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Gestão de investimentos

Diversificar a carteira de investimentos
“Não colocar os ovos todos no mesmo cesto”
Após um ligeiro interregno estamos de volta com mais um artigo da nossa série sobre Literacia Financeira.
Como certamente se recorda, nas últimas publicações abordámos diversos produtos financeiros disponíveis no mercado financeiro.
Iniciámos com os Depósitos Bancários e Certificados de Aforro, soluções mais tradicionais e seguras, embora com expetativa de rentabilidade algo limitada.
Depois seguimos com Ações, Obrigações e ETFs, alternativas mais arriscadas, mas que nos permitem diversificar o nosso património financeiro, tendo sempre em consideração o nosso perfil de investidor, os riscos que estamos dispostos a assumir, a volatilidade com que conseguimos “conviver” e a liquidez de que prevemos necessitar, numa ótica de curto, médio e longo prazo.
Existem naturalmente outros “instrumentos” financeiros mais complexos e sofisticados (Derivados, Criptomoedas, PPR, …), que não abordaremos nesta fase, ficarão para momento mais oportuno neste “caminho” que continuaremos a percorrer.
Nesse sentido, e para completar ou encerrar este capítulo inicial, relativo às várias soluções de investimento, vamos agora debruçar-nos, com algum detalhe, sobre um tema já aflorado em artigos anteriores:
. Formas de diversificar a nossa carteira de investimentos, ou de uma forma mais simples e popular, “como repartir os ovos por vários cestos“.
Iniciaremos esta temática com um enquadramento prévio, onde entendemos importante realçar três dimensões ou perspetivas a considerar no âmbito desta diversificação.
- Tipos de ativos a subscrever, setores de atividade a contemplar, geografias das entidades que suportam os títulos e moedas inerentes aos títulos subscritos;
- Nível de risco que estamos dispostos a assumir, volatilidade da carteira de ativos, liquidez que pretendemos e ótica temporal dos investimentos;
- Perfil dos investidores, o que tem naturalmente uma influência decisiva nas decisões a tomar.
Sobre o 1º tópico, ponto por ponto, destacamos o seguinte:
– Tipos de ativos: Estamos a falar, entre outros, de Depósitos Bancários, Certificados de Aforro, Ações, Obrigações, ETFs, Commodities, … Cada classe de ativos reage de forma diferenciada aos diversos ciclos económicos.
– Setores de atividade: Relativamente às atividades inerentes às entidades que sustentam os títulos, podemos apontar áreas relacionadas com energia, tecnologia, saúde, serviços financeiros, … Apesar de vivermos na era da globalização, uma crise num setor pode não afetar da mesma maneira outro setor.
– Geografia: Existem vários blocos geográficos em que podemos apostar, onde destacamos EUA, Europa, mercados emergentes (India, China, outros países asiáticos, …). Apesar das frequentes interações entre estas regiões, diversificar os investimentos por região reduz, de alguma forma, a exposição ao risco político e económico.
– Moeda (Euro, Dólar, …): Investimentos diversificados acabam por funcionar como forma de proteção de possível desvalorização de moedas.
Relativamente ao 2º ponto, consideramos importante realçar os seguintes tópicos:
– Nível de risco financeiro: Podemos optar por soluções com risco financeiro Baixo – Médio -Alto. Claro que a subscrição, em maior ou menor proporção, de produtos com significativo risco financeiro, influencia a expetativa de rentabilidade a médio / longo prazo da nossa carteira de investimentos, e deve estar relacionado com o nosso perfil de investidor, para que nos sintamos confortáveis com essas decisões.
– Volatilidade: Está relacionado com as variações ou oscilações que o nosso património financeiro vai sofrendo ao longo do tempo. Conseguir lidar com oscilações significativas depende do nosso perfil de investidor e mental, devendo as mesmas ser entendidas como naturais, numa ótica de médio / longo prazo, caso optemos por produtos com risco financeiro mais elevado.
– Liquidez: Para além do nosso perfil de investidor, devemos também subscrever produtos que se adequem, em termos de liquidez, às nossas necessidades de curto, médio e longo prazo. Se tivermos, por exemplo, apostado em produtos com algum risco financeiro e com boa expetativa de rentabilidade a médio / longo prazo, devemos ter consciência que a liquidez a curto prazo pode ser limitada. Se prevemos necessidades de liquidez a curto prazo, podemos ter de colocar parte das aplicações em produtos mais seguros, e com essa disponibilidade, embora saibamos que a rentabilidade poderá sair algo prejudicada. É tudo um “jogo de equilíbrios e necessidades”.
– Ótica temporal: Já abordado em tópicos anteriores, os investimentos realizados deverão ter sempre um horizonte claro (curto / médio / longo prazo) e os vários aspetos (rentabilidade, liquidez, …) acabam também por ser influenciados por esse posicionamento.
Terminando com o 3º aspeto, relembramos que, ao nível dos perfis de investidor, poderemos ter perfil conservador, moderado ou agressivo.
Devemos ter plena consciência do nosso perfil de investidor, já que o mesmo influencia as várias decisões, relacionadas com os parâmetros anteriormente apresentados, com as quais nos devemos sentir confortáveis. Isto até por tratarmos geralmente de verbas significativas (ganhas ao longo de uma vida) e aplicadas / investidas com impactos que se podem prolongar por várias décadas.
