensal auferido.
Fundo de Emergência: Aplicar uma % do salário mensal (5% – 10%) destinada a este nobre fim, ou seja, à constituição de uma reserva para despesas inesperadas. Podemos considerar uma despesa “positiva” para proteção e estabilidade familiar.
Férias: Reservar também uma % do salário mensal (5%-10%) para este fim, se sustentável, sem desequilibrar o orçamento mensal. E em alternativa, ou complemento, destinar subsídio de férias (receita extraordinária) para este fim. Nunca se deve solicitar créditos para esta situação.
Gestão do rendimento mensal: Um bom princípio poderá ser a aplicar a seguinte regra:
Despesas essenciais: X% / Despesas não essenciais (lazer, …): Y% / Poupanças: Z%X, Y e Z poderão ser diferentes em função das necessidades e contexto de cada família. Porque não começar com 70%, 20% e 10% e depois ir ajustando regularmente em função da experiência que se vai adquirindo? O importante é existir algum controlo, equilíbrio e racionalidade, sem deixar de desfrutar da vida, mas tendo consciência de que poupar é fundamental para preparar o futuro.
Estas eram as “dicas” ou recomendações que pretendíamos transmitir aos nossos estimados Leitores sobre esta temática. É fundamental ter um orçamento e mantê-lo atualizado. Não possuir um orçamento, ou viver com ele permanentemente desequilibrado, é viver num turbilhão permanente a nível financeiro e emocional, com todo o impacto negativo que isto terá na nossa saúde financeira e saúde em geral.
Este artigo já vai extenso e hoje ficaremos por aqui. Na próxima publicação iniciaremos a abordagem aos créditos bancários, com destaque para o Crédito à Habitação, mas também outros, já que o modo de funcionamento e conceitos aplicáveis são, em grande parte, transversais aos vários tipos de crédito.
Boa análise e até breve…

