Disto e daquilo

Disto e daquilo

David e Golias

Cecília Rezende – Escritora

Há pouco mais de 250 anos, no reinado de D. José I, Portugal foi envolvido na Guerra dos Sete Anos, o primeiro conflito a ter algumas características mundiais, pelo número de países envolvidos na Europa e fora dela. Os principais beligerantes eram a França e a Inglaterra. Espanha posicionou-se ao lado da França e pressionou Portugal a tomar o mesmo partido. Embora a Rainha fosse irmã do Rei espanhol, Carlos III, Portugal não abandonou a sua velha aliada e colocou-se ao seu lado. No dia 1 de abril de 1762, os embaixadores francês e português encontraram-se com Sebastião de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal, para o convencerem, como primeiro ministro que era, a proibir a utilização dos portos portugueses pelas embarcações inglesas. Caso não o fizesse, um exército de 40.000 homens invadiria Portugal. Foi esta a resposta dada por Sebastião José:

  • 40.000 homens é muita gente para um país tão pequeno como Portugal; mas cada um pode tanto em sua casa que, mesmo depois de morto, são precisos quatro homens para o tirarem para fora.

Ao longo da História, nós vemos inúmeros casos de lutas desiguais em número e forças, em que vence aquele que defende o que é seu. Os que invadem uma terra que não é a sua lutam porque receberam essa ordem. Lutar é matar e morrer. Os que defendem o chão onde nasceram, a terra a que chamam pátria, sabem porque morrem. Os mercenários matam para não morrerem. Festejam-se agora os vinte anos da libertação de Timor, um pequeno país que lutou contra um gigante e venceu. A pátria não é apenas a terra onde se nasceu: é a língua que se fala, é o chão onde estão enterrados os pais, os avós, é a casa onde os filhos nasceram, é a escola onde se estudou, os livros que se leram, as canções que se cantaram. É isso que motiva os Ucranianos, que motivou os Timorenses, que motivou o povo de Lisboa no cerco que sofreu há seiscentos anos. Sempre que um pequeno ganha a um grande fala-se de David e Golias, mas talvez já se tenha esquecido da história deles. Os hebreus estavam sendo atacados pelos Filisteus, um povo que tinha ocupado Canaã. Golias um guerreiro filisteu de altura descomunal, segundo a Bíblia media quase três metros, desafiava os hebreus para uma luta singular, em vez de lutarem os dois exércitos. Nenhum soldado hebreu se atrevia a defrontar o gigante. David, um pequeno pastor que ia levar comida aos irmãos que lutavam na frente do exército israelita, ouviu o desafio de Golias e decidiu aceitá-lo. Pediu autorização a Saul, rei dos hebreus, comandante do exército, que tentou dissuadi-lo, dada a sua juventude. David insiste e consegue autorização. Procura cinco pedras redondas, que serão a única arma, juntamente com a sua funda. Apresenta-se perante Golias, que ri ao vê-lo, levantando a sua lança e o seu escudo, para que o pastor veja bem o tamanho deles. David não se intimida: calcula a distância, posiciona o corpo, gira a funda cada vez mais depressa, e atira a pedra, que acerta em pleno no meio da testa do gigante, que cai morto por terra. Os Filisteus, ao verem-se privados do seu chefe, fogem, perseguidos pelos Hebreus vitoriosos. Golias estava votado ao fracasso: ele possuía apenas a força bruta; não possuía a inteligência, a ousadia, a inovação, a capacidade de surpreender. Os mais pequenos, os mais fracos também podem vencer. As vantagens não são absolutas. É de toda a atualidade a mensagem desta histórica bíblica.

À margem— Voltando ao início: efetivamente um exército de 40.000 soldados franceses e espanhóis invadiu Portugal pela fronteira transmontana, ocupando várias cidades fronteiriças. O exército português ocupava-se em preparar a defesa de Lisboa, mas, entretanto, em novembro desse mesmo ano, a guerra terminou e o exército franco-espanhol retirou-se sem que se tivesse travado qualquer batalha significativa. Por isso essa guerra ficou conhecida pela Guerra Fantástica e é pouco conhecida da maior parte dos Portugueses.

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