Entrevista: Indicadores de gerações de vidas – Família Cristóvãos do Fatelo

Entrevista: Indicadores de gerações de vidas – Família Cristóvãos do Fatelo

É no Fatelo, sítio dos limites das aldeias de Corgas e do Malhadal do concelho de Proença-a-Nova, que Joaquim Alves, encontra motivação para os seus projetos de vida. A trabalhar, pensar e sentir-se (bis)neto e filho materno da Família Cristóvãos do Fatelo.

Produtor e (re)povoador a apostar nestes sítios no interior de Portugal, Joaquim Alves, está a aplicar a sua experiência, saberes e aprendizagens que continua em permanência, a gostar de trabalhar com o gado, em especial, o caprino.

Neste dia em que se celebra a data dos 100 anos de nascimento do seu avô, José Cristóvão, Joaquim Alves responde às perguntas de Libânio Martins.

Libânio Martins (LM): O que representa para o Joaquim, depois da infância e da adolescência e concluídos os estudos, o início da vida ativa a trabalhar na restauração, em Proença-a-Nova?

Joaquim Alves (JA): A atividade na restauração, naquele período, representa muito para mim. Desde logo, por marcar a entrada na vida ativa e depois porque tive oportunidade de trabalhar em restaurantes de nome, naquela época como hoje e que desejamos continuem bem no futuro. Tempo de relacionamento social e, também, pessoal intenso. Iniciei na “Fonte velha”, que deixei para ingressar no serviço militar. Quando voltei fui para a “Milita”. Foi na então “Estalagem das Amoras” que trabalhei, até partir para o Brasil. Guardo daqueles anos os bons restaurantes que temos, na nossa terra, os gostos de clientes, na maioria locais, a oferta e procura dos pratos de confeção e sabores tradicionais da gastronomia do nosso concelho, em crescente valorização.

LM: O que nos conta dos 14 anos da sua estadia no Brasil, país de dimensões e características bem diferentes da nossa origem e para onde emigrou depois de trabalhar na restauração em Proença-a-Nova?

JA: Precisamente, por aquela experiência que tinha, quando cheguei ao Brasil, abri uma lanchonete (café), aplicando algum conhecimento que já levava daqui. Depois fui trabalhar para a termotelas, uma empresa do grupo belgo mineira, como eletricista e mecânico industrial. Uma das minas em que trabalhei foi naquela onda em que a barragem rebentou e matou mais de 300 pessoas, tragédia humana e ambiental, que alterou a vida de muita gente e, também, a da minha família.

LM: O que gostou, receou e o que contribuiu para deixar o Brasil, aquele tão maravilhoso, quanto grande país?

JA:  Gostei muito do Brasil e deixei muitos amigos lá. É um povo muito alegre e que vive a vida em festa. O que menos gostei foi a violência. Graças a Deus nunca aconteceu nada comigo, mas a gente via o que acontecia todos os dias, eram arrepios sobre arrepios.

O que me levou a regressar foi, em especial a família que lá constitui, com minha mulher Cássia e a que aqui me espera sempre: pai, mãe e irmão e outros familiares e amigos. Com o incidente que referi a empresa teve que mandar muita gente embora e fechar algumas áreas, incluindo onde eu estava inserido.

LM: Recomenda a pessoas amigas suas do Brasil para virem passear, viver e trabalhar em Portugal?

JA: Sim. A segurança e a qualidade de vida são as recomendações que mais apresento para nos visitarem, aqui viver e trabalhar. Convidamos pessoas amigas para acolhermos, na nossa terra, apresentar e percorrer estes sítios como o Fatelo, aldeias vizinhas do concelho e Portugal.

LM: Das muitas recordações, designadamente, da infância e adolescência, o que gostaria de nos dar conhecer sobre aqueles tempos da sua vida e de seus avós, em especial, de seu avô José Cristóvão, na data em que se completam os 100 anos do seu nascimento?

