Eu Estou Contigo Todos os Dias

Eu Estou Contigo Todos os Dias

imagem retirada de http://paroquiagloria.org

Maria Helena Paes

A propósito do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos que se celebra no último domingo de Julho, instituído pelo Santo Padre, sendo este o primeiro ano do acontecimento que terá por lema: “Eu Estou Contigo Todos os Dias”, pretendendo-se uma tomada de consciência de que o Senhor de todas as idades está sempre connosco, especialmente nos momentos atuais de isolamento e de vários riscos de vida. Fiquei feliz com esta decisão do Papa Francisco em chamar a atenção para a necessidade de unir cada vez mais as famílias, enfatizando a promoção das relações entre todas as idades.

Há dias alguém que muito considero comentava que se sentia muito só. Os filhos, como é natural, tinham seguido a sua vida. Muito absorvidos pelas necessidades do dia-a-dia, raramente a contactavam, unicamente quando surgia alguma necessidade às vezes mais de cariz material. Referia em tom de desabafo: “Fiz tudo por eles, passei mesmo alguns constrangimentos financeiros para que nada lhes faltasse, custa-me muito sentir-me tão só!” Interiormente, recordei a tão conhecida frase: “Filho és, pai serás!”. Há, no entanto, filhos maravilhosos que acompanham os pais e que se sacrificam por eles, e dizem que é sua obrigação retribuir tudo o que os pais lhes deram fizeram ao longo da vida. Mas nem todos somos iguais e muitas vezes as dificuldades que a vida acarretam; as casas pequenas, os salários baixos, a necessidade de emigrar por diferentes motivos, os desentendimentos familiares, as doenças, provocam situações que se identificam com o desabafo que agora ouvia. A este propósito tenho bem presente uma declaração de Franciscus: “A maior doença da vida é a falta de amor, é não ser capaz de amar. E, a cura mais importante é a dos afetos”. A pandemia contribuiu e muito para agudizar a solidão, devido à necessidade de confinamento, no sentido de a todos proteger e, em particular os idosos, devido à sua fragilidade. Temos bem presente o que tantos sofreram a este nível, em particular nos lares. Eu própria fui testemunha presencial desse facto. Como se tornava doloroso não poder visitar os nossos entes queridos! Alguns acabariam mesmo por falecer isolados, sem a presença de um familiar ou de um ombro amigo que os confortasse nos seus últimos momentos de vida, devido à doença SARS-COV-2. “Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver e descubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros” (Papa Francisco).

Veio-me à memória a frase de uma prima já de muita idade, que não se encontra já entre nós e que afirmava incentivando-me a estudar: ”Maria Helena, ninguém é de ninguém, tens de te preparar para a eventualidade de um dia te encontrares só. Estuda, faz amigos, exerce uma carreira profissional, prepara a tua reforma, conta contigo e com Deus, o resto virá ou não por acréscimo, ouve a voz da experiência. Prepara-te para a vida!”. Tão sábias estas palavras, que agora valorizo sobremaneira. Querida prima, um muito obrigada ainda que tão tardio pelas suas palavras tão sábias com largos anos de atraso.

Ao pensamento veio-me a música que ouvia na minha infância com algum grau de frequência: “What you will be, will be”. (Que serás, serás). Recordo como me aproximava algumas vezes da minha mãe partilhando os meus sonhos e perguntando-lhe o que seria um dia? Respondia-me sempre: “O que quer que sejas, terás de o ir preparando, o mais importante é cuidares bem da tua formação para que tenhas bases sólidas para o que o futuro te vier a reservar”. Como gostava de ouvir esta música e sonhar. O seu refrão referia: “Que serás, serás, aquilo que for será, o futuro não se vê, o que for será…” É pena não conseguirmos voltar atrás de modo a corrigirmos algumas falhas no nosso percurso. Apesar de todos os bons conselhos, não conseguia, na altura, entender em toda a sua plenitude o seu significado.

Voltando ao Iº Dia Mundial dos Avós e dos Idosos e às palavras que o bispo de Roma,  também ele um idoso, dirigindo-se a todos os idosos: “Não importa quantos anos tens, se ainda trabalhas ou não, se ficaste sozinho ou tens uma família, se te tornaste avó ou avô, ainda relativamente jovem ou já avançado nos anos, se ainda és autónomo ou precisas de ser assistido, porque não existe uma idade para se aposentar da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos. É preciso pôr-se a caminho e, sobretudo, sair de si mesmo para empreender algo de novo”.

“Nesta perspetiva, quero dizer que há necessidade de ti para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã aquele em que viveremos – nós com os nossos filhos e netos -, quando se aplacar a tempestade… Há três pilares que tu – melhor que os outros – podes ajudar a colocar. Os sonhos, a memória e a oração. Na realidade o profeta Joel já anunciara no texto bíblico a seguinte promessa: “Os nossos anciãos terão sonhos e os jovens terão visões”. Mas os sonhos, como afirmava uma sobrevivente do holocausto, Edith Bruck, estão entrelaçados com a memória, pois recordar é viver, e para viver precisamos de sonhar acordados. E rezar… Como disse o Papa emérito Bento XVI: “A oração dos idosos pode proteger o mundo, ajudando talvez de modo mais incisivo do que a fadiga de tantos”. Sobretudo neste tempo tão difícil para a humanidade em que estamos todos na mesma barca – a atravessar o mar tempestuoso da pandemia. Que possamos repetir com confiança e, em particular para os mais jovens, as palavras que trazem a firme consolação no Deus que caminha sempre connosco: “Eu estou contigo todos os dias”.

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