Galhofa, memória viva de Trás-os-Montes

Paulo Freitas do Amaral, professor de história
No coração de Trás-os-Montes, entre lameiros e fragas, sobreviveu durante séculos uma prática singular de combate corpo a corpo, conhecida como luta galhofa.
Longe do riso fácil que o nome poderia sugerir, tratava-se de uma forma de luta tradicional, regulada por códigos próprios e profundamente enraizada na vida comunitária.
A designação “galhofa” não significava gargalhada, mas antes uma festa popular, uma celebração que unia as aldeias em torno de um ritual de força e destreza.
Documentada desde o século XIX por viajantes e etnógrafos, a luta galhofa apresentava traços comuns às lutas populares da Europa rural.
Em Espanha havia a “lucha leonesa”, na Bretanha a “gouren”, na Escócia o “backhold wrestling”.
Todas estas manifestações partilhavam o mesmo sentido: afirmar a coesão do grupo e testar a valentia dos rapazes nas feiras, nas festas religiosas ou nos mercados.
Em Vinhais, especialmente, a galhofa era tradição quase obrigatória em romarias como a Senhora da Assunção ou São Bartolomeu.
As regras eram simples mas exigentes. Os combatentes entravam no terreiro descalços, vestindo apenas a camisa e as calças de linho.
O objetivo era projetar o adversário ao chão, usando apenas a força dos braços, das pernas e da cintura, sem recurso a murros ou pontapés.
O combate, vigoroso mas leal, era acompanhado por um círculo de aldeãos que incentivavam os lutadores e serviam, ao mesmo tempo, de juízes informais.
No plano antropológico, a luta galhofa cumpria várias funções: era rito de passagem para a juventude, era momento de exibição de virilidade perante a comunidade e era ainda forma de resolução simbólica de rivalidades entre aldeias vizinhas.
O vencedor não recebia prémios materiais, mas conquistava prestígio, respeito e a memória de ter sido “o melhor da festa”.
Com a modernização do século XX, a tradição entrou em declínio. A emigração, a escolarização e a transformação da vida rural afastaram as novas gerações desse património imaterial.
Restaram memórias dispersas e o labor de alguns investigadores locais, como António Pires ou os registos orais coligidos pelo Museu da Terra de Miranda, que recolheram testemunhos de antigos praticantes.
Hoje, fala-se da luta galhofa em círculos académicos ligados à etnografia e à antropologia do desporto. Há esforços pontuais de recriação, sobretudo em feiras temáticas e festivais de cultura popular, mas falta um projeto consistente de valorização.
Talvez a integração desta prática no inventário do património cultural imaterial de Portugal pudesse abrir caminho à sua salvaguarda e transmissão.
A luta galhofa lembra-nos que a identidade portuguesa não se constrói apenas nos grandes feitos militares ou nas epopeias marítimas, mas também nestes gestos ancestrais, aparentemente simples, que guardam a memória de uma comunidade.
Recuperar esta tradição seria devolver voz a um Portugal rural que resiste, silencioso, nas encostas e nas aldeias de Trás-os-Montes.
*Paulo Freitas do Amaral, Professor, Historiador e Autor

