Exercício é medicamento: quando a fisioterapia pode ajudar a controlar a dor crónica

 Exercício é medicamento: quando a fisioterapia pode ajudar a controlar a dor crónica

Fisioterapia e exercício terapêutico assumem papel central na gestão da dor persistente, ajudando a recuperar funcionalidade e qualidade de vida.

Rita Ventura Fisioterapeuta da FisioNova

A dor é uma experiência que todos conhecemos. Na maioria das vezes surge após uma lesão ou patologia e desaparece à medida que o corpo recupera. No entanto, para muitas pessoas a dor persiste durante meses ou até anos, mesmo quando os tecidos já cicatrizaram.

Estima-se que uma parte significativa da população adulta viva com algum tipo de dor persistente, afetando a qualidade de vida, o sono, a capacidade de trabalho, a prática de atividade física e até as relações familiares e sociais.

Perante esta realidade, muitas pessoas procuram soluções rápidas, mas a evidência científica tem demonstrado que uma das ferramentas mais eficazes para o controlo da dor crónica é algo que, à primeira vista, pode parecer contraditório: o exercício.

Durante muito tempo acreditou-se que a dor era sempre um sinal de lesão e que o repouso era a melhor estratégia. Hoje sabemos que a relação entre dor e dano físico é mais complexa. Em muitos casos de dor crónica, o sistema nervoso torna-se mais sensível, funcionando como um alarme demasiado atento que continua a disparar mesmo quando o perigo já não existe.

É aqui que a fisioterapia assume um papel fundamental.

O fisioterapeuta não se limita a tratar músculos ou articulações. O seu trabalho passa também por ajudar a pessoa a compreender a sua dor, recuperar a confiança no movimento e regressar gradualmente às atividades que lhe são importantes. O exercício terapêutico é uma das principais ferramentas utilizadas neste processo.

Quando adequadamente prescrito, o exercício ajuda a reduzir a sensibilidade do sistema nervoso, melhora a força muscular, aumenta a resistência física, favorece a mobilidade articular e contribui para uma melhor saúde mental. Além disso, promove a libertação de substâncias produzidas pelo próprio organismo que ajudam a modular a dor e a melhorar a sensação de bem-estar.

Importa esclarecer que exercício terapêutico não significa treinar até à exaustão nem ignorar completamente a dor. Pelo contrário, trata-se de um processo gradual e individualizado, adaptado às capacidades, limitações e objetivos de cada pessoa. O que funciona para um indivíduo pode não ser adequado para outro.

Um dos maiores desafios para quem vive com dor crónica é o medo de se movimentar. Muitas pessoas evitam determinadas atividades por receio de agravar a situação. No entanto, essa redução progressiva da atividade física pode levar à perda de força, de resistência e de autonomia, criando um ciclo difícil de quebrar. A fisioterapia ajuda precisamente a interromper esse ciclo, promovendo um regresso seguro e progressivo ao movimento.

A mensagem principal é simples: movimento é saúde. Embora nem toda a dor desapareça por completo, a maioria das pessoas consegue melhorar significativamente a sua funcionalidade, independência e qualidade de vida através de uma abordagem ativa.

Hoje sabemos que, em muitos casos de dor crónica, o exercício é muito mais do que uma recomendação, é uma forma de tratamento. Por isso, tal como um medicamento deve ser prescrito na dose certa e para a pessoa certa, também o exercício deve ser orientado de forma adequada.

Porque viver com dor não significa deixar de viver. E muitas vezes, o primeiro passo para recuperar qualidade de vida começa precisamente com o movimento”

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