Todos os tópicos referidos são dinâmicos e devem ser monitorizados ao longo do tempo. Convém ir ajustando esses parâmetros regularmente, tendo em conta o nosso perfil de investidor, a fase do ciclo de vida em que nos encontramos, a dimensão do nosso património financeiro, a nossa expetativa de rentabilidade e a as necessidades de liquidez, numa ótica de curto, médio e longo prazo.
Já estamos em fase adiantada desta publicação e somente para concretizar um pouco melhor esta temática, apenas alguns exemplos simples e práticos sobre possíveis formas de diversificação.
Exemplo 1 (Investir apenas num ETF – VWCE):
Com um simples ETF podemos investir em alguns milhares de empresas de variadas regiões geográficas a nível mundial (Europa, EUA, países emergentes doutros continentes, …) e diversos setores de atividade (energia, tecnologia, saúde, financeira, …).
Exemplo 2 (Investir em 2 ETFs – S&P 500 e iShares MSCI India UCITS Acc):
Com dois ETFs estaremos a investir em centenas de empresas de várias regiões (preferencialmente EUA e países emergentes) e diversos setores de atividade (com algum destaque para o setor tecnológico). Embora tenhamos muita diversificação, como no 1º exemplo, existe uma aposta mais direcionada para certas geografias e para o setor tecnológico. Em ambos os exemplos estamos a falar de um nível Médio nos parâmetros de risco financeiro, volatilidade e liquidez.
Exemplo 3 (Investir nos 2 ETFs anteriores + Certificados de Aforro):
Desta forma estaríamos a alargar a carteira de investimentos à região de Portugal, ao setor de dívida pública, …, e a ativos com menor risco financeiro, menor volatilidade e maior liquidez, reduzindo provavelmente a expetativa de rentabilidade da carteira global a médio prazo. O peso de cada componente no total do património influenciará, num ou outro sentido, o comportamento médio dessas variáveis.
Exemplo 4 (conjugado com o Perfil do Investidor):
Salário mensal líquido do investidor: 1.650€
Património financeiro: Cerca de 20.000 € (atualmente aplicado em Depósitos à Ordem com taxa de juro insignificante, a rondar 0%)
Fundo de emergência:
– 3 meses de salário (significaria cerca de 5.000€)
– 6 meses de salário (significaria cerca de 10.000€)
– 12 meses de salário (significaria cerca de 20.000€)
4.1. Perfil Conservador:
Pelo cariz de prudência e segurança que este perfil confere, provavelmente o investidor colocaria os 20.000 € (cerca de 12 meses de salário) num Fundo de Emergência composto por títulos mais seguros, com maior liquidez, embora com menor expetativa de rentabilidade (Depósitos a Prazo, ou preferencialmente, Certificados de Aforro).
4.2. Perfil Moderado:
Em princípio este investidor já repartiria de forma diferente o seu património. Uma possibilidade credível poderia passar por:
50% (10.000€) num Fundo de Emergência (correspondente a 6 meses de salário) com ativos similares aos referidos no caso do perfil conservador;
25% (5.000€) num ETF, por exemplo VWCE pela sua abrangência global, nível de risco e ótica de médio / longo prazo;
25% (5.000€) num PPR nível risco médio 4 (numa escala de 1 a 7), pensando também no futuro mais a longo prazo.
4.3. Perfil Agressivo:
Este investidor mais arrojado teria ainda uma visão diferente da situação e, por isso, uma postura mais “atrevida”. Um exemplo possível poderia ser:
25% (5.000€) num Fundo de Emergência mais restrito (correspondente a 3 meses de salário) com ativos similares aos referidos no caso do perfil conservador;
50% (10.000€) em 2 ETFs, por exemplo, S&P 500 e outro de países emergentes, pela sua abrangência a nível de geografias e atividades, nível de risco e ótica de médio / longo prazo;
25% (5.000€) num PPR nível risco alto 5 (numa escala de 1 a 7).
Este tema é muito vasto, e por isso, poderíamos ainda apresentar outros produtos financeiros, estratégias de diversificação mais sofisticadas e complexas, mais exemplos práticos, …, mas não é esse o objetivo principal deste artigo.
O mesmo passa por sensibilizar o leitor, fornecer algumas recomendações práticas que o ajudem a refletir sobre o tema, a tomar decisões sobre a matéria e conhecer os vários tópicos a ponderar no momento de investir.
Ter consciência do nosso perfil de investidor, das soluções de investimento disponíveis e dos parâmetros a combinar neste âmbito é fundamental.
E depois saber também que não existem soluções perfeitas e que estamos perante um “jogo de equilíbrios”, a monitorizar regularmente, em que risco financeiro, volatilidade, rentabilidade, liquidez, …, devem ser devidamente ponderados e estão naturalmente relacionados numa ótica de curto, médio e longo prazo.
Esta publicação já vai extensa e hoje ficaremos por aqui. Nos próximos artigos vamos mudar a direção para outra área, Seguros Vida Risco, quer para resposta às necessidades e exigências do Crédito à Habitação, quer numa ótica mais abrangente de um Plano de Proteção Pessoal e Familiar, que muitas vezes, e de forma algo incompreensível, é desvalorizada pelas pessoas e famílias, quando definem as suas prioridades, o que acaba por ter custos (impactos) relevantes. Mas isso será tratado na próxima quinzena.
Boa análise e até breve.

