Elevador da Glória: Um ano depois, viúvo de Ana Paula continua à procura de respostas

 Elevador da Glória: Um ano depois, viúvo de Ana Paula continua à procura de respostas

Isaque Adam, marido de Ana Paula Lopes, natural do Vergão, Proença-a-Nova, exige respostas sobre o acidente que, há um ano, vitimou a mulher. A família avançou para tribunal contra a Carris, a seguradora Fidelidade e a empresa responsável pela manutenção do equipamento, reclamando mais de um milhão de euros.

Passou um ano desde o acidente que vitimou Ana Paula Lopes, natural de Proença-a-Nova, no descarrilamento do Elevador da Glória, em Lisboa. Mas, para o marido, Isaque Adam, o tempo parece não ter avançado. A dor da perda permanece e, a par do luto, mantém-se uma pergunta para a qual ainda não encontrou resposta: como foi possível que uma tragédia destas acontecesse?

“Parece que ficou tudo estagnado no tempo”, afirmou Isaque à Renascença, numa altura em que se assinala o primeiro aniversário do acidente que, a 3 de setembro de 2025, provocou 16 mortos e 24 feridos, de 15 nacionalidades.

Ana Paula tinha 49 anos e era casada com Isaque há 22 anos. O casal tinha uma filha, então com 17 anos. No dia da tragédia, Ana Paula tinha saído do trabalho na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde acompanhava processos de adoção, e, como fazia habitualmente, entrou no Elevador da Glória para regressar a casa. Estava acompanhada por uma colega. Cerca de 50 segundos depois do início da viagem, uma das composições perdeu o controlo após a rotura do cabo que ligava os dois ascensores, acabando por embater violentamente numa esquina da Calçada da Glória. Ana Paula não sobreviveu.

“O luto é agudizado pela falta de respostas”. Um ano depois, Isaque diz continuar sem as explicações que considera fundamentais para compreender o que aconteceu e para perceber quem deve assumir responsabilidades. “Estamos todos os dias a confrontar esta realidade, quando chegamos a casa e a pessoa que temos mais querida está traduzida a silêncio. A um silêncio eterno, porque nunca mais vamos ver essa pessoa, nunca mais vamos ouvi-la”, contou.

A ausência de respostas, diz, torna ainda mais difícil o processo de luto. O marido de Ana Paula tem também criticado a atuação das instituições após o acidente, apontando, em particular, o que considera ter sido falta de acompanhamento por parte da Câmara Municipal de Lisboa. Depois da tragédia, o presidente da autarquia, Carlos Moedas, garantiu publicamente que as famílias das vítimas teriam todo o apoio. Isaque afirma, contudo, que durante largos meses não recebeu qualquer contacto da Câmara. “Sinto um abandono da parte de algumas instituições, nomeadamente da Câmara Municipal”, afirmou. Esta semana, já perto do primeiro aniversário da tragédia, Isaque foi chamado pela primeira vez para uma reunião com Carlos Moedas.

A procura de respostas levou também a família de Ana Paula aos tribunais. No início de junho, Isaque e a filha apresentaram uma ação no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa contra a Carris, a Fidelidade, enquanto seguradora da empresa, e a Mntc – Serviços Técnicos de Engenharia, responsável pela manutenção do equipamento. A família reclama 1.050.000 euros de indemnização. A decisão de avançar judicialmente surgiu depois de Isaque considerar insuficiente a proposta de indemnização apresentada no âmbito das negociações com a seguradora. A “falta de respostas e a inércia que o processo estava a levar” terão pesado igualmente na decisão. Na base da ação estão também as conclusões do relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF). Publicado em outubro de 2025, o relatório concluiu que o cabo subterrâneo que ligava as duas composições não estava certificado para utilização em instalações destinadas ao transporte de pessoas. O documento identificou ainda falhas na manutenção e na supervisão dos trabalhos realizados e constatou que os sistemas de travagem de emergência nunca tinham sido testados para um cenário idêntico ao da rotura do cabo. O processo judicial encontra-se agora a aguardar a contestação das entidades visadas.

A questão das indemnizações está longe de estar encerrada para a maioria das famílias. Segundo informação divulgada pela Fidelidade na última semana de agosto, a seguradora tinha concluído os processos relativos a apenas quatro das 16 vítimas mortais do acidente. No caso dos 24 feridos, ainda não tinham sido apresentadas propostas de indemnização, uma vez que a situação clínica das vítimas não estava, em muitos casos, definitivamente consolidada. A seguradora afirma, contudo, que continua a suportar, de acordo com cada situação, despesas diretamente relacionadas com o acidente, incluindo tratamentos médicos, hospitalares e de reabilitação, apoio psicológico, deslocações e outros encargos.

Enquanto aguarda respostas da Justiça e das entidades envolvidas, Isaque diz viver “um dia de cada vez”. A filha do casal, entretanto entrada no ensino superior, é hoje uma das suas principais preocupações. Isaque descreve-a como tendo uma personalidade muito semelhante à da mãe e destaca o apoio dos amigos como uma das suas principais âncoras. Mas há também um propósito que mantém vivo: aquilo a que chama o “projeto Ana”, destinado a preservar e honrar a memória da mulher. “O único objetivo, no fundo, é o projeto Ana, que é honrar a memória da Ana. Eu não consigo pensar para além disto”, afirmou.

Ana Paula Lopes tinha 49 anos quando morreu. Natural de Proença-a-Nova, deixou para trás a família, os amigos e uma comunidade que, um ano depois, continua a acompanhar com dor a história daquela que foi uma das 16 vítimas mortais da tragédia do Elevador da Glória.

Um ano depois, enquanto Lisboa inaugura um memorial em homenagem às vítimas, a família de Ana Paula continua à espera de outra coisa: respostas sobre o que aconteceu e sobre quem deve assumir responsabilidades.

Fonte: Renascença

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