JA: Nossa! É muito difícil falar do meu avô, passei os meus anos de infância com eles, no Fatelo. Falar dele é falar de uma pessoa adorada, por todos, duma terra com muito fruta e variada, adorava pescar uns peixes na ribeira, sempre bem-disposto, pronto para beber um copo e dar a beber na adega, onde se bebia sempre um bom vinho e tinha sempre uma bucha para petiscar junto. Um exemplo de uma vida simples, mas cheia de alegria e com prazer em receber os amigos e familiares para uma boa conversa.

Nasci em Proença, mas cresci naquele sítio. A minha mãe ia trabalhar e não havia creche e vim para aqui com um ano de idade, onde passei dias, meses e anos, até ir para a escola primária e depois voltava sempre nas férias. Lembro-me, com uns 3 anos, de ir à missa às Corgas todos os domingos. Em todo o lado eu ia com o meu avô:  ao mato e fazia companhia em todas a tarefas e lides do campo.

O meu avô era um bom contador de histórias, o que ajudava a passar o tempo nos dias pequenos e nas longas noites chuvosas e frias de inverno, em que o correr da água no ribeiro se misturava com o crepitar da lenha da lareira acesa e “as vozes” de muitos animais e aves que por aqui se ouvem. Contava meu avô peripécias das caminhadas e viagens que desde criança fazia das Corgas – Fatelo – Corgas, até a Família se mudar para aqui. Já como adulto percorria as aldeias do concelho, a pedir para as irmandades e confrarias das almas e do Santíssimo da Paróquia de Proença-a-Nova e, muitas vezes, a pé; da viagem para cumprir serviço militar, em Torres Novas, por curto período, dado que, sendo filho mais velho e porque sua mãe, minha bisavó Nazaré, enviuvou cedo, era necessária a sua participação ativa no sustento da família. 

Com os meus avós e toda a Família tomámos conhecimento, sentimos e sofremos, profundamente, a morte por assassinato do meu tio avô, Padre Manuel Joaquim Cristóvão, em Moçambique, no dia 21 de janeiro de 1991. Encontrava-me a estudar em castelo branco quando recebi a notícia. Triste, muito triste notícia. Do meu tio avô, Padre, Missionário, guardamos gravações de conversas com sua mãe minha bisavó, de algumas horas, com ensinamentos que merecem reflexão e o nosso maior respeito.

LM: Neste quadro de tantas recordações o que o motiva para continuar e desenvolver atividades, com sua mulher Cássia, nos dias de hoje e para futuro, no sítio onde gerações da sua família viveram e de que permanecem marcas profundas?

JA: Em primeiro lugar a família que sempre me apoiou e me incentiva, a seguir o gostar da atividade em si. Depois, gosto muito de trabalhar com animais e para o futuro tenho esperança em resultados do muito trabalho e dedicação aqui às terras dos meus (bis) avós.

LM: Que resultados destaca dos seus trabalhos de pecuária e agroflorestal que dia a dia vem realizando?

JA: Hoje em dia, ainda, não dá muito rendimento. Neste momento, estamos em fase de crescimento com algumas mudanças em relação aos animais, a investir na raça autóctone da nossa região, na charnequeira e na raça espanhola, malaguenha e murciana.

Estamos a trabalhar para aplicar o modelo de exploração biológica. Isto é, uma exploração onde os animais não comem rações e as terras onde os animais pastam não têm adubos.

LM: Que apoios reconhece como necessários e essenciais para sustentar e melhorar as atividades, em áreas rurais, no interior, a avaliar por aquelas em que trabalha?

JA: Procuramos apoios que não tivemos no princípio de atividade. É difícil de falar, pois sabemos que existem, mas também são difíceis de alcançar, devido à muita burocracia. Persistimos em conseguir de entidades ajudas para a atividade de criação e exploração de caprinos para produção de leite e outras atividades, como é o exemplo da Agripinhal. Confiamos que aos poucos vamos lá chegar.

