Esperança e discernimento político

 Esperança e discernimento político

A Comissão Diocesana Justiça e Paz da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, enviou uma mensagem ao Povo de Deus desta diocese.

“O aparecimento de forças políticas populistas e autoritárias, que usam símbolos e ações religiosas católicas, tornou-se um grande desafio para as consciências católicas no combate ao desespero, passando o discernimento a precisar de ser mais refinado.

Em Portugal, par dos autoritários, de extrema direita e antissistema passaram a ter força política parlamentar, nas eleições de maio de 2025.

Aqui, como noutros países, a única razão para esse crescimento é a deceção dos portugueses com a classe política e o discurso perverso de que o “país precisa de seriedade e ordem, livre da corrupção dos políticos tradicionais”.

Há quem afirme, em nome de um determinado entendimento da laicidade do estado de direito, que a Igreja Católica – não se deve imiscuir nos assuntos políticos.

Por outro lado, há quem argumente que a Igreja Católica – deveria ter um pensamento único em termos políticos, ou estar vinculada a um determinado quadrante político ou mesmo a um determinado partido.

Mas, confrontando-nos com a Doutrina Social da Igreja Católica, nem uma, nem outra posição fazem sentido.

Não pode haver posicionamento ideológico por parte da Igreja.

Tem de existir uma centralidade da pessoa humana, à qual tudo se deve ordenar.

São João Paulo II afirmou que “todos os caminhos da Igreja levam ao homem”, que o trabalho é uma dimensão fundamental da existência do homem na terra, conforme o mandamento bíblico (Gn 1, 27-28), e, “Hoje, de facto, compreende-se melhor que a mera acumulação de bens e de serviços, mesmo em benefício da maioria, não basta para realizar a felicidade humana”.

Ou então: “há aqueles — os poucos que possuem muito — que não conseguem verdadeiramente «ser», porque, devido a uma inversão da hierarquia dos valores, estão impedidos pelo culto do «ter»; e há aqueles — os muitos que possuem pouco ou nada — que não conseguem realizar a sua vocação humana fundamental porque estão privados dos bens indispensáveis”.

“O mal não consiste em «ter» enquanto tal, mas no facto de se possuir sem respeitar a qualidade e a ordenada hierarquia dos bens que se possuem.

Qualidade e hierarquia que promanam da subordinação dos bens e das suas disponibilidades ao «ser» do homem e à sua verdadeira vocação”.

O Papa Francisco, durante o seu pontificado, acrescentou temas fundamentais e irrenunciáveis que nos devem orientar na formação de uma boa consciência política cristã e exortou os cristãos para que, na formação da sua consciência política, tenham como critérios fundamentais e irrenunciáveis a inclusão social dos pobres e marginalizados e a questão da paz e do diálogo social.

A proposta política do Papa Francisco resume-se na expressão cultura do encontro.

À luz das circunstâncias históricas, o Papa Leão XIII, em 1891, defendeu salários justos, direitos sociais para os trabalhadores e até mesmo o direito à sindicalização.

Será que é o que o Papa Leão XIV pretende fazer na era contemporânea quando afirmou no dia 12 de maio 2025 que a inteligência artificial traz “novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”?

O novo papa já demonstrou preocupação com a democracia.

Quando era bispo no Peru, criticou a libertação em 2017 do ex-ditador Alberto Fujimori, que em 1992 empreendeu um golpe de estado e lançou o país para oito anos de autoritarismo que inspira até hoje os movimentos de extrema-direita.

Também em conversa com os jornalistas no dia 12 de maio, o Papa Leão XIV demonstrou preocupação pela liberdade de imprensa, a prisão de jornalistas e o uso da desinformação a favor de ideologias.

O ressurgimento da extrema direita e da defesa do neoliberalismo económico pelo mundo e em Portugal criou estigmas contra os quais luta e, conquista fanáticos, à semelhança dos processos do aparecimento de seitas.

Não é um fenómeno inédito, mas surge como reação à decadência do processo democrático
envolvendo corrupção nas instituições ou o não atendimento das necessidades básicas dos cidadãos, como trabalho, educação, saúde e segurança.

Em Portugal surgem também agora, tal como quando em maio de 2019, em Itália, Mateo Salvini, beijou um terço durante um comício e confiava Itália e a Europa ao Coração Imaculado de Maria, que o levaria “à vitória”, alguns políticos a apropriarem-se do discurso religioso como forma de legitimação política.

Será que a ação política destes atores é promotora da mensagem de Fátima – que não é outra que a mensagem do Evangelho – e, portanto, fomentadora da cultura do encontro com aquele que é diferente, como por exemplo os imigrantes ilegais, ou as pessoas de etnia cigana?

Sabemos hoje como a democracia, é o “melhor de todos os imperfeitos sistemas de governo” (Churchill).

O Estado do Welfare State (estado de bem-estar social ou estado-providência em que é missão do Estado garantir o bem-estar básico dos cidadãos) viu-se engolido nas últimas décadas por um neoliberalismo desenfreado, principalmente a partir de Reagan e Thatcher, que pôs o sistema democrático em risco e abriu espaço para aventuras já conhecidas na primeira metade do século passado.

Vivemos tempos muito complexos em termos políticos.

A Igreja Católica, no seu intuito de crescente purificação à luz do Evangelho e fidelidade à Tradição, tem de concretizar novas formas da sua (constante) opção preferencial pelos pobres, pelos mais vulneráveis e desesperados da sociedade que, não poucas vezes, na prática pastoral ficaram para segundo plano, em detrimento de outras questões.

No fundo, ao afirmar que tal como é sagrada a vida do nascituro, “igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte” (Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, 101, 2018).

Assim, a atenção, a informação e a formação de consciências livres, capazes de um discernimento sério – sobretudo quando se trata de coisas que parecem boas à partida, mas cujos frutos contradizem o Evangelho e a Doutrina – são mais necessárias que nunca para o aumento da esperança das gerações atuais e futuras deste mundo e de Portugal em concreto e, tal como nos disse o Papa Leão XIV, “ a Igreja pode trazer luz às noites escuras…””

*Comissão Diocesana Justiça e Paz

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