Eles dizem e não fazem

Eles dizem e não fazem

Ressoam dentro de mim estas palavras de fogo: “eles dizem e não fazem”. Tomo consciência que, por vezes, me comporto como “funcionário de Deus” ou “profissional do sagrado”. Também sofro da comodidade do fácil dizer e nada fazer. Agravo a distancia entre o que afirmo e a própria vida. “Bem prega Frei Tomás: faz o que ele diz,
não o que ele faz”. Quantas “bazucas” de promessas no mundo da politica, discursos de circunstancia para anestesiar as consciências… Ninguém está imune a esta incoerência e até S. Paulo alertava: “não faço o bem que quero, mas o mal que não quero”. Como os escribas e fariseus, por vezes, somos especialistas na lei de Deus, burocratas criadores de normas e regulamentos que impomos pesadamente aos outros, mas analfabetos do coração, ignorantes da vida.
Como sempre, é mais fácil denunciar, lamentar-se da crise, da pandemia, berrar contra as injustiças, orçamentos chorudos, propor receitas fáceis… Agir é aborrecido e incómodo. Até para mim é mais fácil digitar umas palavras no computador, copiar uma ideia ou um texto, imprimi-las em papel, que talvez alguém terá prazer em ler, mas que tantas vezes não se imprimem na vida. É fácil falar com a boca, mas o que se diz
não sai do coração. Deixar-se guiar pela Palavra de Deus são contas de outro rosário. A autoestrada das aparências é mais cómoda do que os caminhos concretos do dia-a-dia.
Contudo, enquanto nos descobrimos frágeis, incoerentes e pecadores, é-nos oferecida uma certeza: temos um Deus que é Pai misericordioso, temos um único Mestre que nos guia e somos todos irmãos. Deus não é o patrão dos patrões, mas é o servo que em Jesus se ajoelha aos pés dos discípulos. Enquanto os grandes desta terra fazem tronos, Deus cinge-se de uma toalha e deseja curar todas as feridas da humanidade. O Pai nunca exige nem obriga, mas cuida e ampara. Ele não reivindica direitos, mas responde às necessidades. O Pai revela-se nos filhos, temos a “pinta” de Deus, o
Mestre faz-se servo, o Cristo faz-se irmão, e como irmão torna-se o último. É este o estilo de Deus: “pode quem serve; ganha quem se perde pelo outro; conquista quem ama. E nenhum amor é mestre a não ser Aquele que é o próprio Amor!”

P. Luís Manuel Bairrada

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