LM: Quer especificar que apoios reconhece e sugere como necessários e essenciais?

JA: Os apoios que precisamos são técnicos e financeiros, para que possamos atingir a meta de 160 cabeças de gado, dentro de 1 ano.

Para isso, pretendemos apostar na seleção e diversificação das espécies de cabras, melhorar as condições de produção e exploração, desde as pastagens, aos edificados e métodos de recolha do leite.

A terraplanagem já feita para as ampliações das estruturas, a ordenha mecânica e a melhoria de currais para acolher o gado em condições, são passos em concretização.

A médio prazo prevemos necessitar de dois a três postos de trabalho. Por agora, vamos dando um passo de cada vez; mas também mais tarde pretendemos desenvolver outras atividades, a começar com a apicultura.

LM: Que recomendações daria a pessoas para viver e trabalhar nestes sítios, como o Fatelo, aldeia das Corgas e outras aldeias, no concelho de Proença-a-Nova? 

JA: Para além da natureza, sempre atraente, a tranquilidade e segurança são as condições de vida mais importantes que aqui encontramos e toda a gente reconhece existirem. Por isso, recomendamos que venham experimentar e, por certo, vão ficar.

Para quem, como eu, viveu numa cidade com quase tantos habitantes como Portugal é, sem dúvida, a tranquilidade e os ares do nosso interior que nos fazem querer ficar, trabalhar e viver nestes locais.

LM: Que ensinamentos e experiências apresenta para quem pretenda visitar o seu projeto e que acolhimento as pessoas podem esperar? 

JA: As pessoas podem vir visitar-nos e é com muito gosto que, com a minha mulher Cássia, vamos receber as pessoas sempre que quiserem encontrar-nos: numa ordenha mecânica ou manual, no tratamento do gado e poderão ter a sorte de ver um parto. Quem quer que seja, vai ter sempre um cantinho de vistas largas para acolhimento.

LM: Que registo, escrito ou foto/imagem, de entre muitos, escolhe como marca da Família Cristóvãos do Fatelo? 

JA: Eu escolheria A HORTA DO FUNDO, pois, foi por causa dela que estou aqui.

Por uma horta, esta horta, meus bisavós vieram, para aqui, pelo ano de 1933, das Corgas para o Fatelo com seus 5 filhos e meu avô José, o mais velho, já trazia, por vezes, irmãos mais novos ao “colo” ou às “cavalitas”. Ficava “longe” da casa da família, vir e ir, dia a dia, da aldeia para este sítio, para assegurar o cultivo daquela terra.

Por mais que possamos saber, conhecer e escrever A HORTA DO FUNDO, cá está e vai continuar, como uma das MARCAS que hoje escolho, porque nos trouxe aqui e acolhe a nossa Família e quem nos visitar.

LM: Que mensagem gostaria de deixar à sua família, a pessoas amigas e conterrâneas, leitores/as do Jornal de Proença, na data de 06/10/1921-2021, 100 anos do nascimento de seu avô José?  E o que imagina ele nos diria hoje?

JA: Com o meu irmão Miguel José, os meus pais, toda a nossa família, convidamos todas as pessoas a lembrarmos e homenagearmos o meu avô José, no dia 6 de outubro de 2021, por motivo da celebração dos 100 anos do seu nascimento.

José Cristóvão do Fatelo, meu avô materno, permanece, na minha, nas nossas vidas. Tenho muito orgulho de ser seu neto, ensinou-me muito pelo exemplo de trabalho, alegria e valores da vida pessoal, familiar, social e religiosa. Agradeço a Deus o privilégio de meus avós maternos, pela mãe que me deram e, hoje e no futuro, gostaria de poder continuar a trabalhar e desenvolver atividades que me ensinaram e nos mesmos locais. Replico, como imagino que ele diria, neste dia e sempre: trabalhemos, vivamos com alegria e sejamos felizes. Um forte abraço, meu avô Zé, neste dia dos 100 anos do seu nascimento.

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