Empenho Olímpico nos jogos da vida

Empenho Olímpico nos jogos da vida
Dom Antonino Dias, bispo de Portalegre-Castelo Branco

A festa é global! Vivamos as festas da vida para fazer da vida uma festa! Os Jogos Olímpicos cativam pelo que são e significam. São espetáculo e arte, destroem barreiras entre raças e culturas, fomentam a amizade, o diálogo e a paz entre os povos. Nasceram em Olímpia, na Grécia antiga, muitos séculos antes de Cristo, lembram-se? Nestes jogos em Tóquio, 91 atletas portugueses, distribuídos por 17 modalidades, têm dado o seu melhor, nem sempre com o êxito que esperavam, mas cuja participação, só por si, já é digna de elevado apreço e registo. Parabéns para eles, com medalha ou sem medalha.

Sendo um valor de grande relevância para toda a humanidade, a Assembleia-Geral da ONU, por uma decisão de 2013, assumiu o dia 6 de abril como Dia Internacional do Desporto ao Serviço do Desenvolvimento e da Paz. A Igreja, consciente do aforisma “mens sana in corpore sano”, sempre sublinhou a importância do desporto. O próprio Papa Pio X foi promotor dos Jogos Olímpicos, em 1908. Muitos são os pronunciamentos da Igreja sobre as vantagens do desporto e o seu valor para o desenvolvimento integral da pessoa. O Concílio Vaticano II recomenda que os tempos livres sejam também ocupados com exercícios e manifestações desportivas, muito úteis para manter o equilíbrio psíquico e estabelecer relações fraternas entre os homens de todas as condições, raças e países (cf. GS61). São João Paulo II, o “atleta de Deus”, afirmava que o desporto é “um dos fenómenos típicos da modernidade”, é um “sinal dos tempos” capaz de interpretar as novas exigências e as renovadas expectativas da humanidade”. Ele desejava que os atletas fossem campeões no estádio, mas também lhes pedia que fossem “modelo para milhões de jovens que têm necessidade de “líderes” e não de “ídolos”». Bento XVI até lembrou que a luz da chama olímpica «remete para o Verbo encarnado, luz do mundo que ilumina o homem em todas as dimensões, incluindo a desportiva». Francisco tem deixado interessantes desafios nesta área, promoveu a iniciativa sobre o “Desporto ao Serviço da Humanidade”, onde muitos líderes mundiais, incluindo o secretário-geral da ONU e o presidente do Comité Olímpico Internacional, marcaram presença. Na Exortação Apostólica Cristo Vive, realça a importância da prática desportiva, cujas potencialidades a Igreja não deve subestimar (cf. CV227).

Todas as modalidades desportivas sentem o dever de formar, cuidar e estimular, aceitando as vitórias e as derrotas com dignidade e fair play. Os treinadores esmeram-se por fomentar a competência, a literacia, o entusiasmo e o encorajamento desportivos por entre planos, técnicas, táticas e estratégias que implicam a exigência e o domínio pessoal, o entendimento e a compreensão das mesmas.

E quer queiramos quer não, a vida também é um jogo, um jogo nem sempre fácil. Não raro, dá muita água pela barba e leva a correr alguns riscos nos estádios da vida. Também envolve disciplina, espírito de sacrifício, autocontrolo, equilíbrio, respeito pelas regras, lealdade, justiça e perseverança, alimentando sempre a esperança de vencer embora por entre êxitos e fracassos.

Mas sempre há algumas diferenças. Nas provas desportivas, embora todos os atletas corram e lutem pela conquista de um prémio, só um ganha esse prémio, um prémio, aliás, perecível. Não assim no jogo da vida. Aqui, não há acessão de pessoas, os mais saudáveis e os estropiados, todos, todos são desafiados a entrar na prova, todos podem chegar à meta que não está tanto na distância a percorrer mas no esforço, na qualidade do percurso que se faz. E todos podem ganhar o prémio, um prémio de valor incalculável. A lógica do desporto é, de facto, a lógica da vida, ambas acarretam amor à camisola, dedicação, empenho e sacrifícios para que o resultado seja o ideal.

Para encorajar à perseverança e à fidelidade nesta prova, a Sagrada Escritura também utiliza linguagem desportiva. São Paulo, em Corinto, junto ao estádio dos grandes jogos ístmicos dedicados a Posídon, chama a atenção para isso e estimula a ingressar na grande prova da vida com confiança e determinação: «Não sabeis que os que correm no estádio correm todos, mas só um ganha o prémio? Correi, pois, assim, para o alcançardes. Os atletas impõem a si mesmos toda a espécie de privações: eles, para ganhar uma coroa corruptível; nós, porém, para ganhar uma coroa incorruptível» (1 Cor 9, 24-26).

Numa carta ao seu amigo Timóteo, Paulo chama-lhe a atenção para a necessidade de se cumprirem as regras nesse jogo da vida que outras não são senão seguir o exemplo de Jesus: perseverar na oração, exercitar-se nas virtudes e levar a cruz de cada dia, com Cristo, em Cristo, ao jeito de Cristo: «Aquele que participa numa competição não recebe o prémio se não competir segundo as regras» (2 Tim 2, 5).

A tão acarinhada cultura do deixa correr e da indiferença, a “cultura do sofá” e do zapping, a tentação de ir adiando os “treinos” para mais tarde ou de pensar que qualquer coisa serve para vencer, podem fazer-nos esquecer a exigência da prova que nos é proposta. Esta atitude até pode antecipar o “inverno da vida”, não aquele inverno inevitável e caraterizado pelo envelhecimento físico, mas sim aquele que nos tira a capacidade de sonhar e avançar na vida com alegria e esperança, sendo úteis à comunidade humana. Este inverno acontece na vida sempre que nos fechamos em copas e nos deixamos fustigar pelas ventanias do egoísmo e das importâncias balofas. E são muitas e sofisticadas as modalidades deste inverno da vida: protestar, gemer, desistir, amuar, maldizer, espirrar, tossir, descartar, são algumas dessas expressões.

Mais: desde que o desporto se profissionalizou e o prémio deixou de ser uma coroa de louros ou uma coroa de oliveira brava, há por lá muita ambiguidade e interesses associados, perdeu muito do seu encanto e sentido, e, a par, saltita a corrupção, a exploração e a idolatria. Tal como no desporto, não podemos permitir que o pó da vida nos faça desistir ou perder o encanto e a razão de ser da nossa prova, e nos leve a entrar também pelos caminhos da corrupção de costumes e de idolatrias várias. Sabendo qual é o objetivo que realmente nos deve atrair, poderemos dizer como São Paulo: “uma coisa eu faço: esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus» (Fl 3, 13-14). Ora, quem nos avisa nosso amigo é. E Cristo alertou-nos ao nos dizer que só quem perseverar até ao fim vencerá a coroa da glória (Mt 24, 12-13). Por isso, avaliar as regras do jogo que usamos é um imperativo quotidiano apreciado sob aquela luz que ilumina todo o percurso da estrada, a luz que nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso (LF1). Só assim cada um será capaz de prestar as provas da vida de forma mais rápida {Citius}, mais alto {Altius}, com mais força {Fortius}. E no regresso à Pátria definitiva, o acolhimento será sem igual, o Prémio e a Festa serão inimagináveis, tal como está escrito: nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais o coração humano percebeu o que Deus tem preparado para aqueles que o amam (cf. 1Cor 2,9).

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